Se há algo que aprendemos com os estoicos, é que a felicidade não está no que temos, mas no que fazemos com o que temos. Para entender essa filosofia com rigor, poucos nomes são tão indicados quanto o de Massimo Pigliucci, Professor K.D. Irani de Filosofia no City College de Nova York.
Quem é Massimo Pigliucci e por que ele é uma referência no estoicismo?
Massimo Pigliucci é Professor K.D. Irani de Filosofia no City College de Nova York e autor do livro Como Ser um Estoico: Usando a Filosofia Antiga para Viver uma Vida Moderna. Escreve regularmente para veículos reconhecidos, entre eles a revista Philosophy Now, e é uma das vozes mais rigorosas sobre o estoicismo no debate público contemporâneo.
Sua preocupação central é justamente com as versões simplificadas que o estoicismo ganhou nas redes sociais e no mercado de autoajuda, versões que nem sempre correspondem à essência dessa tradição filosófica com mais de dois mil anos de história.

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O que é o estoicismo de verdade, segundo Massimo Pigliucci?
O erro mais comum sobre o estoicismo, segundo Pigliucci, é achar que se trata de uma filosofia voltada para suprimir emoções e viver de forma rígida. “Isso não é nada saudável, e portanto não é o que o estoicismo propõe”, afirma o filósofo. O estoicismo é, na prática, uma filosofia de vida com dois pilares fundamentais:
- Viver com razão: somos os animais mais inteligentes do planeta e precisamos cultivar essa inteligência para navegar a vida com sabedoria
- Viver em sociedade: somos animais sociais complexos, e viver bem implica ser útil, cooperar e contribuir com os outros
“Quem faz ambas as coisas já percorreu mais da metade do caminho”, resume Pigliucci. A filosofia estoica não pede abnegação total nem indiferença ao mundo: pede consciência sobre o que realmente importa.
Por que Massimo Pigliucci destaca Epicteto entre todos os estoicos?
O que atrai Pigliucci em Epicteto é a objetividade. “Ele fala de um jeito direto e fácil de entender, sem rodeios”, explica o filósofo. Ao contrário de outros pensadores que constroem sistemas abstratos, Epicteto era prático. Um de seus argumentos mais diretos sobre o dinheiro ilustra bem esse estilo: “Você acha que o dinheiro vai te fazer feliz? Vá lá fora e ganhe dinheiro. Mas, quando tiver esse dinheiro, pergunte a si mesmo: o que vou fazer com ele? O dinheiro não responde.”
A conclusão de Epicteto, e do estoicismo como um todo, é que o dinheiro é neutro: o que determina se ele é um bem ou um malefício é o uso feito dele.

O dinheiro e a fama realmente não fazem feliz: o que a evidência empírica diz?
“Estamos enganados quando pensamos que o que nos faz felizes são coisas como fama, dinheiro, casas grandes, carros grandes e afins”, diz Pigliucci. E ele apoia essa afirmação em evidência empírica moderna, não apenas em filosofia antiga. O canal MENTOR BOOKS, com mais de 2,9 mil inscritos, resume os 12 exercícios práticos do livro de Massimo Pigliucci para aplicar o estoicismo na vida cotidiana:
Sêneca, nas Cartas a Lucílio, já tinha senso de humor sobre o tema: “Não sou tolo: prefiro estar saudável a estar doente, prefiro algum dinheiro a ser pobre.” Mas o ponto é que essas preferências não determinam o grau de felicidade. O que muda a felicidade é o que se faz com elas.
Quais três livros Pigliucci indica para quem está passando por um momento difícil?
Pigliucci tem um kit de leitura estoica para crises pessoais. Os três livros que ele recomenda são:
- Meditações de Marco Aurélio: o diário privado do imperador, onde ele registrava seus pensamentos sobre a vida; uma forma excelente de entender como as coisas funcionam
- Enquiridião de Epicteto: um manual para uma vida plena com apenas 53 parágrafos; fácil de ler, desafiador de colocar em prática
- Cartas a Lucílio de Sêneca: 124 cartas escritas informalmente a um amigo que funcionam como um currículo completo do estoicismo
O ensinamento estoico mais urgente para a sociedade atual, segundo Pigliucci
Quando perguntado sobre o ensinamento estoico mais importante para o mundo contemporâneo, Pigliucci responde sem hesitar: o cosmopolitismo. A noção estoica de que todos os seres humanos, independentemente de nacionalidade, raça ou gênero, são capazes de raciocinar e merecem ser tratados como iguais.
“É difícil praticar o cosmopolitismo em uma sociedade dividida em nós contra eles”, reconhece o filósofo. “Os estoicos tentaram superar isso e agir de forma verdadeiramente global: todos no mesmo barco, e se não queremos que ele afunde, precisamos trabalhar juntos.” Essa ideia, formulada há mais de dois mil anos, nunca pareceu tão necessária quanto agora.









