Imagine uma conversa em família em que alguém diz que a esquerda de hoje não é mais a mesma. De um lado, há quem veja coerência com a história. De outro, quem enxergue um afastamento de valores como universalismo, liberdade de expressão e confiança na razão. No Brasil e em outros países, essas divergências aparecem em debates sobre identitarismo, redes sociais, alianças políticas e posicionamentos internacionais, alimentando a sensação de que algo mudou no rumo de parte da esquerda contemporânea.
O que significa falar em “abandono de princípios históricos da esquerda”?
Quando se fala em abandono de princípios históricos da esquerda, muita gente se refere à defesa de direitos iguais para todos, à centralidade da ciência e à proteção da liberdade de expressão, inclusive para quem pensa diferente. Esses valores foram importantes na luta contra ditaduras, censura e discriminação.
Críticos observam que, em alguns grupos, o critério de julgamento parece depender mais da identidade de quem age do que da ação em si. Assim, práticas semelhantes recebem avaliações distintas se partirem de aliados ou adversários, gerando um duplo padrão moral. No Brasil, isso surge quando atos autoritários ou casos de corrupção são relativizados por virem de figuras vistas como progressistas.

O universalismo está em crise nos direitos humanos e na política?
O universalismo, a ideia de que toda pessoa tem os mesmos direitos, é um dos temas mais sensíveis nesse debate. Em conflitos internacionais, muitas vezes a reação a abusos contra civis varia conforme o lado envolvido, o que gera suspeita de seletividade e incoerência.
Governos autoritários podem ser criticados com dureza ou receber um tratamento brando, dependendo de seu alinhamento geopolítico. No Brasil, isso aparece quando posições sobre regimes de outros continentes parecem pesar mais a simpatia ideológica do que um compromisso firme com direitos humanos aplicados a qualquer país ou grupo.
Houve mudança na relação da esquerda com a razão, a ciência e a ideologia?
Historicamente, setores da esquerda se apoiaram em dados e pesquisas para entender desigualdades, trabalho, educação e saúde. Hoje, alguns pesquisadores percebem situações em que narrativas identitárias ou partidárias falam mais alto do que as evidências disponíveis, mesmo quando essas evidências são sólidas.
Em temas como segurança pública, drogas, encarceramento em massa e desempenho econômico, estudos que contrariam posições militantes às vezes são rejeitados de antemão. Isso cria um ambiente em que certas perguntas se tornam difíceis de fazer, o que limita o pensamento crítico e empobrece a formulação de políticas públicas.
Como o debate sobre liberdade de expressão afeta esse grupo?
A liberdade de expressão foi uma bandeira central da esquerda em tempos de censura oficial. Nos últimos anos, porém, cresceram casos em que pressões por cancelamentos, desconvites e boicotes partem de grupos progressistas, em nome da proteção de minorias ou da luta contra discursos ofensivos.
Para entender melhor esses riscos, vale observar alguns efeitos que esse clima pode produzir no debate democrático:
- Redução da diversidade de opiniões em espaços acadêmicos, culturais e digitais.
- Autocensura de pessoas que temem criticar ou questionar posições dominantes.
- Fortalecimento de bolhas em que cada grupo só ouve quem já concorda com ele.
Se você quer saber mais, separamos o vídeo dublado do canal “Quillette” falando sobre direitos humanos com o filósofo Maarten Boudry :
Quais caminhos aparecem nesse debate sobre os rumos da esquerda?
Não existe uma única esquerda, e esse conflito interno deixa isso claro. Há correntes que defendem resgatar o universalismo, a centralidade da ciência e a liberdade de expressão como pilares inegociáveis. Outras priorizam recortes identitários, estratégias de proteção a grupos específicos e modos mais combativos de militância.
No Brasil, essa disputa se reflete em partidos, sindicatos, universidades e coletivos, influenciando alianças eleitorais e propostas de políticas públicas. A forma como a esquerda lida com suas próprias contradições e recupera, ou não, seus princípios históricos tende a definir sua capacidade de dialogar com a sociedade e seu papel nas disputas políticas dos próximos anos.








