Cargas de navios descobertas no porto antigo de Dor forçam historiadores a reavaliar o comércio mediterrâneo na Idade do Ferro. O achado, feito na lagoa de Dor, ao sul de Haifa, revelou três conjuntos submersos de carga datados entre os séculos 11 e 6 a.C., oferecendo uma evidência direta de circulação marítima em uma época cuja reconstrução dependia, em grande parte, de achados em terra.
Como essas cargas de navios foram encontradas em Dor?
As cargas de navios foram identificadas em três conjuntos separados dentro da lagoa de Dor, também conhecida como lagoa de Tantura, na costa do Carmelo. No mundo antigo, essa área funcionava como um porto protegido e estratégico, ligado a redes egípcias, fenícias e, mais tarde, assírias e babilônicas.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da University of California San Diego e da Universidade de Haifa, com apoio de arqueologia subaquática e técnicas como modelagem 3D, imageamento multiespectral e mapeamento digital. Isso permitiu documentar os conjuntos com um nível de detalhe raro para a arqueologia marítima da Idade do Ferro.

O que essas cargas de navios revelam sobre o comércio mediterrâneo?
O principal impacto da descoberta é mostrar que Dor não era apenas um ponto costeiro local, mas um centro marítimo ativo, integrado a rotas comerciais maiores. Os três conjuntos refletem fases diferentes do comércio no Mediterrâneo oriental e ajudam a enxergar como conexões, influências políticas e fluxos de mercadorias mudaram ao longo do tempo.
Em vez de uma rede comercial estática, as cargas de navios mostram um sistema em transformação. Em certos momentos, Dor aparece ligada ao Egito e a Chipre. Em outros, essas conexões diminuem, enquanto a atividade fenícia continua ou volta a ganhar força.
Quais mercadorias apareceram nessas cargas de navios?
As cargas de navios revelaram materiais bem diferentes entre si, e isso é justamente o que torna o conjunto tão importante. O mais antigo, Dor M, do século 11 a.C., inclui jarros de armazenamento e uma âncora com inscrição cipro-minoica, além de indícios de vínculos com Chipre, Egito e a costa fenícia.
Os outros dois conjuntos ajudam a completar essa evolução comercial:
- Dor L1, do fim do século 9 ao início do século 8 a.C., trouxe jarros de estilo fenício e tigelas de parede fina.
- Dor L2, do fim do século 7 ou início do século 6 a.C., preservou ânforas do tipo “basket-handled”.
- No mesmo Dor L2 apareceram também massas de ferro e escória, interpretadas como evidência de comércio metálico em escala inicial, quase industrial.
- Resíduos orgânicos e vestígios botânicos, como sementes de uva e caroços de tâmara, ajudaram a reforçar o contexto das mercadorias transportadas.
Esse último conjunto é especialmente valioso porque é o mais completo dos três e sugere uma circulação de metais muito mais organizada do que se imaginava para o período.

Por que Dor se tornou tão importante nesse novo cenário histórico?
Dor passa a ser vista como um porto dinâmico, cujo peso subia e descia conforme as mudanças geopolíticas do Mediterrâneo oriental. A presença de cais, âncoras de pedra e estruturas artificiais semelhantes a quebra-mares reforça a ideia de que o local era um nó importante dentro da rede marítima da Idade do Ferro.
Além disso, os pesquisadores destacam que esses achados estão entre os pouquíssimos conjuntos de cargas da Idade do Ferro conhecidos em todo o Mediterrâneo, e os primeiros diretamente ligados a uma cidade portuária documentada no sul do Levante. Isso dá a Dor um peso excepcional para reconstituir o comércio antigo.
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Por que essas cargas de navios mudam tanto a visão do passado?
Essas cargas de navios mudam o panorama do comércio no Mediterrâneo porque tiram o debate do campo das hipóteses e colocam a discussão sobre evidência direta. Em vez de depender apenas de objetos encontrados em terra, os pesquisadores agora têm vestígios concretos de mercadorias, contatos regionais e transformações políticas preservados dentro do próprio espaço portuário.
O mais interessante é que as escavações ainda estão no começo. Segundo o estudo, apenas cerca de 25% do banco de areia que guarda os conjuntos foi escavado até agora, e ainda podem surgir mais objetos e até partes do casco de uma das embarcações. Isso significa que Dor talvez ainda tenha muito a acrescentar à história do comércio mediterrâneo antigo.








