Em 8 de julho de 2023, pesquisadores do Projeto CETI testemunharam algo que a ciência nunca havia documentado em vídeo: baleias-cachalote trabalhando juntas para auxiliar o nascimento de um filhote nas águas de Dominica, no Caribe. Dois estudos publicados simultaneamente nas revistas Science e Scientific Reports analisam esse evento com um nível de detalhe sem precedentes na pesquisa com cetáceos.
O que é o Projeto CETI e por que ele estava lá?
O Projeto CETI (Cetacean Translation Initiative) é uma iniciativa científica dedicada ao estudo da comunicação dos cachalotes. A equipe acompanha grupos de baleias nas águas de Dominica com equipamentos que combinam drones, hidrofones e visão computacional para registrar comportamentos com precisão quantitativa.
Foi justamente esse aparato que permitiu documentar, pela primeira vez, um parto de cachalote com filmagem aérea e áudio subaquático simultâneo. Sem essa combinação de tecnologias, boa parte do que foi observado simplesmente não teria sido registrado.

Como foi o parto das baleias documentado pelos pesquisadores?
O grupo presente era formado por 11 cachalotes, sendo oito adultos e três filhotes, pertencentes a dois grupos familiares distintos que normalmente não interagem. A mãe, identificada como Rounder, iniciou o parto por volta das 11h12 (horário local).
A expulsão do filhote durou 34 minutos, com a cria saindo pela cauda, posição típica dos cetáceos. O único macho presente, um jovem chamado Allan, foi constantemente afastado pelo grupo durante todo o evento.
Por que o comportamento das baleias após o nascimento surpreendeu a ciência?
O que aconteceu nas horas seguintes foi o centro das descobertas. As fêmeas se revezaram para manter o recém-nascido fora da água e evitar que se afogasse, apoiando-o sobre os próprios dorsos. Conforme o artigo publicado na Science, os pesquisadores identificaram que quatro fêmeas foram responsáveis por 96% do tempo total de suporte ao filhote.
Essas quatro fêmeas eram Rounder (a mãe), sua meia-irmã Aurora, uma fêmea sem parentesco chamada Ariel e uma quarta fêmea mais velha. O dado surpreendente é que parte desse cuidado veio de indivíduos sem laço genético com o filhote, algo raramente documentado com esse rigor em espécies não primatas.
Entre os comportamentos registrados e descritos no estudo, destacam-se:
- Sustentação física sincronizada do recém-nascido sobre os dorsos das fêmeas
- Estabilização coordenada para manter a cria na superfície da água
- Cuidado compartilhado entre fêmeas de grupos familiares distintos, que normalmente não convivem
- Afastamento ativo do único macho presente durante todo o evento
O que as vocalizações das baleias revelaram durante o parto?
Paralelamente à análise visual, o estudo publicado no Scientific Reports analisou mais de seis horas de áudio subaquático coletado durante o evento. As baleias emitiram vocalizações conhecidas como codas, rajadas curtas de estalos usadas para comunicação social, e essas codas variaram significativamente nos momentos-chave do parto.
Logo após o nascimento, um grupo de dez golfinhos também se aproximou repetidamente da cena, e baleias-piloto foram avistadas nas imediações. A combinação de áudio e vídeo simultâneos permitiu cruzar os padrões vocais com os comportamentos físicos observados, algo inédito para a espécie.

Por que esse registro é tão raro na pesquisa com cetáceos?
Observações de parto em cetáceos selvagens são documentadas em menos de 10% das espécies conhecidas. Conforme reportagem do The Guardian sobre os estudos, este é apenas o quarto nascimento de cachalote documentado em mais de 60 anos de pesquisa, e o único filmado com drone e acompanhado de áudio subaquático simultâneo.
Alguns fatores tornam esse tipo de registro particularmente difícil:
- Cachalotes passam a maior parte do tempo em mergulhos profundos, fora do alcance de observação direta
- Os partos ocorrem de forma imprevisível, sem sinais antecipados acessíveis aos pesquisadores
- O equipamento necessário para registrar áudio e vídeo simultaneamente só se tornou viável em campo nos últimos anos
O que esse parto revela sobre a evolução dos cachalotes?
Segundo nota de divulgação dos estudos, as evidências sugerem que a cooperação durante o parto é um comportamento com raízes evolutivas que remontam a mais de 36 milhões de anos na linhagem dos cachalotes. Os pesquisadores de Harvard e do Projeto CETI apontam que esse padrão pode ter surgido como estratégia de sobrevivência muito antes do que se imaginava.
Para as baleias cachalote, cooperar durante o nascimento não é um comportamento acidental. É, segundo os dados, parte de uma complexidade social construída ao longo de dezenas de milhões de anos, e que a ciência está apenas começando a compreender com a profundidade que merece.









