Sob as raízes da Amazônia existe um reservatório com mais de 150 quatrilhões de litros de água doce. O Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA) foi mapeado a partir de 2013 por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e, desde então, figura como a maior reserva subterrânea de água do planeta.
Como um estudo em Santarém revelou um gigante continental
Tudo começou no Aquífero Alter do Chão, no município paraense de Santarém. O geólogo Francisco de Assis Matos de Abreu, do Instituto de Geociências da UFPA, coordenava pesquisas sobre aquela reserva quando percebeu que as camadas de rocha porosa se estendiam muito além do Pará. Os dados de poços perfurados pela Petrobras para pesquisa petrolífera forneceram pistas decisivas sobre a espessura do sistema.
Em 2013, durante o III Congresso Internacional de Meio Ambiente Subterrâneo, a equipe apresentou os primeiros números. O que se conhecia como Alter do Chão era, na verdade, parte de um sistema que vai dos contrafortes dos Andes, no Acre, até a Ilha de Marajó. O antigo nome já não cabia. Nascia o SAGA, abrangendo quatro bacias sedimentares: Acre, Solimões, Amazonas e Marajó.

Quatro vezes maior que o Guarani e ainda pouco explorado
As reservas hídricas do SAGA foram estimadas preliminarmente em 162.520 km³, considerando profundidades de até 500 metros. Para comparação, o Aquífero Guarani, distribuído por oito estados brasileiros e mais três países vizinhos, possui cerca de 39 mil km³, conforme dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB). O volume do SAGA é, portanto, mais de quatro vezes superior.
A dimensão impressiona, mas o uso atual é modesto. Cidades como Manaus e Santarém já dependem dessa água para abastecimento urbano. Fora isso, o aquífero permanece quase intocado. Segundo Matos, o transporte dessa água para regiões distantes, como o Semiárido ou São Paulo, exigiria obras inviáveis pela distância.
Quem busca entender a riqueza hídrica da Amazônia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mitos e Verdades, que conta com mais de 840 visualizações, onde é explicado o que há de real sobre o SAGA, o Sistema Aquífero Grande Amazônia, a maior reserva de água doce do Brasil:
O subsolo que alimenta os rios voadores
O SAGA não funciona como uma simples caixa-d’água enterrada. Ele participa ativamente do ciclo hidrológico amazônico. De acordo com dados apresentados na 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cerca de 80% da água do ciclo hidrológico regional está no subsolo. Rios e atmosfera, juntos, respondem pelos 20% restantes.
Essa água subterrânea alimenta os rios de superfície, que evaporam e abastecem correntes atmosféricas conhecidas como rios voadores. Segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), uma única árvore com copa de 10 metros bombeia mais de 300 litros de vapor por dia. Árvores maiores ultrapassam mil litros diários. Com cerca de 600 bilhões de árvores na floresta, o volume de água devolvido à atmosfera rivaliza com a vazão do próprio Rio Amazonas.
A floresta que faz chover a 3 mil km de distância
Os rios voadores carregam umidade da Amazônia até a Cordilheira dos Andes. Barrados pelo paredão de 4 mil metros, eles curvam em direção ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Segundo a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), a floresta entrega anualmente cerca de 700 trilhões de litros de chuva à Bacia do Prata, o suficiente para encher o reservatório de Itaipu 24 vezes.
O agronegócio brasileiro depende dessa transferência de umidade. As safras duplas do Centro-Oeste só existem porque a Amazônia mantém o regime de chuvas estável. Sem a floresta, estudos publicados na Nature Communications indicam que a precipitação na estação seca do sul amazônico pode cair entre 20% e 30%.
Quem quer entender as dimensões do Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA) e do Guarani, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal RIOSUL POÇOS ARTESIANOS, que conta com mais de 280 mil visualizações, onde é explicada a formação e a importância estratégica desses reservatórios no Brasil:
Um patrimônio estratégico que exige cautela
O professor Matos reforça que o SAGA deve ser compreendido dentro do ciclo hidrológico completo. As águas subterrâneas alimentam os rios, que são abastecidos pelas chuvas, que dependem da evapotranspiração da floresta. Qualquer extração desequilibrada pode romper essa cadeia e afetar o clima de todo o continente.
O Aquífero Guarani já oferece um alerta concreto. Na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, a extração chega a 13 vezes a capacidade de recarga, segundo dados da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ). O SAGA, por ora, não enfrenta essa pressão, mas a pesquisa sobre a qualidade de suas águas ainda é incipiente.
O oceano que sustenta a floresta e o país inteiro
O SAGA redefine o que se sabe sobre o potencial hídrico brasileiro. Mais do que uma reserva para emergências futuras, ele é a engrenagem silenciosa que mantém a Amazônia de pé e, por consequência, garante chuva, energia e safras a milhares de km de distância.
Conhecer esse oceano invisível é entender por que proteger a floresta amazônica nunca foi só uma questão ambiental, mas uma necessidade econômica e estratégica para todo o Brasil.









