Você provavelmente já ouviu que os cães são os melhores amigos do homem há milhares de anos, mas a ciência acaba de mostrar que essa amizade é ainda mais antiga do que qualquer estimativa anterior. Dois estudos identificaram a evidência genética mais antiga já registrada de cães domésticos, confirmando a presença desses animais ao lado de grupos humanos há pelo menos 15.800 anos, em plena era dos caçadores-coletores nômades.
Como os pesquisadores chegaram a essa descoberta sobre os cães?
A pesquisa foi liderada por cientistas das Universidades de Liverpool e Oxford, com participação de especialistas de 17 instituições internacionais. A equipe analisou genomas completos extraídos de 216 esqueletos de canídeos, sendo pelo menos 181 anteriores ao Neolítico, ou seja, de antes do surgimento da agricultura.
As amostras vieram de sítios arqueológicos da Europa e foram processadas com uma técnica chamada captura por hibridização, que aumenta a quantidade de DNA recuperável de ossos muito antigos. Os resultados foram então comparados a mais de 1.000 genomas de cães modernos e antigos de todo o mundo.

Qual é a evidência mais antiga encontrada e onde ela foi descoberta?
O espécime mais antigo confirmado é uma fêmea filhote encontrada no sítio arqueológico de Pınarbaşı, na atual Turquia, datada de 15.800 anos atrás. O segundo mais antigo vem da Caverna de Gough, na Inglaterra, com 14.300 anos.
Apesar de separados por mais de 4.000 km, os genomas dos dois animais eram notavelmente semelhantes. Isso indica que cães domésticos já estavam amplamente dispersos pelo oeste da Eurásia nesse período, muito antes do que qualquer registro anterior sugeria.
O que essa descoberta muda no que se sabia sobre a domesticação dos cães?
Antes desses estudos, o registro genético mais antigo de cão doméstico datava de aproximadamente 10.900 anos, proveniente do noroeste da Rússia. A nova descoberta empurra esse limite em mais de cinco milênios.
Além disso, a análise genômica descartou uma hipótese importante: a de que os cães europeus teriam sido domesticados de forma independente a partir de lobos locais. Todos os espécimes analisados compartilham uma ancestralidade comum que se expandiu rapidamente pela região entre 18.500 e 14.000 anos atrás. Entre as descobertas que reorganizam o que se sabia sobre a espécie:
- Os cães paleolíticos europeus mostraram maior parentesco genético com raças como o bóxer e o saluki do que com raças árticas como o husky
- A domesticação ocorreu pelo menos 10.000 anos antes de qualquer outra planta ou animal ser domesticado
- A dispersão pela Eurásia foi rápida e ampla, sugerindo que os cães acompanhavam grupos humanos em movimento

O que os enterramentos em Pınarbaşı revelam sobre o vínculo entre humanos e cães?
Em Pınarbaşı, filhotes foram encontrados enterrados sobre sepulturas humanas. Esse dado é significativo: embora não fossem animais de companhia no sentido atual, já existia um vínculo estreito entre as espécies muito antes de qualquer estrutura social sedentária.
Conforme noticiado pela revista Archaeology, a descoberta confirma que os cães acompanharam os primeiros humanos enquanto eles ainda viviam como caçadores-coletores nômades, sem territórios fixos ou agricultura estabelecida.
O que a genética revela sobre a origem comum de todos os cães domésticos?
Um dos resultados mais relevantes dos estudos é a confirmação de que não houve múltiplos eventos independentes de domesticação na Europa. Segundo análise publicada sobre os estudos, todos os cães domésticos europeus do período analisado compartilham uma linhagem genética única, que se expandiu pelo continente de forma contínua.
Segundo o pesquisador Anders Bergström, da Universidade de East Anglia e coautor do estudo, a descoberta reforça que a relação entre humanos e cães não foi um evento isolado, mas um processo que se consolidou e se espalhou com as próprias populações humanas do período.
Os cachorros eram companheiros humanos muito antes de qualquer civilização
O que ambos os estudos mostram, em conjunto, é que a relação entre humanos e cães não começou com a sedentarização, com a agricultura ou com as primeiras cidades. Ela já estava estabelecida quando os humanos ainda seguiam manadas e dormiam ao relento.
Cada novo fragmento de DNA recuperado de ossos com milhares de anos reposiciona essa história. E o filhote de Pınarbaşı, enterrado sobre uma sepultura humana há quase 16 mil anos, é até agora o registro mais antigo de uma ligação que ainda existe em bilhões de lares ao redor do mundo.








