Se alguém te dissesse que um anfíbio come plantas, a reação natural seria de ceticismo. Praticamente todas as espécies do grupo, tanto fósseis quanto as que vivem hoje, são carnívoras, sem exceção conhecida até agora. Foi exatamente essa regra que pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) derrubaram ao identificar a Tanyka amnicola, espécie inédita de 280 milhões de anos com características nunca registradas em nenhum representante do grupo.
O que é a Tanyka amnicola, o novo anfíbio descoberto no Piauí e no Maranhão?
A espécie foi batizada de Tanyka amnicola, nome que significa, em uma combinação de línguas antigas, “mandíbula que mora no rio”, referência ao formato único das estruturas bucais do animal e ao ambiente aquático que habitava. A descoberta foi publicada em 17 de março de 2026 na revista científica Proceedings of the Royal Society B, um dos periódicos de ciências naturais mais prestigiados do mundo.
Os fósseis analisados consistem em nove mandíbulas, coletadas entre 2012 e 2023 nos municípios de Nazária (PI), Timon (MA) e Pastos Bons (MA). As três localidades estão próximas à Floresta Fóssil do Rio Poty, em Teresina, região de alto potencial paleontológico.
A espécie foi batizada de Tanyka amnicola, nome que significa, em uma combinação de línguas antigas, “mandíbula que mora no rio”, referência ao formato único das estruturas bucais do animal e ao ambiente aquático que habitava
Por que um anfíbio herbívoro é uma descoberta sem precedentes na paleontologia?
Segundo a Revista Pesquisa FAPESP, que acompanhou as descobertas de anfíbios e répteis no Nordeste brasileiro, a hipótese de herbivoria na Tanyka amnicola se baseia diretamente na anatomia das mandíbulas encontradas. As principais evidências que sustentam a classificação são:
Mandíbula de formato irregular: estrutura incompatível com a captura de presas vivas, padrão universal entre os anfíbios carnívoros conhecidos
Dentes projetados lateralmente: configuração consistente com o processamento de material vegetal, não com a imobilização de presas
Classificação como tetrápode basal: vertebrado terrestre primitivo posicionado nos primeiros ramos da árvore evolutiva dos tetrápodes, tornando a característica ainda mais significativa para a ciência
“É a primeira vez que encontramos evidências de um anfíbio fóssil que poderia se alimentar de plantas”, declarou o professor Juan Carlos Cisneros, da UFPI e líder da pesquisa.
Mandíbula de formato irregular: estrutura incompatível com a captura de presas vivas, padrão universal entre os anfíbios carnívoros conhecidos
Como a pesquisa que identificou o anfíbio foi conduzida ao longo de mais de uma década?
O estudo envolveu especialistas de instituições dos Estados Unidos, Argentina, Alemanha, África do Sul e Reino Unido, além de análises realizadas no Museu de História Natural de Chicago. O caráter internacional da pesquisa reforça o peso científico da descoberta e posiciona a UFPI em um circuito global de paleontologia.
Mais de mil fósseis coletados na região do Piauí e do Maranhão estão atualmente sob guarda da universidade. Para Cisneros, a Tanyka amnicola não é um caso isolado: “O território piauiense tem grande relevância para novas pesquisas e pode revelar ainda mais informações sobre a evolução dos primeiros vertebrados terrestres.”
Ainda em fevereiro de 2026, a UFPI havia anunciado outra descoberta de impacto na mesma região: os primeiros fósseis de pelicossauros da América do Sul, também com cerca de 280 milhões de anos. O canal TV Assembleia PI, com mais de 147 mil inscritos, registrou a repercussão dessa descoberta e o que ela representa para a paleontologia mundial:
O que explica a sequência de descobertas de anfíbios e animais pré-históricos no Piauí?
Conforme a UFPI, os achados recentes que consolidam o estado como referência mundial no Período Permiano incluem:
Tanyka amnicola (março de 2026): primeiro anfíbio herbívoro registrado na história da paleontologia, com mandíbulas encontradas em três municípios do PI e do MA
Pelicossauros (fevereiro de 2026): primeiros fósseis desses animais encontrados na América do Sul, nos municípios de Nazária e Palmeirais (PI)
Mais de mil fósseis catalogados: acervo sob guarda da UFPI que ainda está em processo de análise e promete novas descrições de espécies nos próximos anos
Como a Bacia do Parnaíba preservou animais primitivos por 280 milhões de anos?
A Bacia do Parnaíba, que abrange o Piauí, o Maranhão e estados vizinhos, preservou sedimentos do período em que todos os continentes ainda estavam unidos no supercontinente Pangeia. Essa condição geológica única explica a presença de formas animais primitivas sem equivalente em outras regiões do mundo.
A combinação de solo favorável à fossilização, isolamento geográfico histórico e décadas de pesquisa acumulada cria condições raras para que espécies como a Tanyka amnicola continuem emergindo do subsolo nordestino. O Piauí se consolida, a cada novo achado, como um dos maiores acervos paleontológicos do planeta para o Período Permiano.
A combinação de solo favorável à fossilização, isolamento geográfico histórico e décadas de pesquisa acumulada cria condições raras para que espécies como a Tanyka amnicola continuem emergindo do subsolo nordestino
Uma descoberta que reescreve o que sabemos sobre os primeiros vertebrados terrestres
A identificação da Tanyka amnicola não é apenas uma adição ao catálogo de espécies extintas. É a prova de que padrões considerados universais nos grupos animais podem ter exceções enterradas há centenas de milhões de anos, esperando por uma obra de campo no interior do Nordeste para virem à tona.
Com mais de mil fósseis ainda sob análise e uma bacia sedimentar que cobre milhares de quilômetros quadrados, o Piauí promete revelar nas próximas décadas capítulos da história da vida na Terra que nenhuma outra região do mundo tem condições de oferecer.