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Início Curiosidades Históricas

Após mais de 80 anos em um arquivo universitário, descobriu-se que um manuscrito antigo é algo completamente diferente do que os historiadores pensavam

Ellen Raquel Patriota Por Ellen Raquel Patriota
19 março 2026 06:35
Em Curiosidades Históricas
Após mais de 80 anos em um arquivo universitário, descobriu-se que um manuscrito antigo é algo completamente diferente do que os historiadores pensavam

Tecnologia digital revela manuscrito de Merlin oculto em encadernação do século XVI

Um raro manuscrito de Merlin do século XIII foi descoberto em Cambridge, escondido na encadernação de um registro de arquivo do século XVI e agora está completamente digitalizado. A combinação de estudos medievais com técnicas de imagem avançadas permitiu ler o texto sem desmontar o volume e abriu um novo caminho para a conservação de documentos frágeis.

  • Fragmentos medievais de Merlin e Rei Arthur foram identificados como parte da Suite Vulgate de Merlin, escrita entre 1275 e 1315.
  • Técnicas inovadoras de digitalização como imageamento multiespectral, tomografia computadorizada e modelos 3D revelaram texto apagado e dobras invisíveis.
  • O projeto cria um modelo para preservar e estudar manuscritos antigos sem danos físicos, inspirando arquivos e bibliotecas em todo o mundo.

Como foi feita a descoberta do manuscrito de Merlin em Cambridge?

O manuscrito de Merlin foi encontrado na Biblioteca da Universidade de Cambridge em 2019, reutilizado como capa de um registro de propriedades de Huntingfield Manor, em Suffolk. O fragmento fazia parte da encadernação, dobrado, rasgado e costurado, o que tornava praticamente impossível ler o texto a olho nu sem danificar o volume. Especialistas em manuscritos medievais identificaram o texto como parte da Suite Vulgate de Merlin, um romance arturiano em francês antigo ligado ao ciclo Lancelot-Graal. Menos de 40 manuscritos dessa sequência de Merlin sobreviveram, o que torna esse achado especialmente valioso.

merlin
Um fragmento raro de Merlin foi encontrado em Cambridge e trouxe novas pistas sobre histórias do Rei Arthur.

O que é a Suite Vulgate de Merlin e por que o fragmento é raro?

A Suite Vulgate de Merlin é uma continuação em francês antigo da história de Merlin e do Rei Arthur, escrita para uma audiência nobre na Idade Média. O fragmento de Cambridge pertence à versão curta da Vulgate Merlin, identificada por detalhes textuais e erros de cópia típicos dos escribas medievais. Erros como o uso do nome “Dorilas” em vez de “Dodalis” ajudam a comparar o fragmento com outros manuscritos sobreviventes. A decoração com iniciais em vermelho e azul e o uso do francês confirmam a datação entre o fim do século XIII e o início do XIV.

Quais histórias de Merlin e Rei Arthur aparecem no fragmento?

O fragmento preserva dois episódios-chave do final da Suite Vulgate de Merlin, combinando cenas de batalha e de corte. A primeira parte narra a vitória dos cristãos sobre os saxões na Batalha de Cambénic, um confronto fictício situado no universo lendário arturiano. Na batalha, Gauvain luta com a espada Excalibur e o cavalo Gringalet, ao lado de seus irmãos e do pai, o rei Loth. Na segunda passagem, Merlin surge disfarçado de harpista na festa da Assunção, em uma cena que destaca o brilho cortesão do texto.

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Como a digitalização revelou o texto oculto no manuscrito de Merlin?

O maior desafio foi acessar o texto sem desfazer a encadernação do século XVI, que também é um documento histórico importante. A equipe manteve o fragmento “in situ” e recorreu a técnicas avançadas de imageamento e modelagem digital, criando um modelo para futuras intervenções. Essa abordagem evita danos irreversíveis ao fragmento físico e gera objetos digitais em altíssima resolução. A preservação em situ conserva tanto o texto medieval quanto evidências das práticas de encadernação e arquivo do século XVI.

merlin
Texto apagado, dobrado e costurado por séculos agora pode ser lido graças a técnicas avançadas de imagem. / Créditos: depositphotos.com / AllaSerebrina

Como funcionou o imageamento multiespectral no manuscrito de Merlin?

