Muito antes dos dinossauros, uma estranha criatura verde dominava a paisagem terrestre e formava as primeiras florestas da história do planeta. Essa árvore se chama Wattieza, viveu no período Devoniano há cerca de 385 milhões de anos e só teve sua aparência completa revelada em 2007, após mais de 130 anos de busca por fragmentos fósseis espalhados pelo mundo.
Como os fósseis da árvore mais antiga foram descobertos em 1870?
Tudo começou em 1870, quando trabalhadores que consertavam estradas na cidade de Gilboa, no estado de Nova York, nos Estados Unidos, detonaram rochas e encontraram tocos de árvores fósseis incrustados no solo. Os troncos estavam em posição de crescimento, agrupados como se ainda estivessem vivos, evidência de uma floresta primitiva, mas a parte superior de cada árvore estava ausente.
Por mais de 130 anos, os tocos de Gilboa permaneceram como um dos maiores enigmas da paleobotânica. Sabia-se que eram as mais antigas árvores conhecidas, mas ninguém conseguia identificar a planta nem reconstituir sua forma completa.

O que resolveu o mistério dos tocos de Gilboa após 130 anos?
Em 2005, em uma pedreira a apenas 16 quilômetros de Gilboa, pesquisadores encontraram o fóssil completo de um tronco de aproximadamente 8 metros de comprimento com ramos preservados. A paleobotânica Linda VanAller Hernick, do Museu do Estado de Nova York, e o professor Christopher Berry, da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, perceberam que as estrias na base do novo fóssil coincidiam perfeitamente com os tocos de Gilboa.
Segundo o Science News, as árvores mais antigas finalmente ganharam sua coroa com a publicação do resultado em abril de 2007 na revista científica Nature: a parte superior desconhecida dos tocos pertencia à Wattieza, gênero até então conhecido apenas pelos ramos caídos, sem que se soubesse a que planta pertenciam.
Como era a Wattieza e por que ela não tinha folhas nem sementes?
A Wattieza pertence ao grupo das Cladoxylopsidas, parentes extintos das modernas samambaias e cavalinhas, não das palmeiras, às quais se assemelha apenas visualmente. Tinha um tronco fino e liso, sem casca grossa, que podia atingir entre 8 e 10 metros de altura e cerca de 0,5 metro de diâmetro na base.
De acordo com a Britannica, a Eospermatopteris (nome dado anteriormente aos tocos de Gilboa) carregava no topo um tufo de frondes, estruturas semelhantes às de samambaia moderna, que caíam periodicamente ao chão. A árvore não possuía sementes e se reproduzia por esporos, realizando a fotossíntese principalmente pelos galhos, não por folhas planas.
As principais características da Wattieza a distinguem de qualquer árvore moderna:
- Altura: entre 8 e 10 metros, com tronco de até 0,5 metro de diâmetro na base
- Sem folhas verdadeiras: fotossíntese feita pelos galhos e pelas frondes do topo
- Sem sementes: reprodução exclusivamente por esporos, como samambaias e cavalinhas
- Grupo taxonômico: Cladoxylopsidas, parentes extintos das samambaias modernas
- Distribuição: fósseis identificados nos EUA, na Bélgica e na Venezuela

Qual foi o impacto das primeiras florestas dessa árvore no planeta?
A Wattieza viveu no Devoniano Médio, entre 397 e 382 milhões de anos atrás, habitando pântanos lamacentos às margens de um mar interior que cobria o que hoje é o nordeste dos Estados Unidos. As florestas que ela formava eram densas, com troncos espaçados como árvores em uma plantação moderna.
O canal Zoomundo, com mais de 213 mil inscritos no YouTube, explora o período Devoniano em detalhe, incluindo o surgimento das primeiras florestas, a expansão dos vertebrados em terra firme e os eventos de extinção em massa que encerraram a era:
A Wattieza tem descendentes entre as árvores que existem hoje?
A Wattieza superou a Archaeopteris, uma árvore com folhas reais mais parecida com as modernas, como a mais antiga conhecida por pelo menos 15 a 25 milhões de anos. Apesar desse posto, ela representa um ramo evolutivo sem descendentes diretos entre as árvores que cobrem a Terra hoje.
A proliferação das florestas primitivas de Wattieza extraiu enormes quantidades de CO₂ da atmosfera, resfriou o clima global e acelerou o intemperismo das rochas, liberando nutrientes nos oceanos. Esse processo provavelmente contribuiu para a extinção em massa do Devoniano Tardio, um dos cinco maiores eventos de extinção da história da vida na Terra. A árvore mais antiga do planeta ajudou a transformar o mundo tão profundamente que acabou alterando as condições que permitiam sua própria existência.







