Há lugares na Terra que nunca foram tocados pela luz do sol, pelo vento ou pela chuva em dezenas de milhões de anos. Um desses lugares ficava completamente desconhecido até hoje: uma paisagem pré-glacial intacta soterrada sob quase 2 quilômetros de gelo antártico, com vales, cumeeiras e canais fluviais esculpidos quando a Antártida ainda era um continente verde, habitado e conectado ao restante do mundo.
O que os pesquisadores encontraram sob o gelo antártico da Antártida Oriental?
Segundo o estudo publicado em outubro de 2023 na Nature Communications, a equipe liderada pelo Professor Stewart Jamieson, da Universidade de Durham, no Reino Unido, identificou uma paisagem subglacial preservada que ocupa cerca de 32.000 km², uma área comparável ao País de Gales.
Os dados foram obtidos pelo projeto ICECAP, usando imagens do satélite RADARSAT e técnicas de sondagem a rádio. Com essas ferramentas, os pesquisadores mapearam, pela primeira vez, uma região onde o terreno subglacial era menos conhecido do que a superfície de Marte. O que encontraram foram vales, cumeeiras e canais fluviais enterrados sob aproximadamente 2 quilômetros de gelo antártico.

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Quando e como essa paisagem foi esculpida antes do congelamento da Antártida?
A paisagem foi formada por rios em um período em que a Antártida ainda fazia parte do supercontinente Gondwana, compartilhando território com a África, a América do Sul e a Austrália. Naquela época, florestas cobriam o continente, animais terrestres habitavam a região e rios esculpiam o relevo com a mesma liberdade que fazem hoje em outros continentes.
A transição para um mundo glacial ocorreu na virada Eoceno-Oligoceno, há cerca de 34 milhões de anos, quando os níveis de CO₂ atmosférico caíram abaixo de um limiar crítico e as temperaturas globais despencaram. Desde então, a paisagem fluvial permaneceu preservada sob o peso da calota, sem ser erodida.
“A implicação é que esta deve ser uma paisagem muito antiga, esculpida por rios antes que a própria calota de gelo se formasse”, afirmou Stewart Jamieson. A datação ainda é incerta: a paisagem pode ter se formado antes da glaciação ou durante flutuações da calota entre 34 e 14 milhões de anos atrás.

Por que o gelo preservou essa paisagem em vez de destruí-la?
A preservação da paisagem por dezenas de milhões de anos não é coincidência. Ela depende de uma característica específica do gelo antártico que cobre a região, chamada de gelo de base fria. Esse tipo de gelo apresenta características que o diferenciam de outras calotas glaciais:
- Temperatura extremamente baixa na base: o gelo de base fria está congelado ao substrato rochoso, sem a camada de água que lubrifica e acelera o movimento em outras regiões
- Movimento praticamente nulo: sem deslizamento basal, o gelo não exerce força erosiva significativa sobre o terreno abaixo, agindo como uma redoma protetora
- Isolamento total do ambiente externo: a paisagem abaixo fica protegida de ventos, chuvas, ciclos de temperatura e qualquer processo erosivo superficial por milhões de anos
Esse conjunto de fatores transformou a calota em um arquivo geológico vivo, capaz de preservar formas de relevo que em qualquer outro lugar do planeta teriam desaparecido há muito tempo.
O canal Olhar Digital, com mais de 949 mil inscritos, publicou um vídeo que explora a descoberta desse antigo sistema fluvial escondido sob o gelo antártico e contextualiza o que ela representa para a ciência:
Um segundo estudo amplia a descoberta para uma faixa de 3.500 km da costa antártica
Conforme divulgado pelo EurekAlert, em julho de 2025, a mesma equipe de Durham, em parceria com o British Antarctic Survey (BAS), publicou novos resultados na Nature Geoscience, mapeando planícies costeiras preservadas ao longo de uma faixa de 3.500 km do litoral da Antártida Oriental.
Algumas dessas superfícies têm origem estimada em mais de 80 milhões de anos, quando a Antártida e a Austrália ainda estavam unidas como parte de Gondwana. Os novos dados ampliam significativamente o cenário da paisagem pré-glacial e adicionam uma camada extra de complexidade ao que os pesquisadores precisam considerar para modelar o comportamento futuro da calota.
Quais regiões da Antártida são mais vulneráveis ao colapso com o aquecimento global?
Conhecer a topografia do solo sob a calota é essencial para prever como ela responderá ao aquecimento. O relevo subglacial influencia diretamente o fluxo do gelo antártico e determina quais setores são mais suscetíveis a recuos e colapsos. Os setores mais preocupantes identificados pelos pesquisadores são:
- Bacia Subglacial Aurora: região de baixa altitude especialmente vulnerável à intrusão de oceano aquecido por baixo das plataformas de gelo, o que pode acelerar o degelo a partir da base
- Bacia Subglacial Wilkes: outra área de terreno rebaixado onde a entrada de água oceânica aquecida representa risco significativo de desestabilização da calota em cenários de aquecimento acelerado
Um eventual colapso dessas áreas contribuiria expressivamente para a elevação do nível do mar global, tornando o mapeamento subglacial uma das ferramentas mais urgentes da ciência climática atual.

O que uma paisagem de 34 milhões de anos revela sobre o futuro do planeta
A descoberta inverte uma lógica comum: em vez de olhar para o futuro com modelos e projeções, os pesquisadores estão olhando para o passado mais profundo da Antártida para entender o que pode acontecer nas próximas décadas. Uma paisagem que sobreviveu intacta por 34 milhões de anos sob o gelo antártico carrega informações que nenhum modelo computacional consegue gerar sozinho.
O relevo escondido abaixo da calota não é apenas uma curiosidade geológica. Ele é a chave para entender quais partes da Antártida Oriental podem se tornar instáveis primeiro, quanto gelo pode ser perdido e em que velocidade o oceano pode avançar sobre as costas do mundo.









