Imagine poder voltar no tempo e observar o nascimento do nosso Sistema Solar, vendo o Sol cercado por um disco brilhante de gás e poeira e planetas ainda em formação. É isso que os astrônomos sentem ao estudar a jovem estrela WISPIT 2 e seus protoplanetas, localizada a cerca de 437 anos luz da Terra, onde telescópios enxergam um grande disco cortado por anéis e lacunas, com gigantes gasosos surgindo em meio ao caos, num cenário que lembra muito a infância do nosso Sol.
O que torna a formação do Sistema Solar tão difícil de observar?
Observar diretamente o nascimento do Sistema Solar é impossível, porque tudo aconteceu há mais de 4,5 bilhões de anos, então os cientistas precisam agir quase como detetives, usando pistas de meteoritos, comparando com outros discos ao redor de estrelas jovens e rodando simulações em computador. O desafio é identificar, em um disco brilhante de poeira, pequenos pontos em crescimento que um dia serão planetas completos, ainda mergulhados em gás denso e turbulento.
Em muitos sistemas jovens, a forte luz da estrela central ofusca qualquer coisa mais fraca ao redor, enquanto a poeira do disco atrapalha ainda mais, espalhando e absorvendo a radiação. Cada nova detecção de um protoplaneta em um disco, como em WISPIT 2, vira um laboratório vivo para testar ideias sobre como os planetas nascem e como isso se compara ao que se imagina que aconteceu com o jovem Sol.

Por que WISPIT 2 se tornou uma referência para entender a formação do Sistema Solar?
Quando falamos em formação do Sistema Solar, muitas pessoas imaginam vários planetas crescendo, cada um em sua órbita, dentro de um disco jovem ao redor do Sol. WISPIT 2 ajuda a visualizar exatamente isso, com detalhes raros, já que ali foram observados pelo menos dois gigantes gasosos, WISPIT 2b e WISPIT 2c, crescendo em posições bem definidas, um mais externo, além da distância de Netuno, e outro mais interno.
Leia também: Astrônomos detectam sinais de um novo “planeta” no Sistema Solar
Esse arranjo, com gigantes gasosos em diferentes regiões do disco, lembra os modelos para a fase inicial em que Júpiter, Saturno, Urano e Netuno interagiam com o gás e a poeira ao redor. No caso de WISPIT 2, os dados indicam que esses planetas estão se formando quase exatamente onde são vistos hoje, o que fortalece a ideia de crescimento local e reduz a necessidade de cenários de migração extrema. Ao mesmo tempo, o estudo detalhado de WISPIT 2 ajuda a verificar se processos como instabilidade gravitacional do disco ou acreção de núcleos sólidos dominam em diferentes distâncias da estrela, algo crucial para comparar com a própria história de Júpiter e Saturno.

Como os astrônomos investigam sistemas parecidos com o Sistema Solar?
Para estudar sistemas que lembram a origem do Sistema Solar, os astrônomos usam telescópios super sensíveis e técnicas de imagem que tentam driblar o brilho da estrela. Instrumentos como o VLT, o ALMA e o Telescópio Espacial James Webb trabalham juntos, usando óptica adaptativa e coronógrafos que bloqueiam a luz central, permitindo enxergar anéis, lacunas e pequenos brilhos que podem ser novos planetas.
Depois de registrar as imagens do disco, os pesquisadores seguem algumas etapas bem organizadas para transformar essas fotos em uma história de formação planetária, comparando o que veem com o que se imagina ter ocorrido ao redor do jovem Sol. Essas etapas ajudam a ligar o que aparece em duas dimensões a um cenário físico mais completo.
- Mapeamento do disco: registrar onde o gás e a poeira se acumulam, identificando anéis e fendas.
- Busca por fontes pontuais: localizar pequenos pontos luminosos em lacunas que podem ser protoplanetas.
- Estimativa de massa e órbita: combinar brilho, temperatura e posição para estimar o tamanho e o caminho desses objetos.
- Comparação com modelos: confrontar os dados com simulações, inclusive do disco primordial do Sol.
Se você quer saber mais, separamos o vídeo do TikTok “@curiosidadedesbloqueada” falando sobre esse planeta bebê:
Que pistas WISPIT 2 oferece sobre o nascimento dos gigantes gasosos?
Os dados sugerem que o disco de WISPIT 2 possui uma região especialmente favorável ao crescimento de grandes planetas, com material abundante, temperaturas adequadas e densidade alta o bastante para que núcleos sólidos atraiam rapidamente grandes quantidades de gás. Outros sistemas, como PDS 70 e AB Aur, já mostraram sinais de planetas em formação, mas poucos revelam mais de um gigante confirmadamente nascendo no mesmo disco.
As lacunas visíveis em WISPIT 2 indicam que esses gigantes já estão mexendo com o gás e a poeira ao redor, moldando o disco e talvez influenciando futuras órbitas de mundos rochosos internos. A possível presença de um terceiro protoplaneta, em uma lacuna ainda mais distante, aponta para um sistema complexo em construção e, com observações futuras, será possível medir melhor massas, composições e movimentos, aproximando as histórias teóricas da formação do Sistema Solar do que realmente acontece em discos jovens como o de WISPIT 2. Além disso, o acompanhamento ao longo de anos poderá revelar mudanças sutis na estrutura do disco, permitindo testar diretamente se interações entre múltiplos gigantes gasosos — como as que se acredita terem ocorrido entre Júpiter, Saturno, Urano e Netuno — já começam enquanto o disco ainda está cheio de gás.









