Existe um vertebrado nadando no Ártico hoje que provavelmente nasceu enquanto o Brasil ainda era colônia portuguesa. O tubarão-da-Groenlândia é o animal com maior longevidade já registrado pela ciência, e o que os pesquisadores encontraram no seu genoma vai muito além da curiosidade sobre longevidade.
Qual estudo confirmou esse vertebrado como o mais longevo do planeta?
A descoberta foi consolidada por uma pesquisa internacional liderada pelo biólogo marinho Julius Nielsen, da Universidade de Copenhague, publicada em agosto de 2016 na revista Science. O estudo analisou 28 fêmeas de tubarão-da-Groenlândia capturadas acidentalmente por pescadores nas águas do Oceano Ártico.
Para determinar a idade dos animais, os cientistas usaram a datação por radiocarbono nas lentes oculares, tecido que se forma antes do nascimento e não se regenera ao longo da vida. O maior espécime, com 502 cm de comprimento, teria aproximadamente 392 ± 120 anos na época do estudo, o que significa que nasceu por volta de 1624.

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Por que o tubarão-da-Groenlândia consegue viver quatro séculos?
A longevidade extrema dessa espécie resulta de uma combinação de fatores biológicos e ambientais que poucos animais reúnem ao mesmo tempo. Os principais são:
- Crescimento de apenas 1 cm por ano: um dos ritmos mais lentos já registrados entre vertebrados de grande porte.
- Maturidade sexual muito tardia: o estudo aponta que atingem a fase adulta em torno dos 156 ± 22 anos.
- Metabolismo adaptado ao frio extremo: habitam águas que chegam a -2 °C, com profundidades que podem superar 2.000 metros.
- Mecanismos genéticos de reparo do DNA: pesquisas recentes sugerem múltiplas cópias de genes responsáveis pela reparação celular.
O canal Ciência News, com mais de 118 mil inscritos, explora em profundidade a datação por radiocarbono, o crescimento de 1 cm por ano e os genes de reparo do DNA do tubarão-da-Groenlândia com base no estudo da Science de 2016:
O que o genoma desse vertebrado revela sobre resistência ao câncer?
Mapeamentos genéticos recentes revelaram que o genoma do tubarão-da-Groenlândia é o dobro do tamanho do genoma humano, com mais de 70% composto por genes saltadores, segmentos móveis que podem alterar a forma como os genes se expressam e evoluem.
Dois achados se destacam. O primeiro é a presença de múltiplas cópias de genes de reparo celular, tornando suas células mais resistentes a mutações que causam câncer. O segundo é uma versão modificada do gene TP53, essencial para a supressão de tumores, que pode explicar por que esses tubarões raramente desenvolvem a doença.

Como os cientistas calculam a idade de um animal que vive séculos?
O tubarão-da-Groenlândia é cartilaginoso, inviabilizando a datação óssea convencional usada em outros vertebrados. A solução foi analisar as lentes oculares, tecido formado antes do nascimento que permanece inalterado por toda a vida. Por meio da datação por radiocarbono, os cientistas estimam quando esse tecido foi formado e calculam a idade aproximada do espécime.
Os resultados do estudo de 2016 estabeleceram novos parâmetros para a biologia de vertebrados. A expectativa de vida mínima estimada para a espécie é de ao menos 272 anos, mesmo considerando a margem de erro mais conservadora da metodologia aplicada.

Por que esse tubarão interessa tanto à medicina moderna?
Se os mecanismos genéticos do tubarão-da-Groenlândia pudessem ser compreendidos e adaptados, poderiam abrir caminhos para novas abordagens em medicina regenerativa e oncologia. A combinação de longevidade extrema com baixa incidência de câncer é rara na natureza e cientificamente valiosa.
Seu metabolismo reduzido, adaptado às geladas águas do Ártico, também pode estar diretamente ligado à menor acumulação de danos celulares ao longo do tempo. Essa combinação torna a espécie um modelo natural único para pesquisas sobre envelhecimento que dificilmente poderia ser replicado em laboratório.
O animal que nasceu no século XVII ainda tem muito a ensinar à ciência
O vertebrado mais velho do mundo atravessou quatro séculos de história humana praticamente intacto, e a ciência ainda está nos primeiros capítulos da sua história. Cada dado extraído do seu genoma representa uma pista concreta sobre processos biológicos que a medicina busca compreender há décadas.
Compreender como uma criatura consegue chegar aos 400 anos com deterioração biológica mínima pode oferecer, no futuro, estratégias reais contra doenças associadas ao envelhecimento. O tubarão-da-Groenlândia não é apenas uma curiosidade da natureza: é um arquivo vivo de respostas que a humanidade ainda não sabe formular direito.