O imageamento multiespectral (MSI) envolveu capturar o pergaminho em diferentes comprimentos de onda, do ultravioleta ao infravermelho. As imagens foram processadas com métodos como PCA e Minimal Noise Fraction para realçar detalhes invisíveis a olho nu. Partes do texto estavam fortemente desgastadas por atrito de uma faixa que apagou a escrita em uma banda central. Com o MSI, pesquisadores reconstituíram digitalmente essa faixa apagada, além de revelar anotações marginais e o carimbo “Huntingfield”.

Como a tomografia computadorizada foi aplicada ao pergaminho medieval?

A tomografia computadorizada (CT) empregou um scanner de raios X usado em fósseis e esqueletos, para visualizar a estrutura interna da encadernação sem desmontar o volume. A técnica produz cortes virtuais do interior do objeto, depois combinados em um modelo 3D detalhado. O resultado foi um modelo 3D do fragmento e de sua costura, mostrando como o pergaminho foi dobrado e fixado à capa. A segmentação digital isolou os fios de costura, fornecendo dados sobre técnicas de encadernação do século XVI.

Como a modelagem 3D permitiu o desdobramento virtual do manuscrito?

A equipe recorreu a técnicas industriais de escaneamento 3D para criar modelos virtuais de alta definição, registrando vincos, rasgos e irregularidades de superfície. Isso permite estudar o objeto físico em detalhe sem manuseio frequente. Para acessar trechos de texto escondidos por dobras e viradas de capa, foram usados espelhos, prismas, ímãs e lentes macro, gerando centenas de imagens. O “desdobramento virtual” simulou o pergaminho aberto e alisado, produzindo uma visão contínua do texto.

Como a colaboração multidisciplinar impactou a pesquisa em manuscritos?

O projeto reuniu curadores, conservadores e especialistas em imagem de diferentes departamentos da universidade, em cooperação com o Cultural Heritage Imaging Laboratory. Pesquisadores como Irène Fabry-Tehranchi e Nathalie Koble contextualizaram o texto e sua filiação manuscrita. Profissionais de imagem como Amélie Deblauwe, Błazej Mikuła e Maciej Pawlikowski conduziram o MSI, o escaneamento 3D e o processamento de dados. O método tornou-se referência para acessar fragmentos incrustados em encadernações, inspirando arquivos internacionais.

Como acessar online o manuscrito de Merlin e quais são os novos caminhos de estudo?

Os resultados digitais do projeto foram disponibilizados ao público na Cambridge Digital Library, plataforma de acesso aberto a coleções de alto valor histórico. Imagens em alta resolução, escaneamentos multiespectrais e modelos 3D podem ser ampliados e rotacionados em detalhe. Para estudiosos de literatura arturiana, isso facilita a comparação de variantes e escolhas de escribas sem viajar até Cambridge. Para o público geral, abre-se a chance de observar de perto um artefato medieval normalmente restrito a pesquisadores.

merlin
Um manuscrito esquecido dentro de um livro antigo ganhou nova vida com imagens em alta tecnologia.

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Como manuscritos medievais e tecnologia avançada transformam a leitura do passado?

Os resultados desse projeto também podem ser resumidos em eixos centrais, que ajudam a compreender o impacto da tecnologia sobre o estudo da tradição arturiana e da cultura escrita medieval:

  • Fragmentos da Suite Vulgate de Merlin em Cambridge revelam episódios raros da tradição arturiana, como a Batalha de Cambénic e a aparição de Merlin como harpista.
  • Técnicas como imageamento multiespectral, tomografia computadorizada e modelagem 3D permitiram ler o texto escondido sem desmontar a encadernação do século XVI.
  • O método criado para o manuscrito de Merlin estabelece um modelo não invasivo para estudar fragmentos reaproveitados em capas, inspirando projetos semelhantes em arquivos e bibliotecas.
Tags: Cambridgecuriosidades históricasManuscrito de Merlinsegredos medievais com tecnologia moderna

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