Sabia que o passado climático da Terra está gravado em camadas de sedimento enterradas sob centenas de metros de gelo antártico? Uma equipe internacional de cientistas perfurou esse gelo com água quente pressurizada e extraiu um registro de 23 milhões de anos que pode mudar tudo o que se sabe sobre o futuro do nível dos oceanos.
Como o gelo antártico foi perfurado a 523 metros de profundidade?
A perfuração aconteceu na Antártida Ocidental, em uma área chamada Crary Ice Rise, localizada a mais de 700 quilômetros da Base Scott. A técnica utilizada foi a perfuração hidrotérmica: água aquecida é injetada sob alta pressão para derreter o gelo e criar um canal vertical por onde desce o sistema de coleta de material.
O processo abriu um túnel de 523 metros no gelo, chegando ao fundo onde começa a rocha e o sedimento. A partir dali, os cientistas extraíram camada por camada o testemunho geológico, em um trabalho que exigiu precisão extrema para não comprometer a integridade das amostras.

O que é um testemunho geológico e por que ele funciona como um arquivo do tempo?
Um testemunho geológico é uma amostra cilíndrica de rocha e sedimento extraída do fundo de um local específico. Ele funciona como uma cronologia natural: as camadas mais superficiais são mais recentes e as mais profundas são mais antigas, com cada estrato registrando as condições climáticas e ambientais do momento em que se formou.
No caso do gelo antártico da Crary Ice Rise, os pesquisadores encontraram variações marcantes entre as camadas. Alguns estratos continham pedregulhos grossos e rochas grandes, sinal de que a zona estava coberta por gelo compacto. Outros mostraram algo completamente diferente:
- Lama fina depositada em ambiente aquático calmo, indicando ausência de cobertura glacial.
- Fragmentos de conchas e restos de organismos marinhos que só existem em águas abertas.
- Restos de seres dependentes de luz solar, o que confirma que a superfície estava exposta, não coberta de gelo.
Isso significa que, em algum momento nos últimos 23 milhões de anos, aquela parte da Antártida Ocidental não estava coberta de gelo, mas sim de água aberta, indicando que o clima era significativamente mais quente do que hoje.
Por que o derretimento do gelo antártico ocidental pode elevar o mar em até 5 metros?
A motivação central do projeto vai muito além da curiosidade científica. A Calota Glacial da Antártida Ocidental contém gelo suficiente para, se derretesse completamente, elevar o nível médio dos oceanos em 4 a 5 metros em escala global. O problema é que os cientistas ainda não sabem com precisão a que velocidade esse processo poderia ocorrer em diferentes cenários de aquecimento.
O testemunho de 228 metros oferece, pela primeira vez, um registro direto de como aquela região se comportou em períodos passados, quando o clima era mais quente. Isso pode calibrar os modelos de previsão climática e tornar as estimativas muito mais precisas do que as disponíveis até hoje.

O projeto SWAIS2C reúne cientistas de dez países para analisar cada estrato
A pesquisa faz parte do projeto internacional SWAIS2C, que mobilizou especialistas de dez países para analisar o material coletado. Cada camada do testemunho será estudada para determinar com precisão quando ocorreram as principais mudanças climáticas do passado e qual foi a velocidade dessas transições.
Para entender a dimensão da descoberta, o canal Olhar Digital, com quase 949 mil inscritos, detalhou como essa perfuração recorde funciona e o que os dados do projeto SWAIS2C podem revelar sobre o comportamento futuro da Antártida diante do aquecimento global:
Os dados coletados serão incorporados aos modelos climáticos globais e poderão ajudar cidades costeiras de todo o mundo a planejar infraestruturas de proteção contra inundações, sistemas portuários e políticas de uso do solo para as próximas décadas.
Uma lacuna geológica preenchida no interior do continente antártico
Até agora, a maior parte dos dados geológicos sobre a Antártida provinha de regiões costeiras ou do oceano ao redor do continente. O interior permanecia um mistério para a ciência, justamente porque o acesso é logisticamente muito mais difícil e os métodos de perfuração convencionais não funcionam bem sob camadas tão espessas de gelo.
Este testemunho preenche uma lacuna espacial importante e entrega aos pesquisadores uma visão muito mais completa do passado climático do interior antártico. As informações obtidas respondem a perguntas que a ciência climática carregava sem resposta há décadas, como:
- Em que condições a Antártida Ocidental perdeu sua cobertura de gelo no passado?
- Qual foi a velocidade dessas transições climáticas em escala geológica?
- Qual era o nível do mar naqueles períodos mais quentes?
O gelo antártico como termômetro do que está por vir
O que torna esse testemunho singular não é só o tamanho ou a profundidade, mas o que ele representa: um registro físico e contínuo de como o planeta reagiu a períodos de calor intenso ao longo de milhões de anos. A Antártida já perdeu sua cobertura de gelo antes. O que os cientistas precisam entender agora é com que rapidez isso pode acontecer novamente.
À medida que os resultados do SWAIS2C forem publicados, eles vão moldar diretamente as projeções sobre o aumento do nível do mar usadas por governos, urbanistas e engenheiros do mundo inteiro. O futuro das cidades costeiras pode depender, em parte, do que está gravado nessas 228 camadas de sedimento retiradas de baixo do gelo antártico.







