O prejuízo mais famoso da órbita terrestre foi uma bolsa de ferramentas que escapou das mãos da astronauta Heidemarie Stefanyshyn-Piper durante a missão STS-126 na Estação Espacial Internacional. Avaliado em cerca de 100 mil dólares, o kit continha equipamentos de manutenção específicos e se soltou devido a um incidente com uma pistola de graxa, tornando-se um dos detritos espaciais mais caros já monitorados.
Como uma astronauta perde uma maleta inteira?
O incidente ocorreu em novembro de 2008, durante um reparo nos painéis solares da estação. Uma das pistolas de graxa dentro da bolsa vazou, sujando todo o interior e as luvas da astronauta. Na tentativa de limpar a sujeira para continuar o trabalho, a bolsa de 13 kg deslizou e não estava presa corretamente ao cabo de segurança.
No ambiente de microgravidade, não existe “chão” para o objeto cair. Assim que se soltou, a maleta manteve a velocidade orbital de aproximadamente 28.000 km/h, afastando-se da nave em segundos e inviabilizando qualquer tentativa de resgate manual.

O que havia dentro do kit para custar tanto?
O valor de US$ 100 mil não se refere apenas ao preço de mercado das ferramentas, mas ao custo astronômico de enviá-las ao espaço (cerca de US$ 20.000 por quilo na época do ônibus espacial). O kit continha:
- Duas pistolas de graxa pressurizadas
- Espátulas de raspagem de metal
- Chaves de fenda e equipamentos de torque específicos

Por que a NASA não tentou recuperar o objeto?
Recuperar um objeto à deriva exige manobras complexas que consomem combustível vital da Estação Espacial Internacional ou dos trajes espaciais (EMU). O risco de colisão ou de esgotar recursos de oxigênio dos astronautas supera o valor financeiro das ferramentas.
A decisão técnica do Controle da Missão em Houston foi catalogar o objeto como lixo espacial. Ele recebeu o identificador de satélite 33442 e passou a ser rastreado pelos radares do Comando Estratégico dos EUA para garantir que não colidisse com satélites ativos.
Qual foi o destino final da bolsa de ferramentas?
A bolsa permaneceu em órbita por cerca de oito meses, visível até mesmo por astrônomos amadores na Terra devido ao seu tamanho e superfície reflexiva. Gradualmente, o atrito com as camadas mais altas da atmosfera reduziu sua velocidade.
Em agosto de 2009, a gravidade venceu e o objeto reentrou na atmosfera sobre o Oceano Pacífico. O calor extremo da reentrada, superando 1.500 °C, desintegrou completamente as pistolas de graxa e as ferramentas antes que pudessem atingir o oceano.

Outros itens valiosos perdidos no vácuo
O espaço é um ambiente implacável onde erros simples custam caro. Além da bolsa da missão STS-126, outros objetos técnicos já escaparam:
| Objeto | Missão | Contexto Técnico |
|---|---|---|
| Luva EVA | Gemini 4 (1965) | Primeira caminhada espacial americana |
| Câmera Hasselblad | Gemini 10 (1966) | Soltou-se durante troca de filmes |
| Escudo de detritos | ISS (2017) | Painel de proteção térmica perdido |
O aprendizado deixado pelo erro
A perda da bolsa mudou os protocolos de Atividade Extraveicular (EVA). A NASA reforçou a exigência de “tethering” (amarração dupla) para todas as ferramentas, garantindo que nenhum equipamento seja solto do traje antes de estar preso à estrutura da estação. Mesmo com tecnologia de ponta, a física orbital não perdoa deslizes.









