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Início Turismo

Rochas magnéticas, navios fantasmas e pedras que tocam como sinos: os mistérios da ilha mais famosa do litoral paulista

Vitor Bruno Por Vitor Bruno
13 março 2026 18:45
Em Turismo
Rochas magnéticas, navios fantasmas e pedras que tocam como sinos: os mistérios da ilha mais famosa do litoral paulista

Os segredos de Ilhabela (imagem ilustrativa)

Em 1502, o navegador Américo Vespúcio avistou o arquipélago no litoral norte de São Paulo e escreveu que, se existisse um paraíso na Terra, estaria muito perto dali. Cinco séculos depois, Ilhabela continua surpreendendo, mas nem tudo é praia cristalina e mata preservada. Sob a água e entre as rochas, a maior ilha marítima do Brasil guarda histórias que desafiam a lógica.

Por que o arquipélago é chamado de Cemitério de Navios?

As rochas de Ilhabela são ricas em magnetita, um mineral com forte campo magnético. Durante séculos, esse mineral interferiu nas agulhas das bússolas e desorientou navegadores que se aproximavam da costa. Somados à neblina frequente, aos ventos que formam ondas de até cinco metros na face sul e à ausência de faróis na época colonial, os fatores criaram uma armadilha natural. Segundo o Sistema de Informações de Naufrágios (SINAU), pelo menos 23 embarcações documentadas repousam ao redor do arquipélago, do vapor inglês Crest, em 1882, ao petroleiro grego Alina P., em 1991.

O episódio mais trágico aconteceu na madrugada de 5 de março de 1916. O transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias, em sua sexta viagem entre Barcelona e Buenos Aires, chocou-se com as rochas submersas da Ponta da Pirabura. A colisão abriu um rasgo de cerca de 40 metros no casco, a água invadiu a sala de máquinas e o navio afundou em poucos minutos. Oficialmente, 445 pessoas morreram, mas o número real pode ser maior: a Primeira Guerra Mundial empurrava imigrantes clandestinos para os porões. Peças resgatadas dos destroços estão expostas no Museu Náutico de Ilhabela, que reúne mais de 1.500 objetos de naufrágios da região.

Costa rochosa de Ilhabela com névoa e âncora antiga sob ondas fortes. (imagem ilustrativa)

A praia onde as pedras tocam como sinos

No canto direito da Praia de Garapocaia, no lado norte da ilha, um conjunto de rochas emite som metálico quando golpeado. O nome vem do tupi e significa “pedra que canta”. Geólogos explicam que a composição vulcânica das rochas, feitas de diabásio com presença de ferro e minerais pesados, produz vibração semelhante à do bronze quando recebe impacto.

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A lenda local é mais dramática. Conta-se que, em 1647, o repicar misterioso dos sinos acordou a população no meio da noite. Ao correr até a praia, os moradores viram um caixão iluminado por velas passando pelo canal, levado pela correnteza. Hoje, uma passarela de madeira leva os visitantes até as pedras, e um restaurante na beira da praia empresta martelos para quem quiser testar o fenômeno.

Turista prestes a tocar as pedras sonoras na Praia de Garapocaia (imagem ilustrativa)

Quem se interessa por fatos históricos e mistérios, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal DAVIAJANDO, que conta com mais de 8 mil visualizações, onde Davi mostra 8 curiosidades essenciais sobre Ilhabela, no litoral de São Paulo:

Leia também: Brasileiros estão se mudando para a cidade do interior que concentra a maior quantidade de doutores da América Latina e se tornou referência em vida boa

Ossadas de 2 mil anos e uma ilha que trocou de nome quatro vezes

Até o final dos anos 1990, acreditava-se que Ilhabela era desabitada antes da chegada dos portugueses. Pesquisas arqueológicas mudaram essa versão. Em 2007, ossadas humanas foram encontradas em uma praia da ilha. Os estudos revelaram que pertenciam a um homem que viveu na região há pelo menos dois milênios. Segundo a Câmara Municipal de Ilhabela, sítios do tipo “concheiro” em quatro ilhas do arquipélago têm até 2.500 anos. O esqueleto integra o acervo do Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Ilhabela.

A identidade do lugar também carrega camadas. O nome tupi original era Maembipe, “local de troca de prisioneiros e mercadorias”. Em 1502, virou Ilha de São Sebastião. A emancipação política, em 1805, trouxe Vila Bela da Princesa, homenagem à filha mais velha de Dom João VI. Em 1939, o governo de Getúlio Vargas impôs o nome Formosa. A população se revoltou, e o movimento popular só venceu em 1945, quando o município ganhou o nome definitivo. Toda essa trajetória está documentada no portal da Prefeitura de Ilhabela.

Bússola antiga de naufrágio com pátina de bronze e vidro rachado. (imagem ilustrativa)

85% de floresta protegida a 210 km da capital paulista

O Parque Estadual de Ilhabela, criado em 1977, protege cerca de 85% do território do arquipélago e é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. São 27.025 hectares que abrigam 314 espécies de aves, 51 de mamíferos e 41 de anfíbios, segundo o Plano de Manejo publicado pela Fundação Florestal.

O ponto mais alto é o Pico de São Sebastião, com 1.379 metros, o maior de uma ilha brasileira. O parque abriga ainda oito comunidades caiçaras tradicionais e centenas de cachoeiras espalhadas pela mata. Uma curiosidade geológica fecha o ciclo: Ilhabela compõe o mais importante maciço de rochas alcalinas do Brasil, o mesmo que explica a magnetita nos costões e os naufrágios no fundo do mar.

Visão em primeira pessoa revelando cachoeira secreta na Mata Atlântica. (imagem ilustrativa)

Um arquipélago que merece mais do que um fim de semana

Ilhabela reúne o que poucos destinos conseguem: naufrágios centenários sob o mar, rochas que cantam, floresta chancelada pela UNESCO e uma história que começa dois milênios antes dos mapas europeus. Cada curva da estrada e cada mergulho revelam uma camada diferente desse arquipélago.

Você precisa atravessar o canal de São Sebastião e percorrer a ilha com calma para entender por que Vespúcio, há cinco séculos, jurou que o paraíso ficava por aqui.

Tags: cidadesIlhabelasão paulo

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