Se você acha que a medicina científica começou com os gregos, o Papiro Edwin Smith tem uma surpresa guardada há mais de três milênios. Comprado em 20 de janeiro de 1862 em um mercado na cidade de Luxor, no Egito, pelo colecionador americano Edwin Smith, o papiro mais antigo da história da cirurgia descreve técnicas que a medicina ocidental só alcançaria com Hipócrates, mais de mil anos depois.
O que é o Papiro Edwin Smith e quando ele foi escrito?
A cópia que chegou até nós foi redigida em escrita hierática por volta de 1550 a.C., mas o egiptólogo James Henry Breasted, do Instituto Oriental de Chicago, demonstrou que ela é a transcrição de um texto original composto provavelmente entre 3000 e 2500 a.C., na era do Antigo Império Egípcio.
O documento tem 4,68 metros de comprimento e descreve 48 casos clínicos em formato rigorosamente sistemático, com título, exame físico, diagnóstico e tratamento. O papiro para abruptamente no meio de uma frase no Caso 48, indicando que a cópia sobrevivente é incompleta. Breasted publicou a primeira tradução completa em 1930, pela Universidade de Chicago.

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Quais foram as primeiras descobertas anatômicas descritas nesse documento?
O que torna o documento singular é o que ele descreve sobre o sistema nervoso central. Segundo pesquisa publicada no PubMed Central, o papiro contém as primeiras descrições escritas de estruturas anatômicas que a ciência ocidental só formalizaria séculos depois:
- Primeira menção escrita da palavra “cérebro” em qualquer idioma
- Primeira descrição das meninges, membranas que envolvem o cérebro
- Primeira descrição do líquido cefalorraquidiano
- Primeira descrição das pulsações intracranianas e das suturas cranianas
- Descrição de que lesões cerebrais causam paralisia contralateral, conceito que a neurologia só estabeleceria formalmente séculos depois
O papiro também documenta o coração como centro do sistema vascular, com vasos sanguíneos conectados a ele, além do fígado, baço, rins, ureteres e bexiga.

Quais técnicas cirúrgicas descritas há 3.500 anos ainda são usadas hoje?
Conforme a Universidade de Washington, entre os procedimentos documentados estão o fechamento de feridas com suturas, técnica idêntica à cirurgia moderna, e a prevenção de infecções com mel e pão mofado, que contém fungos do gênero Penicillium, precursor empírico do antibiótico.
Os demais tratamentos incluem contenção de hemorragias com carne crua, imobilização de lesões cranianas e da coluna vertebral e redução de fraturas e luxações. O caso mais citado é o Caso 25: o tratamento de uma luxação mandibular descrito no papiro é idêntico ao procedimento registrado por Apolônio de Chipre no século I a.C., sugerindo que a medicina grega preservou conhecimentos egípcios sem citar a origem.
Por que o papiro é considerado o primeiro documento científico da história?
A medicina egípcia, em geral, misturava diagnósticos com invocações a deuses e fórmulas mágicas. O Papiro Ebers, por exemplo, combina prescrições válidas com encantamentos religiosos. Segundo a Egyptian Orthopaedic Association, o Edwin Smith baseia-se quase exclusivamente em observação clínica, exame físico e raciocínio empírico.
Os oito encantamentos mágicos que aparecem no verso foram identificados por Breasted como adições posteriores de outro escriba, um recurso de último caso quando os tratamentos racionais falharam. Essa separação entre ciência e magia, feita há mais de 3.500 anos, é o que torna o documento único em toda a história da medicina antiga.
Quem teria escrito o papiro mais antigo da cirurgia?
Vários indícios apontam para Imhotep, arquiteto da pirâmide de degraus de Djoser, médico lendário do Antigo Império e o único personagem não-real da história egípcia a ser deificado após a morte. Contudo, nenhuma prova direta liga seu nome ao papiro, e a hipótese permanece especulativa.
O que os pesquisadores concordam é que o texto reflete a obra de um cirurgião de raciocínio excepcionalmente rigoroso, provavelmente baseado em décadas de observação de feridas de guerra. O canal BBC, com mais de 918 mil inscritos, dedicou um trecho do documentário Discoveries That Changed What We Know About Human History Forever ao papiro e aos objetos que reescreveram a trajetória humana:
Onde o papiro está guardado hoje e como ele chegou até lá?
Após a morte de Edwin Smith em 1906, sua filha Leonora doou o papiro à New York Historical Society. Em 1948, o documento foi transferido para a New York Academy of Medicine, em Nova York, onde permanece conservado. Conforme a Wikipedia, ele é considerado o mais importante documento da história da medicina antiga.
Três mil e quinhentos anos separam o escriba que copiou esse texto do médico que hoje fecha uma ferida com sutura. O papiro de Luxor é a prova de que parte do que chamamos de ciência moderna foi descoberta às margens do Nilo, muito antes de qualquer escola grega existir.








