Em dezembro de 2025, cinco animais fizeram uma jornada de 3.200 km por terra até serem soltos numa floresta do norte da Argentina, onde sua espécie não pisava havia mais de um século. O herbívoro em questão é o guanaco, e o seu retorno ao Parque Nacional El Impenetrable, no Chaco, é considerado um marco histórico para a conservação da América do Sul.
Por que o retorno do guanaco ao Chaco é um evento histórico para a conservação?
O guanaco (Lama guanicoe) é o maior herbívoro nativo da América do Sul e desempenha papel fundamental na dinâmica do Chaco Seco: controla a vegetação, sustenta as cadeias tróficas em apoio à jaguatirica como predador de topo e favorece a biodiversidade local. Sua ausência por mais de 110 anos deixou um vazio ecológico que nenhuma outra espécie conseguiu preencher completamente.
Além do equilíbrio ecológico, a presença do guanaco reduz o risco de incêndios intensos ao controlar a biomassa vegetal acumulada na região. Segundo a Fundação Rewilding Argentina, esta é a primeira de múltiplas liberações planejadas para reconstituir populações saudáveis no parque.

Leia também: Epicteto, filósofo grego, disse: “Primeiro diga a si mesmo quem você quer ser; depois, faça o que precisa ser feito”
Como foi realizada a operação de reintrodução do maior herbívoro do continente?
A operação foi conduzida pela Fundação Rewilding Argentina em parceria com a Administração de Parques Nacionais (APN) e as províncias do Chaco e de Santa Cruz. Os animais vieram do Parque Patagônia, em Santa Cruz, onde estudos populacionais, sanitários e genéticos identificaram os indivíduos mais aptos para a reintrodução.
A técnica de arreiamento utilizou quatro motos em formação de “V”, guiando os guanacos em direção a um funil e, em seguida, à manga do trailer. Todo o processo respeitou os grupos familiares, evitou a separação de filhotes e priorizou o bem-estar animal durante o traslado. O perfil do Instagram da Rewilding Argentina, com mais de 272 mil seguidores, documentou cada etapa da técnica de arreamento em detalhes:
Por que o transporte de 3.200 km foi considerado sem precedentes no mundo?
Segundo o governo argentino, o traslado terrestre de 3.200 km de Santa Cruz ao Chaco é o mais longo já realizado no mundo com fins de conservação utilizando essa espécie. Para torná-lo possível, foram desenvolvidas técnicas específicas de captura e transporte, além de currais de pré-soltura e um trailer especial projetado para minimizar o estresse dos animais ao longo da jornada.
A tabela abaixo resume os principais dados da operação de reintrodução do guanaco no Chaco:
| Dado da operação | Detalhe |
|---|---|
| Espécie reintroduzida | Guanaco (Lama guanicoe) |
| Local de soltura | Parque Nacional El Impenetrable, Chaco, Argentina |
| Origem dos animais | Parque Patagônia, Santa Cruz, Argentina |
| Distância do transporte | 3.200 km por terra (recorde mundial para a espécie) |
| Número de animais liberados | 5 guanacos na primeira liberação |
| Tempo de extinção regional | Mais de 110 anos |

A lontra gigante também voltou à Argentina poucas semanas antes do guanaco
O retorno do guanaco não foi o único marco recente de conservação na Argentina. Em julho de 2025, quatro lontras gigantes (Pteronura brasiliensis) foram liberadas no Gran Parque Iberá, em Corrientes, após mais de 40 anos de extinção local no país. O programa foi planejado em 2017 pela Rewilding Argentina em parceria com o governo de Corrientes, a APN, o Projeto Ariranhas do Brasil e a Associação Europeia de Zoológicos e Aquários (EAZA).
Um dos animais liberados, chamado Nima, nasceu no Zoológico de Madri e chegou à Argentina em janeiro de 2023. Os dois casos juntos revelam um padrão: a Argentina está se consolidando como referência global em projetos de rewilding de grande escala.
El Impenetrable se torna um dos maiores projetos de restauração da América do Sul
O Parque Nacional El Impenetrable já abriga programas de recuperação da tartaruga yabotí e do jaguatirica, e o retorno do guanaco reforça sua posição como um dos projetos de restauração ecológica mais ambiciosos do continente. A presença de um herbívoro de grande porte como o guanaco fecha elos da cadeia alimentar que estavam rompidos há mais de um século.
O retorno dessas espécies também impulsiona o turismo de natureza na região, gerando novas oportunidades econômicas para as comunidades locais. A natureza, quando recebe a chance de se reorganizar, tende a responder com uma velocidade que ainda surpreende os próprios cientistas.









