No Dia dos Namorados de 2026, uma das aves mais raras do planeta ganhou um novo membro. O filhote Tīwhiri, um macho de 121 gramas, nasceu na ilha-santuário Whenua Hou, na Nova Zelândia, e se tornou o primeiro cácapo a nascer em quatro anos. Com apenas 253 indivíduos restantes no mundo, cada nascimento é um evento científico tratado com urgência e cuidado milimétrico.
O que é o cácapo e por que essa ave está à beira da extinção?
O cácapo (Strigops habroptilus) é um papagaio noturno, não voador e endêmico da Nova Zelândia. Seu nome em maori significa “papagaio da noite”. Considerado o papagaio mais pesado do mundo, pode viver mais de 100 anos e só se reproduz a cada 2 a 4 anos, quando ocorre a frutificação “masta” da árvore rimu, sua principal fonte de alimento.
O hábito de nidificar no chão e a dificuldade de voar tornaram a espécie extremamente vulnerável à predação por ratos, gatos e furões, espécies invasoras introduzidas na Nova Zelândia por colonizadores europeus. Hoje, a população total é de 253 indivíduos, dos quais apenas 86 são fêmeas férteis, tornando cada ovo e cada filhote críticos para a sobrevivência da espécie.

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Quem são os pais de Tīwhiri e como o nascimento foi gerenciado?
O filhote é filho da fêmea Kuia, de 35 anos, e do macho Rangi, de 28 anos. Como Kuia já tinha quatro ovos férteis nesta temporada, o ovo de Tīwhiri foi transferido para Yasmine, uma mãe adotiva experiente sem ovos férteis próprios. Essa transferência é prática comum no programa: maximiza o número de filhotes que sobrevivem sem sobrecarregar uma única fêmea.
De acordo com o Departamento de Conservação da Nova Zelândia (DOC), o filhote está sob monitoramento 24 horas por câmeras térmicas. A equipe celebra o nascimento com cautela: a taxa de sobrevivência de filhotes de cácapo é de apenas 33%, o que significa que dois de cada três filhotes não chegam à fase adulta.
O canal do Department of Conservation, com mais de 33 mil inscritos, transmite ao vivo a rotina do ninho da fêmea Rakiura na ilha Whenua Hou, permitindo que pesquisadores e o público acompanhem em tempo real o desenvolvimento dos filhotes:
Como está sendo a temporada reprodutiva para o cácapo?
A temporada foi ativada pela frutificação masta do rimu, evento que ocorre a cada 2 a 4 anos e dispara o ciclo reprodutivo da espécie. Até março de 2026, foram contabilizados 187 ovos, dos quais 74 são férteis. A expectativa é que esta seja a maior temporada reprodutiva desde 1996, mas nem todos os ovos férteis devem eclodir com sucesso.
A tabela abaixo resume os principais números da temporada e do esforço de conservação em andamento:
| Indicador | Número |
|---|---|
| População total de cácapos | 253 indivíduos |
| Fêmeas férteis | 86 |
| Ovos totais na temporada | 187 |
| Ovos férteis | 74 |
| Taxa de sobrevivência de filhotes | Aproximadamente 33% |

Quais características tornam o cácapo uma ave tão singular e difícil de proteger?
Além de não voar, o cácapo possui hábitos noturnos, olfato apurado e um ritual de acasalamento único: os machos emitem um som grave e repetido chamado de “boom”, que pode viajar por quilômetros na floresta para atrair fêmeas. A personalidade dócil da espécie, que não demonstra medo de humanos, facilitou as capturas históricas e contribuiu para o colapso populacional.
Algumas características que explicam tanto o fascínio quanto a vulnerabilidade da espécie:
- Longevidade extrema: há relatos de indivíduos com mais de 100 anos, tornando cada perda ainda mais significativa para a diversidade genética.
- Plumagem verde musgo: camuflagem perfeita para a vegetação nativa, mas ineficaz contra predadores com olfato apurado.
- Cheiro característico: descrito como floral e adocicado, o que paradoxalmente atrai predadores invasores.
- Reprodução condicionada: só ocorre quando o rimu frutifica, tornando a espécie dependente de um evento ecológico imprevisível.

O nascimento de Tīwhiri é um símbolo do que 30 anos de conservação podem alcançar
A população atual de 253 cácapos é fruto de um programa de recuperação de 30 anos, conduzido pelo DOC em parceria com a tribo maori Ngāi Tahu, que partiu de apenas 51 indivíduos. O trabalho envolve ilhas livres de predadores, câmeras térmicas em ninhos, incubação artificial de ovos e transferência entre mães para maximizar a diversidade genética.
Cada filhote como Tīwhiri representa um passo concreto nessa recuperação. A espécie ainda depende inteiramente da intervenção humana para sobreviver, mas o aumento de 51 para 253 indivíduos em três décadas prova que o esforço tem resultado real. O cácapo ainda está longe de ser uma espécie segura, mas está, inequivocamente, mais longe da extinção do que estava em 1990.









