Há 51.000 anos, uma criança Neandertal foi enterrada numa caverna no norte de Israel. O fóssil que ela deixou acabou de revelar algo que a ciência não esperava: nossos antepassados cresciam o dobro mais rápido que nós nos primeiros meses de vida, com um ritmo de desenvolvimento físico sem paralelo entre os humanos modernos.
Por que o fóssil de Amud 7 contradiz o que sabíamos sobre os Neandertais?
O espécime foi encontrado na Caverna de Amud, no norte de Israel, e recebeu o nome de Amud 7. A pesquisa foi liderada pela Prof.ᵃ Ella Been, do Ono Academic College, e publicada na revista Current Biology.
Segundo o El País, a contradição central estava no confronto entre dois indicadores de idade do mesmo espécime: a dentição apontava para uma criança de 6 meses pelos padrões humanos modernos, enquanto o desenvolvimento esquelético correspondia a uma criança de 12 a 14 meses. Uma diferença de quase oito meses entre os dois marcadores biológicos.

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O que os 111 fragmentos do fóssil revelaram sobre o desenvolvimento Neandertal?
A equipe analisou 111 peças de Amud 7 e construiu um modelo digital tridimensional do espécime para estimar altura, peso e volume craniano. O resultado foi um volume de 879 cm³, compatível com uma criança moderna de mais de um ano.
Os dois marcadores biológicos que geraram o paradoxo foram:
- Idade dental: apenas dois incisivos inferiores haviam erupcionado, equivalente a 6 meses em padrões humanos modernos
- Desenvolvimento esqueletal: tamanho dos membros e volume craniano de 879 cm³ correspondiam a uma criança moderna de 12 a 14 meses
Por que os Neandertais cresciam mais rápido que os humanos modernos?
Os pesquisadores apontam que as características físicas identificadas no fóssil, como a estrutura mais robusta e a morfologia distinta nos ombros e no crânio, já eram visíveis desde os primeiros meses de vida. Isso indica que são traços biologicamente programados e não resultado do ambiente ou do estilo de vida.
Conforme o Phys.org, uma hipótese envolve a regulação gênica: mesmo que as diferenças genéticas entre Neandertais e Homo sapiens sejam pequenas, o modo como os genes são ativados durante o desenvolvimento embrionário e infantil pode determinar ritmos de crescimento completamente distintos.
O fóssil de Amud 7 é um caso isolado entre os Neandertais?
Quando a equipe comparou Amud 7 com outros dois espécimes neandertais, encontrou o mesmo padrão de desenvolvimento acelerado. Os registros analisados foram:
- Dederiyeh 1, da Síria, com cerca de 2 anos de idade estimada
- Um espécime de aproximadamente 3 anos encontrado na França
Segundo o Earth.com, os três espécimes confirmam que o crescimento corporal superava o desenvolvimento dentário, especialmente entre 1 e 6 anos. A partir da infância mais tardia, os ritmos voltavam a se aproximar dos humanos modernos.
Para entender como a ciência reconstitui a vida dos Neandertais a partir de descobertas como essa, o canal ABC Terra, com mais de 616 mil inscritos, produziu um documentário que explora os aspectos fundamentais dessa civilização a partir da paleontologia e da história natural:
Eles cresciam mais rápido ou nós crescemos mais devagar?
O antropólogo Daniel García resume a questão que permanece em aberto: “Há indícios de desenvolvimento mais rápido, mas a pergunta permanece: eles cresciam mais rápido ou nós crescemos mais devagar?” A descoberta de Amud 7 não fecha o debate, ela o aprofunda.
O estudo publicado no PubMed reforça que compreender o ritmo de desenvolvimento dos Neandertais é também compreender o que nos torna humanos. Cada fóssil encontrado é, ao mesmo tempo, um retrato do passado e uma pergunta sobre quem somos hoje.







