Você já ouviu falar em resiliência? Quem popularizou esse conceito foi Boris Cyrulnik, um psiquiatra francês que sobreviveu ao Holocausto. Ele perdeu os pais em Auschwitz aos 6 anos, assumiu uma identidade falsa e, décadas depois, virou um dos principais especialistas do mundo em superação de traumas.
Quem é Boris Cyrulnik e por que sua história importa?
Boris Cyrulnik nasceu em Bordeaux, em 26 de julho de 1937, em uma família judaica. É médico, etologista, neurologista e psiquiatra, com atuação reconhecida mundialmente. Com 88 anos em 2026, segue ativo como pesquisador, conferencista e autor de dezenas de livros que já venderam mais de 2,5 milhões de cópias.
Sua trajetória intelectual começa onde começa toda a teoria da resiliência: na experiência pessoal do trauma. Durante a Segunda Guerra Mundial, aos 6 anos, foi preso pela polícia francesa a serviço da Gestapo em uma operação em Bordeaux. Conseguiu escapar, assumiu uma identidade falsa e passou a se chamar Jean Laborde, vivendo como um menino camponês até o fim da guerra. Seus pais foram presos e assassinados em Auschwitz.

Leia também: Quem cresceu nos anos 80 foi treinado para esconder as emoções, e a ciência mostra as marcas que isso deixou
Como Boris Cyrulnik transformou o trauma pessoal em teoria científica?
Durante décadas, Cyrulnik guardou silêncio sobre o que vivera. Foi apenas quando seu nome apareceu nos processos do julgamento de Maurice Papon, o prefeito de polícia responsável pela deportação dos judeus de Bordeaux, que ele começou a falar publicamente. Em entrevista à revista CuerpoMente, declarou: “Com seis anos e meio, fui preso pela polícia francesa. Consegui fugir. Apenas 40 anos depois, quando meu nome apareceu no processo de Papon, comecei a falar sobre isso.”
Esse percurso pessoal alimentou décadas de pesquisa sobre como crianças e adultos se reconstroem após experiências extremas. Seus estudos com crianças traumatizadas demonstraram, por meio de imagens de ressonância magnética, que o cérebro é maleável: uma criança que sofreu trauma e apresenta alterações cerebrais pode, se receber amor e cuidado, recuperar a estrutura cerebral em cerca de um ano.
O que Boris Cyrulnik diz sobre corpo, memória e emoções depois dos 60 anos?
Na entrevista à CuerpoMente que originou a frase do título, Cyrulnik afirma que, a partir dos 60 anos, o corpo, a memória e as emoções “passam a falar juntos, sem hesitação”. Deixam de ser compartimentos separados e tornam-se uma narrativa integrada da experiência de vida. É o momento em que as pessoas param de se iludir sobre quem são, sobre o que viveram e sobre o que ainda desejam.
Esse processo de integração é, segundo ele, ao mesmo tempo um ganho e uma exigência. Quem chega aos 60 com traumas não elaborados se depara com eles de forma mais direta e inevitável. Mas quem cultivou vínculos saudáveis e construiu narrativas de sentido sobre suas dores encontra nessa fase uma espécie de clareza serena, não ausência de sofrimento, mas uma relação diferente com ele.
A TV Senado, com mais de 1,84 milhão de inscritos, registrou uma palestra de Cyrulnik no Senado Federal brasileiro em que ele detalha a importância do ambiente afetivo no desenvolvimento neurológico da criança e o papel dos vínculos na construção da resiliência:
O que é resiliência segundo Boris Cyrulnik?
A palavra “resiliência” vem da física e descreve a capacidade de um material de retornar à sua forma original após uma deformação. Cyrulnik a transpôs para o campo humano: resiliência é a capacidade de se reconstruir após um trauma, não apagando a dor, mas transformando-a. Para ele, “resiliência não é resistência automática. É reconstrução consciente. É a coragem cotidiana de seguir vivendo sem negar o que foi vivido.”
Um ponto central de sua teoria é que a resiliência nunca é individual. O que permite a reconstrução é sempre a qualidade dos vínculos afetivos: com pessoas, com grupos, com narrativas que dão sentido à experiência dolorosa. Seus estudos apontam os seguintes fatores como essenciais para o processo resiliente:
- Vínculos afetivos seguros: a presença de ao menos uma pessoa de referência que ofereça acolhimento real.
- Narrativa de sentido: a capacidade de transformar a experiência dolorosa em uma história que possa ser contada e elaborada.
- Pertencimento a um grupo: comunidade, cultura e convivência como fatores protetores contra o isolamento.
- Plasticidade cerebral: o cérebro, especialmente na infância, responde ao cuidado e pode reorganizar estruturas afetadas pelo trauma.
Qual é a obra e o legado de Boris no mundo?
Cyrulnik é professor emérito e decano da Universidade de Toulon, onde dirige a Clínica do Apego. É também presidente do Observatório Internacional da Resiliência e assessor do presidente francês Emmanuel Macron em políticas de educação na primeira infância, especialmente na implantação da escolarização obrigatória a partir dos 3 anos de idade na França.
Sua obra mais conhecida no Brasil é Os Patinhos Feios, um estudo sobre crianças que, apesar de infâncias extremamente adversas, conseguiram construir vidas plenas. O título é uma homenagem ao conto de Andersen: como o patinho que não sabia ser cisne, muitas crianças traumatizadas carregam um potencial que só se desenvolve quando o ambiente ao redor para de tratá-las como defeituosas.
Cyrulnik prova com a própria vida que a reconstrução é possível
Aos 88 anos, Boris Cyrulnik continua publicando, pesquisando e dando conferências ao redor do mundo. Sua trajetória pessoal e científica é, em si mesma, a demonstração mais eloquente do que sua teoria defende: que o ser humano tem uma capacidade extraordinária de se reconstruir quando encontra, ao redor, as condições afetivas e sociais necessárias.
O menino que sobreviveu à Gestapo escondendo-se em banheiros tornou-se o cientista que mostrou ao mundo que trauma não é destino. E que a resiliência, como ele mesmo diz, nunca é uma conquista solitária.









