Em pleno aniversário da Revolução Russa, o mundo assistiu, quase sem perceber, a mais um sinal de que o espectro do socialismo volta a rondar o Ocidente. No dia 7 de novembro (1917), data em que se relembra o golpe bolchevique que mergulhou a Rússia em sete décadas de tirania, Nova York — o coração do capitalismo mundial — elegeu um político abertamente socialista: Zohran Mamdani. O nome pode parecer irrelevante, mas o símbolo não é. Porque quando a capital cultural do mundo livre abre as portas para um discurso que nasce da mesma ideologia responsável por cem milhões de mortes no século XX, é hora de perguntar: o que o Ocidente esqueceu?
Durante décadas, acreditamos que o socialismo havia sido derrotado com a queda do Muro de Berlim. Que o horror dos gulags, das filas intermináveis por pão e da miséria travestida de igualdade havia ensinado à humanidade o valor da liberdade. Mas a história, quando ignorada, tem o hábito de voltar disfarçada — e o novo socialismo chega não com tanques ou fuzis, mas com slogans sedutores sobre “justiça social”, “inclusão” e “redistribuição”.
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O socialismo moderno trocou o martelo e a foice pelo vocabulário progressista. Não fala mais em luta de classes, mas em “interseccionalidade”. Não promete o paraíso dos operários, mas o “mundo inclusivo”. No entanto, sob as novas palavras, permanece a mesma estrutura mental: o ódio à propriedade privada, à liberdade individual, à religião e à responsabilidade pessoal. É a velha ideologia em nova embalagem. E Nova York acaba de legitimá-la nas urnas.
A eleição de um socialista em Nova York não é um evento isolado. É parte de um processo mais amplo, que vem corroendo lentamente os alicerces da civilização ocidental. As universidades, antes templos do pensamento livre, tornaram-se laboratórios de doutrinação ideológica. Professores que se dizem “progressistas” ensinam jovens a desconfiar de sua própria cultura, a odiar seus fundadores, a ver opressão onde há mérito e privilégio onde há liberdade. A educação deixou de formar cidadãos e passou a produzir militantes.
Essa erosão intelectual é o que permite que ideias falidas voltem a ser vendidas como soluções modernas. O jovem eleitor nova-iorquino que votou em um socialista não o fez por conhecer Lenin, Marx ou Trotsky, mas por ignorar ou desconhecer esses nomes. Ignorar o que o socialismo fez com a Rússia, com Cuba, com a Venezuela. Ignorar que, onde o Estado promete igualdade, termina por distribuir apenas pobreza e medo. Ignorar que, sob o pretexto de justiça, o socialismo sempre se converte em tirania.

Lenin dizia que “a mentira é uma arma revolucionária”. E essa arma continua em uso. Hoje, ela se manifesta na forma de eufemismos e slogans cuidadosamente escolhidos: “equidade”, “sustentabilidade”, “política de reparação”. São expressões que soam virtuosas, mas escondem o mesmo projeto de poder total de 1917. Trotsky falava da “revolução permanente”; os novos socialistas falam em “transformação estrutural”. O objetivo é idêntico: substituir o indivíduo pelo coletivo, a liberdade pela obediência, o mérito pela lealdade ideológica.
O socialismo defendido pelos soviéticos ou Mamdani é o mesmo: transferir toda a moralidade para o Estado. Quando o governo se torna a fonte da virtude, todo dissidente é um inimigo que precisa ser silenciado. É essa mentalidade, ainda que em versão “light”, que ressurge nas universidades, na mídia e agora nas urnas.
A eleição de um socialista em Nova York deve ser vista como o sintoma de uma doença cultural mais profunda. O Ocidente está perdendo o sentido da própria história. O mesmo espírito de culpa que o impede de defender sua civilização também o leva a aceitar, passivamente, que seus inimigos ideológicos se apresentem como “defensores dos pobres”. O problema é que, como sempre, quem paga o preço são os pobres.
Não há nada mais elitista do que o socialismo moderno. Ele é cultivado nas universidades mais caras, promovido por artistas milionários e celebrado por políticos que jamais conheceram o preço de uma fila para alimentação. Enquanto pregam igualdade, vivem do privilégio. Enquanto denuncia o capitalismo, usa iPhones e jantam em restaurantes de luxo. É o socialismo de vitrine — e sua força vem justamente do vazio moral de uma geração que confunde compaixão com rendição. Lutar dá muito trabalho.
O que está em curso é uma revolução silenciosa. Uma que não precisa de barricadas, porque age por dentro das instituições. O socialismo aprendeu com seus fracassos do século XX: hoje, em vez de destruir, ele se infiltra. Em vez de impor, ele persuade. Ele fala a linguagem do progresso, mas age com a lógica do controle. Por isso, é mais perigoso do que nunca.
A eleição de um socialista em Nova York é mais do que um evento político; é um espelho do esquecimento moral do Ocidente. É a vitória de uma retórica que promete igualdade, mas planta inveja; que fala de empatia, mas cultiva ressentimento; que prega diversidade, mas exige pensamento único.
A história deveria ter nos vacinado contra as utopias. Mas estamos repetindo o erro dos russos de 1917: acreditar que entregar mais poder ao Estado é o caminho para a justiça. O resultado será o mesmo: controle, pobreza e repressão. Como dizia Hayek, “a estrada para a servidão é pavimentada com boas intenções”.
Nova York deveria ser o farol da liberdade. Hoje, é o espelho do esquecimento. A história é clara: as civilizações não caem de uma vez, elas se rendem, pouco a pouco, ao esquecimento de seus próprios valores. E quando isso acontece, o inimigo não precisa mais conquistar. Basta esperar. O esquecimento é a nova arma para o totalitarismo. O socialismo que volta hoje não precisa erguer muros, ele apenas derruba fronteiras morais. E quando o certo e o errado se tornam relativos, o poder volta a decidir o que é virtude. Tiranias não começam com tanques nas ruas, mas com slogans bonitos e corações anestesiados.
Neste 7 de novembro, enquanto alguns celebram o “progresso” e outros ignoram as datas, é dever de quem ainda crê na razão lembrar o que realmente começou em 1917: não uma revolução do povo, mas a morte da alma humana e do indivíduo. A morte de 100 milhões de indivíduos.
O aniversário da Revolução Russa deveria servir de advertência, não de inspiração. E talvez seja isso que Nova York nos mostra, ainda que sem perceber: quando o berço da liberdade começa a flertar com os fantasmas do totalitarismo, é porque o esquecimento já fez o seu trabalho.
Leia também: “Um socialista muçulmano em Nova York”, artigo publicado na Edição 295 da Revista Oeste





































Este processo, que esta nos matando e alterando nossa sociedade por dentro, esta sendo planejado ha decadas. Nao é algo novo. New York é somente uma das fortalezas que cai. No nosso pais , ja existe desde a entrada do ex presidiário.
Duas coisas são infinitas : o universo e a estupidez humana.
Mas, em relação ao universo , ainda não tenho certeza absoluta.
Albert Einstein .
Quem esquece o passado será refém do futuro !
Excelente artigo e de leitura obrigatória para os que votaram no Zohran, que aguardem o futuro nada promissor….
Penso que Ana Paula publicou esse artigo nos EUA se não o fez deveria…….
Paris , Londres e Berlim já caíram.
Só faltava Nova York…