Há obras que param porque encontram rocha. Esta parou porque encontrou história. Durante a escavação de salvamento para a construção da rodovia D35, na região de Hradec Králové, na República Tcheca, arqueólogos desenterraram um imenso assentamento dos celtas do período La Tène, datado do século II a.C., com ouro, prata, âmbar e estruturas artesanais em estado excepcional de conservação.
Como os celtas foram encontrados debaixo de onde seria uma rodovia?
A descoberta foi obrigatória antes mesmo de qualquer máquina entrar em campo. A legislação tcheca exige escavações de salvamento em áreas de obras de infraestrutura, e foi exatamente nesse processo que os primeiros achados vieram à tona ainda na fase de prospecção. O volume e a importância do que aparecia foram crescendo ao longo de três temporadas de escavação, entre 2023 e 2025.
As equipes do Museu da Boêmia Oriental e da Universidade de Hradec Králové conduziram os trabalhos. O que começou como uma etapa burocrática do licenciamento de obras terminou como uma das maiores descobertas arqueológicas da história do país.

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Qual é o tamanho do assentamento celta encontrado na República Tcheca?
O sítio ocupa cerca de 25 hectares, equivalente a quase 35 campos de futebol. Não se trata de um acampamento isolado ou de um conjunto disperso de objetos, mas de um assentamento estruturado, com habitações, porões, poços, instalações de produção artesanal e pelo menos uma ou duas estruturas de caráter religioso interpretadas pelos arqueólogos como santuários.
O conjunto gerou aproximadamente 22.000 embalagens de achados catalogados, um dos maiores volumes de artefatos já coletados em um único sítio na Boêmia. A dimensão do registro é, por si só, um indicador da relevância do local para a compreensão da Europa pré-romana.
O que os arqueólogos encontraram entre os artefatos celtas?
A variedade e a qualidade dos achados surpreenderam até os especialistas mais experientes. Os objetos recuperados cobrem desde itens do cotidiano até peças de alto valor simbólico e comercial. Entre os principais achados estão:
- Centenas de moedas de ouro e prata e moldes para cunhagem, evidência de produção monetária local organizada.
- Joias em abundância: braceletes, fíbulas, contas de vidro e apliques metálicos de alta qualidade artesanal.
- Âmbar do Mar Báltico, confirmando a inserção do sítio na antiga Rota do Âmbar.
- Cerâmica de luxo e evidências de sua fabricação no próprio assentamento.
- Vestígios de habitações, porões e poços, além de instalações de produção artesanal em diferentes estágios.
- Estruturas interpretadas como santuários religiosos, incomuns em sítios desse tipo.

Por que esse assentamento celta era um centro comercial tão importante?
A declaração oficial do Museu da Boêmia Oriental caracterizou o sítio como um centro suprarregional de comércio e produção conectado a rotas de longa distância. A conclusão é sustentada pela combinação de elementos raramente encontrados juntos: âmbar báltico, moedas de ouro e prata e cerâmica de luxo produzida localmente, tudo no mesmo sítio, no interior da Boêmia.
Segundo reportagem do AS, o rádio público tcheco confirmou que os achados revelam contatos comerciais simultâneos tanto com Roma quanto com o Báltico, algo incomum para um único sítio do interior europeu nesse período. O assentamento funcionava, na prática, como um nó estratégico entre duas das principais rotas comerciais da Antiguidade.
O que é a cultura La Tène e qual é sua importância para os celtas?
Todos os achados pertencem à cultura La Tène, segunda grande fase da Idade do Ferro celta na Europa Central, que se desenvolveu aproximadamente entre os séculos V e I a.C. Esse período é caracterizado pela sofisticação metalúrgica, pela produção de joias e objetos decorativos de alta qualidade e pela formação de redes comerciais de alcance continental.
O nível de organização revelado pelo assentamento de Hradec Králové é compatível com o que os estudiosos chamam de oppida, grandes centros urbanos celtas que funcionavam como polos administrativos, religiosos e econômicos. A presença de moldes de cunhagem e de estruturas de produção diversificadas reforça essa interpretação.
Como o sítio foi protegido e quando os achados chegaram ao público?
Conforme relatado pelo Earth.com, tamanha foi a relevância do sítio que o local precisou ser vigiado pela polícia tcheca para impedir saques durante as escavações. A combinação de ouro, prata e âmbar em um único local, em plena zona rural, representava um risco real de pilhagem por caçadores de tesouros clandestinos.
Em novembro de 2025, o Museu da Boêmia Oriental inaugurou a exposição “Cidade esquecida sob a rodovia”, apresentando os principais achados ao público antes de os objetos entrarem na fase de estudo aprofundado. Os arqueólogos envolvidos descrevem o sítio como uma descoberta que muda fundamentalmente a compreensão da pré-história regional e refuta concepções vigentes sobre a sociedade da época. Os próximos passos incluem:
- Análise laboratorial aprofundada dos 22.000 artefatos catalogados, com datação de precisão e estudo de composição dos metais.
- Mapeamento completo das estruturas arquitetônicas identificadas no assentamento.
- Estudo das rotas comerciais conectadas ao sítio, com foco na relação entre o âmbar báltico e os contatos com Roma.
- Publicações científicas previstas ao longo de 2026, com participação das equipes da Universidade de Hradec Králové.

A cidade que a rodovia quase apagou do mapa para sempre
O paradoxo é irresistível: foi a intenção de construir uma rodovia moderna que salvou uma cidade antiga de permanecer oculta por mais séculos. Sem a obrigatoriedade legal das escavações de salvamento, o assentamento dos celtas de Hradec Králové teria sido soterrado sob o asfalto sem deixar rastro.
O que os operários encontraram debaixo da terra não é apenas ouro ou joias. É a prova de que a Europa Central do século II a.C. era muito mais conectada, sofisticada e urbanizada do que a história oficial costuma reconhecer.









