Quando esse verme entrou em dormência no solo siberiano, os neandertais ainda habitavam a Terra. Uma equipe internacional ressuscitou a minhoca em laboratório após 46.000 anos de animação suspensa, e o organismo não apenas sobreviveu como produziu descendentes.
Onde o verme foi encontrado no permafrost siberiano?
O organismo foi localizado em 2018 próximo ao Rio Kolyma, no nordeste da Sibéria, a cerca de 37 metros de profundidade no permafrost. A datação por radiocarbono indicou que o nematoide estava em dormência desde o Pleistoceno tardio, há aproximadamente 46.000 anos.
Com base em sequenciamento genômico e análise filogenética, os pesquisadores concluíram que o organismo pertencia a uma espécie nova para a ciência, batizada de Panagrolaimus kolymaensis. A espécie é partenogenética, com fêmeas que se reproduzem sem parceiro masculino, e triploide, carregando três cópias de cada cromossomo em vez das duas usuais.

O que é criptobiose e como ela manteve o verme vivo por milênios?
A criptobiose é um estado em que todas as funções vitais detectáveis são suspensas sem haver morte celular. No permafrost, a minhoca não apresentava respiração, circulação nem divisão celular. Era, essencialmente, vida em pausa.
Conforme o estudo publicado na PLOS Genetics em julho de 2023, ao ser descongelada em laboratório, a minhoca retomou a atividade normalmente e produziu descendentes. O espécime original pereceu após o tempo natural de vida de um nematoide, de uma a duas semanas, mas seus descendentes permanecem vivos em condições controladas.
Qual foi o mecanismo molecular que protegeu as células durante 46 mil anos?
O primeiro achado foi a produção de trehalose, um açúcar que substitui a água nas células durante o congelamento. Ele estabiliza as membranas celulares e impede a formação de cristais de gelo que destroem os tecidos.
O segundo achado é que a maior parte dos genes necessários para a entrada em criptobiose no Caenorhabditis elegans também está presente no P. kolymaensis. Isso indica que os mecanismos de sobrevivência a extremos foram conservados evolutivamente entre espécies muito distantes ao longo de milhões de anos.
O canal Ciência News, com 118 mil inscritos e mais de 5.900 visualizações neste vídeo, explica o processo de ressurreição do verme e as implicações da descoberta:
O que acontecia na Terra quando essa minhoca entrou em dormência?
Quando o verme congelou no solo siberiano, os neandertais ainda habitavam a Europa e a Ásia, o Homo sapiens não havia chegado às Américas e a Sibéria era dominada por mamutes-lanosos, rinocerontes-lanosos e leões-das-cavernas.
O nível do mar estava cerca de 120 metros abaixo do atual, expondo pontes de terra entre a Ásia e as Américas. Nenhuma dessas espécies existe mais. O nematoide, sim.
Quanto tempo outros organismos já ficaram em criptobiose antes dessa descoberta?
Conforme análise publicada pela Earth.com, o recorde anterior de criptobiose em nematoides era de apenas 39 anos. Tardígrados voltaram ao estado metabólico normal após 30 anos congelados. Um rotífero siberiano havia sido revivido após 24.000 anos, mas o P. kolymaensis supera esse marco por quase o dobro.
A tabela abaixo compara os principais recordes de criptobiose já documentados pela ciência:
| Organismo | Tempo em criptobiose | Local de origem |
|---|---|---|
| Panagrolaimus kolymaensis | ~46.000 anos | Permafrost da Sibéria |
| Nematoide do gênero Plectus | ~42.000 anos | Permafrost da Sibéria |
| Rotífero bdellóide | ~24.000 anos | Permafrost da Sibéria |
| Tardígrado | ~30 anos | Musgo antártico congelado |

O que a minhoca siberiana pode revelar sobre vida em outros planetas
A descoberta abre três frentes concretas de pesquisa. Na biomedicina, isolar os genes que protegem células contra o congelamento extremo pode gerar técnicas mais eficazes de preservação de órgãos para transplante.
Na astrobiologia, organismos capazes de sobreviver no permafrost por milênios ampliam o espectro de condições onde a vida pode persistir, com implicações diretas para a busca de vida em Marte e nas luas geladas de Saturno e Júpiter.
A terceira frente é mais urgente: o aquecimento global está descongelando o permafrost siberiano em ritmo acelerado. Micro-organismos antigos em animação suspensa por milênios podem ser liberados nesse processo, e as consequências ecológicas desse reaparecimento ainda são desconhecidas.








