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Início Curiosidades Históricas

A muralha de 15 km no cerrado goiano que parece obra humana, mas tem 130 milhões de anos de história

Laila Por Laila
26 março 2026 08:35
Em Curiosidades Históricas
A muralha de 15 km no cerrado goiano que parece obra humana, mas tem 130 milhões de anos de história

Muralha de Paraúna revela origem vulcânica de 130 milhões de anos atrás

No interior de Goiás, uma formação rochosa de 15 quilômetros de extensão desafia o olhar de qualquer visitante. Blocos de basalto negro dispostos em alinhamento regular, uma substância escura entre as juntas e teorias que vão de povos indígenas a civilizações perdidas: a muralha de Paraúna é um dos enigmas geológicos mais fascinantes do Cerrado brasileiro, e a explicação científica é tão impressionante quanto o mistério que a cercou por décadas.

O que é a Muralha de Ferro de Paraúna e onde ela fica no cerrado goiano?

Conhecida como Muralha de Ferro ou simplesmente Muralha de Pedra, a formação está localizada no município de Paraúna, na região oeste de Goiás, na Área de Proteção Ambiental da Serra das Galés e da Portaria (APA) e do Parque Estadual de Paraúna (PEPa).

A região apresenta altitudes entre 690 e 890 metros acima do nível do mar e o parque funciona diariamente das 7h às 17h, sem necessidade de guias. A muralha é hoje o principal atrativo do local e um destino crescente para o turismo científico e de natureza no interior goiano.

Conhecida como Muralha de Ferro ou simplesmente Muralha de Pedra, a formação está localizada no município de Paraúna, na região oeste de Goiás

Leia também: Cientistas encontraram vestígios de armamento semelhante a uma metralhadora em Pompeia

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Por que a muralha de Paraúna alimentou tantas teorias sobre a origem humana?

Durante décadas, o alinhamento notavelmente regular dos blocos de rocha estimulou interpretações que iam muito além da geologia. As teorias mais populares sobre a origem da muralha incluíam:

  • Divisória territorial indígena: parte dos pesquisadores acreditou que a estrutura foi construída por povos pré-colombianos como barreira entre territórios
  • Fronteira entre incas e maias: hipótese amplamente difundida, mas geograficamente improvável, já que nenhuma dessas civilizações habitou o Cerrado goiano
  • “Óleo de baleia” como cimento: a presença de uma substância escura e viscosa entre as juntas das rochas alimentou a teoria de que a muralha teria sido cimentada com gordura de cetáceo por mãos humanas
“Óleo de baleia” como cimento: a presença de uma substância escura e viscosa entre as juntas das rochas alimentou a teoria de que a muralha teria sido cimentada com gordura de cetáceo por mãos humanas

O que os geólogos descobriram sobre a verdadeira origem da muralha?

Em março de 2026, o pesquisador e geólogo Silas Gonçalves apresentou a explicação científica mais fundamentada até hoje. Segundo ele, a muralha não foi construída por humanos: sua origem é inteiramente natural e remonta a entre 135 e 130 milhões de anos atrás, durante um dos maiores eventos vulcânicos continentais já registrados na história geológica do planeta.

Esse evento originou a Província Magmática Paraná, responsável pela emissão de grandes volumes de lava basáltica que recobriram extensas áreas do sul e centro do Brasil. A província é uma das maiores províncias ígneas do mundo, formada quando o supercontinente Gondwana se fragmentou e o Oceano Atlântico Sul começou a se abrir, no processo que separou a América do Sul da África.

Para mostrar como é a experiência de visitar a muralha na prática, o canal Vida de Mochila, com mais de 308 mil inscritos especializados em viagem e turismo de aventura, publicou um episódio completo em Paraúna, explorando a formação rochosa, as lendas locais e as outras atrações do Parque Estadual:

Quais são os processos geológicos que explicam a formação da muralha?

O geólogo Silas Gonçalves identificou cinco processos combinados que, ao longo de dezenas de milhões de anos, resultaram na estrutura que vemos hoje:

  • Derrames basálticos cretáceos: grandes volumes de lava recobriram a região durante o período Cretáceo, formando a base da muralha
  • Fraturamento térmico do basalto: durante o resfriamento da lava, a rocha se contraiu e criou fraturas características chamadas de juntas de resfriamento
  • Fraturas poliédricas: essas juntas dividiram o basalto em blocos de aspecto geométrico regular, que dão à muralha sua aparência de construção intencional
  • Controle estrutural de lineamento geológico: falhas geológicas nas direções NE e NW orientaram o alinhamento linear da formação
  • Erosão diferencial: as rochas sedimentares mais frágeis ao redor foram desgastadas pelo tempo, enquanto o basalto resistente permaneceu em destaque
Derrames basálticos cretáceos: grandes volumes de lava recobriram a região durante o período Cretáceo, formando a base da muralha

O que é a substância escura entre as rochas, se não é óleo de baleia?

Danilo Lessa, coordenador da unidade de conservação do Parque Estadual de Paraúna, esclareceu que a afirmação sobre o óleo de baleia partiu de um livro antigo sobre o local, sem base científica. A substância escura entre as juntas é, na verdade, um dique de diabásio, rocha formada quando o magma preencheu as fissuras da muralha e se solidificou no interior das fendas.

O diabásio é uma rocha ígnea intrusiva de granulometria fina, muito semelhante ao basalto, e sua presença nas juntas é completamente coerente com a história vulcânica da região. O que parecia um cimento misterioso aplicado por mãos humanas é, na leitura científica, mais um registro do mesmo evento geológico que criou a formação inteira.

A muralha goiana que resiste ao tempo e às explicações fáceis

A Muralha de Ferro de Paraúna é a prova de que a natureza é capaz de criar estruturas que desafiam até o olhar mais treinado. Com 130 milhões de anos, ela sobreviveu à fragmentação de um supercontinente, à abertura de um oceano e a décadas de teorias equivocadas sobre sua origem.

E mesmo com a ciência oferecendo respostas, a muralha continua sendo um espetáculo que impressiona quem a visita. Blocos de basalto negro alinhados por forças que agiram há milhões de anos têm um poder de fascínio que nenhuma explicação geológica consegue diminuir.

Tags: arqueologiaCuriosidadeshistória

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