Você já imaginou abrir uma estrada no próprio terreno e encontrar a entrada de um mundo que existiu há milênios? Foi o que aconteceu com Simone Cattaneo Betti, moradora de Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, quando uma obra simples revelou um túnel pré-histórico escavado por criaturas extintas de até 6 toneladas.
Como o túnel pré-histórico foi encontrado durante uma obra em Lauro Müller?
Durante o alargamento de uma estrada em propriedade particular, Simone se deparou com a entrada de uma galeria subterrânea de aparência incomum. A região carrega uma lenda local que associa estruturas semelhantes a riquezas enterradas por antigos moradores, e a primeira suspeita foi exatamente essa.
A decisão de acionar especialistas antes de qualquer intervenção foi o que transformou a curiosidade em descoberta científica. O vídeo postado por Simone nas redes sociais ultrapassou 3 milhões de visualizações, mostrando que o impacto da descoberta foi muito além do meio acadêmico.

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O que é uma paleotoca e por que esse túnel pré-histórico tem valor científico?
Paleotocas são galerias subterrâneas escavadas pela megafauna pré-histórica do Brasil, principalmente por tatus-gigantes e preguiças-gigantes que viveram durante o Período Pleistoceno e se extinguiram há cerca de 10 a 12 mil anos. Essas estruturas serviam como abrigo, proteção contra predadores e regulação térmica.
O que torna o túnel pré-histórico cientificamente valioso é a ausência de qualquer intervenção humana em sua formação. Mesmo sem fósseis associados, as paredes internas conservam marcas de garras que funcionam como assinatura direta dos animais escavadores, um registro físico do comportamento de espécies extintas.

Quais animais escavaram essa galeria e qual era o seu tamanho?
Segundo o doutorando em geografia Arthur Filipe Bechtel, os animais responsáveis por esse tipo de estrutura tinham proporções difíceis de imaginar. Os principais escavadores identificados pela ciência eram dois:
- Tatu-gigante (Glyptodon e Pampatherium): podiam atingir até 500 quilos e escavavam túneis proporcionais ao seu porte, usados principalmente como abrigo e proteção contra predadores
- Preguiça-gigante (Eremotherium e Megatherium): chegavam a 6 toneladas e produziam as maiores galerias, com mais de 2 metros de altura e largura suficiente para uma pessoa adulta caminhar curvada no interior

O que o geólogo confirmou sobre o túnel pré-histórico de Santa Catarina?
A confirmação científica foi realizada pelo geólogo Gustavo Simão, que apontou três fatores determinantes: o tipo de relevo da região, o solo arenítico e o formato característico da galeria. Para o pesquisador, a descoberta amplia o mapa de distribuição geográfica desses animais extintos.
“O surgimento dessa estrutura mostra que esses animais também habitavam e escavavam materiais diferentes daqueles já conhecidos, e geograficamente ocupavam outros espaços além dos já catalogados”, afirmou Simão. Cada nova paleotoca confirmada contribui para reconstruir o modo de vida da megafauna brasileira com mais precisão.
A reportagem do canal Balanço Geral Criciúma, com mais de 26,2 mil inscritos, foi ao local da descoberta e mostrou detalhes do túnel com declarações dos especialistas que confirmaram a estrutura como patrimônio científico de Santa Catarina:
Por que o Sul do Brasil concentra a maior quantidade de paleotocas do mundo?
Nos últimos 15 anos, mais de 1.500 paleotocas foram catalogadas no Sul do Brasil, tornando a região reconhecida internacionalmente por esse patrimônio geológico. Uma proposta de classificação sistemática publicada em 2024 na Revista Brasileira de Geomorfologia (UFPE) mapeou estruturas em uma área de 1.900 km², abrangendo sete municípios em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
O diretor executivo do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, Gislael Floriano, destacou que, em alguns casos, essas estruturas chegaram a ser utilizadas por povos indígenas como abrigo após a extinção da megafauna. “São estruturas que, num determinado período da história, também tiveram ocupação humana”, afirmou.
O que acontece agora com o túnel pré-histórico encontrado em Lauro Müller?
A área onde o túnel foi encontrado está isolada e protegida por lei federal. Novos estudos aprofundados estão previstos, incluindo:
- Mapeamento 3D da galeria para registro preciso das dimensões e formato interno
- Busca por pelos antigos preservados nas paredes, que poderiam identificar com precisão a espécie escavadora
- Integração ao acervo do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, que já reúne cerca de 30 paleotocas registradas nos municípios de Morro Grande, Jacinto Machado e Timbé do Sul

Uma galeria de 10 mil anos que amplia o que sabemos sobre a megafauna catarinense
O túnel pré-histórico de Lauro Müller não é apenas uma curiosidade geológica. É um fragmento físico de um mundo que existiu há milênios, escavado por criaturas que pesavam toneladas e desapareceram antes do surgimento das primeiras civilizações, preservado intacto em solo arenítico por todo esse tempo.
O que começou como uma obra de alargamento de estrada se transformou em uma janela aberta para o Pleistoceno brasileiro, lembrando que o passado mais profundo do país ainda está literalmente por baixo dos nossos pés.







