Já pensou que o fundo do mar pode guardar registros de um mundo completamente diferente do que conhecemos hoje? No leito do Mar do Norte, enterrados sob camadas de lama marinha, pesquisadores identificaram sulcos quilométricos deixados por icebergs colossais há cerca de 18 mil anos, e o que esses rastros revelam sobre o comportamento das plataformas de gelo pode mudar a forma como a ciência projeta a Antártida.
Como os sulcos de icebergs foram detectados no fundo do Mar do Norte?
As marcas não foram encontradas por acaso. Segundo o estudo publicado em abril de 2025 na Nature Communications, os dados que revelaram os sulcos foram coletados originalmente para prospecção de petróleo e gás, e só décadas depois foram reinterpretados por pesquisadores do British Antarctic Survey (BAS).
A equipe utilizou ondas sonoras para criar digitalizações em 3D detalhadas do leito marinho. O resultado foram imagens de sulcos que se estendem por quilômetros, esculpidos por blocos de gelo de até 10 quilômetros de largura, comparáveis em tamanho a cidades como Cambridge ou Norwich.
Quando esses icebergs navegavam perto da costa britânica?
A datação por radiocarbono dos sedimentos ao redor das marcas indicou que esses icebergs gigantes transitavam a menos de 145 quilômetros da costa britânica entre 20 mil e 18 mil anos atrás. Naquele período, a antiga calota glacial britânica e irlandesa ainda se estendia sobre boa parte do norte da Europa e começava a se desintegrar rapidamente com o aquecimento do clima.
“O que encontramos foram marcas de erosão que se estendiam por quilômetros, escondidas sob camadas de lama marinha, formadas por blocos de gelo de até 10 quilômetros de largura”, explicou James Kirkham, pesquisador do BAS e líder do estudo.
A datação por radiocarbono dos sedimentos ao redor das marcas indicou que esses icebergs gigantes transitavam a menos de 145 quilômetros da costa britânica entre 20 mil e 18 mil anos atrás
O que a mudança no formato dos sulcos revela sobre o colapso das plataformas de gelo?
Uma das descobertas mais relevantes do estudo está na transformação gradual das próprias marcas. Os pesquisadores identificaram dois padrões distintos de sulcos ao longo do tempo, e a transição entre eles conta uma história sobre como as plataformas de gelo se fragmentam.
Sulcos longos, largos e retos: típicos de icebergs tabulares gigantes, produzidos pelo ciclo normal das plataformas de gelo ainda íntegras, predominantes no período mais antigo do registro
Sulcos menores, mais estreitos e sinuosos: indicativos de icebergs menores e mais numerosos, gerados à medida que as plataformas se fragmentavam progressivamente antes do colapso total
“Por volta de 18 mil anos atrás, detectamos uma mudança no tipo de marca deixada pelos icebergs: de enormes bergs tabulares para icebergs muito mais numerosos e menores, à medida que as plataformas se desintegravam”, explicou a coautora Dr. Kelly Hogan, geofísica marinha do BAS. Essa sequência mostra que o colapso não foi abrupto, mas precedido por uma fase de fragmentação progressiva.
Uma das descobertas mais relevantes do estudo está na transformação gradual das próprias marcas
Por que o Mar do Norte serve de modelo para prever o comportamento da Antártida?
O registro geológico do Mar do Norte oferece algo raro na ciência climática: um exemplo completo e datado de como uma grande calota glacial respondeu ao aquecimento em escala de milênios. O padrão de fragmentação progressiva identificado nos sulcos já foi observado em eventos recentes no continente gelado:
Colapso da plataforma Larsen B, em 2002: a desintegração ocorreu após um período de fragmentação gradual, exatamente como o padrão registrado nos sulcos do Mar do Norte
Ruptura do iceberg A68a, em 2021: o desprendimento do maior iceberg já monitorado seguiu dinâmica semelhante à transição observada nos registros históricos
A equipe do BAS acredita que esses paralelos tornam o registro histórico uma ferramenta direta de modelagem para o futuro da Antártida.
Para entender melhor como essa tecnologia de mapeamento funciona e por que ela é crucial para a ciência do clima, o canal British Antarctic Survey, com mais de 17,4 mil inscritos, publicou um vídeo em que o próprio James Kirkham explica o processo diretamente:
O que os dados do Mar do Norte indicam sobre a elevação do nível do mar?
Essa conexão entre passado e presente é o que torna a descoberta relevante além da paleontologia. Se as plataformas de gelo da Antártida seguirem o mesmo padrão de fragmentação progressiva observado nos sulcos, os modelos climáticos atuais podem estar subestimando a velocidade da elevação dos oceanos nas próximas décadas.
Os rastros de 18 mil anos que ainda têm algo a dizer sobre o nosso tempo
O que impressiona nessa pesquisa é a escala do que estava escondido. Sulcos de quilômetros de extensão, esculpidos por gelo do tamanho de cidades, permaneceram invisíveis sob a lama do Mar do Norte por milênios até que a tecnologia permitisse lê-los. E o que eles dizem é direto: plataformas de gelo não colapsam de uma vez, elas se fragmentam gradualmente antes de ceder.
Esse detalhe muda a forma como os cientistas devem interpretar sinais como o desprendimento de icebergs gigantes na Antártida hoje. O que parece um evento isolado pode ser, na verdade, o primeiro capítulo de um processo muito maior, e o fundo do Mar do Norte já viveu esse capítulo antes.