Quem acompanha a conservação de espécies migratórias sabe que o desaparecimento de uma ave de sua rota histórica raramente é coincidência. O ganso-de-peito-vermelho sumiu completamente da Bulgária por quase meia década, e o seu retorno em janeiro reacendeu tanto a esperança dos ornitólogos quanto o alerta sobre as mudanças climáticas no Leste Europeu.
Onde e quando a ave rara foi avistada novamente na Bulgária?
Entre os dias 15 e 18 de janeiro, a Sociedade Búlgara para a Proteção das Aves (BSPB) registrou um marco histórico durante a sua contagem oficial de inverno. Os pesquisadores documentaram um rebanho inicial de 140 exemplares do ganso-de-peito-vermelho na área do Lago Durankulak.
Nos dias seguintes, o número saltou para 230 animais identificados, a primeira confirmação em aproximadamente cinco anos do pouso seguro da espécie no país.

Leia também: O maior dorminhoco da natureza dorme durante 8 meses seguidos
Por que essa ave sumiu da Bulgária por tanto tempo?
Até 2017, a região costeira búlgara recebia milhares de exemplares durante o período regular de migração. O aumento das temperaturas globais alterou drasticamente a rota de voo da espécie, forçando as aves a permanecerem no extremo norte para fugir do calor atípico.
Nesse período de ausência, os bandos buscaram abrigo na Romênia, na Ucrânia e no sul da Rússia. O retorno em 2026 ocorreu por causa de uma massa de ar gelada que atingiu os Bálcãs, empurrando as aves de volta aos seus refúgios históricos do sul.
O que é o ganso-de-peito-vermelho e por que ele é tão raro?
O ganso-de-peito-vermelho é uma das aves migratórias mais visualmente marcantes do mundo, com plumagem que combina vermelho intenso, branco e preto. Ele depende totalmente das margens de lagos e reservatórios para descansar e se alimentar durante as longas rotas migratórias da Sibéria até o sul da Europa.
Para entender a jornada arriscada dessa ave e as ameaças que enfrenta, o canal Os Pássaros, com mais de 16 mil inscritos, produziu um conteúdo detalhado sobre como as plantações agrícolas e as atividades petrolíferas comprometem a sobrevivência da espécie:
Quais outras aves foram registradas no censo do Mar Negro?
Além do ganso-de-peito-vermelho, a expedição registrou um fluxo expressivo de outras espécies ao longo da costa do Mar Negro. O censo regional bateu recorde ao contabilizar 58.000 espécimes na área de Varna-Dobrich, impulsionado pelo frio extremo. As aves mais abundantes registradas foram:
- Pato-real: dominou a superfície dos lagos doces e reservatórios da região
- Galinha-d’água: apareceu em grande número nas margens e pântanos do litoral
- Cormorão-grande: registrado realizando mergulhos intensos nas águas mais profundas
O levantamento nacional totalizou 330.000 aves de 99 espécies diferentes em todo o território búlgaro, um dos maiores registros da história do monitoramento ornitológico do país.
Quais ameaças ainda colocam essa ave em risco no Leste Europeu?
Embora o retorno seja motivo de celebração, os habitats que garantem a sobrevivência do ganso-de-peito-vermelho seguem sob pressão. O assoreamento progressivo e a queda nos níveis de oxigênio comprometeram seriamente as reservas de Shabla, e muitos microreservatórios da área secaram por completo nos últimos anos.
A vegetação agressiva que avança sobre esses espelhos d’água destrói pontos vitais de pouso. Sem intervenção direta, os habitats de descanso do Leste Europeu continuarão encolhendo a cada estação.

Como o monitoramento das aves protege o futuro da espécie?
A operação de janeiro mobilizou dezenas de voluntários treinados da fronteira romena até o Cabo Emine. Esse trabalho de campo não apenas validou o retorno do rebanho, mas escancarou a urgência de políticas para frear a seca severa que destrói a hidrografia dos Bálcãs.
Garantir o fluxo natural das lagoas costeiras é o caminho para que essas aves continuem visitando a Europa. A proteção das rotas de voo exige o banimento da caça indiscriminada e o compromisso real dos governos com os habitats de descanso da região.
O retorno da ave é um sinal, mas o perigo ainda não passou
O reaparecimento do ganso-de-peito-vermelho no Lago Durankulak é uma vitória pontual dentro de um cenário ainda frágil. A espécie voltou empurrada pelo frio, não porque as condições ambientais melhoraram estruturalmente.
Enquanto os habitats continuarem secando e as rotas migratórias seguirem sendo afetadas pelas mudanças climáticas, o retorno dessa ave rara permanecerá dependente do acaso. A conservação real exige mais do que contagens anuais: exige políticas permanentes de proteção ambiental.









