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Início Comportamento

Boris Cyrulnik, psiquiatra: “Aos 60 anos, o corpo, a memória e as emoções falam juntos sem hesitação”

Laila Por Laila
28 abril 2026 19:15
Em Comportamento
Poucas pessoas no mundo têm autoridade para falar sobre trauma e reconstrução como Boris Cyrulnik

Poucas pessoas no mundo têm autoridade para falar sobre trauma e reconstrução como Boris Cyrulnik

Você já ouviu falar em resiliência? Quem popularizou esse conceito foi Boris Cyrulnik, um psiquiatra francês que sobreviveu ao Holocausto. Ele perdeu os pais em Auschwitz aos 6 anos, assumiu uma identidade falsa e, décadas depois, virou um dos principais especialistas do mundo em superação de traumas.

Quem é Boris Cyrulnik e por que sua história importa?

Boris Cyrulnik nasceu em Bordeaux, em 26 de julho de 1937, em uma família judaica. É médico, etologista, neurologista e psiquiatra, com atuação reconhecida mundialmente. Com 88 anos em 2026, segue ativo como pesquisador, conferencista e autor de dezenas de livros que já venderam mais de 2,5 milhões de cópias.

Sua trajetória intelectual começa onde começa toda a teoria da resiliência: na experiência pessoal do trauma. Durante a Segunda Guerra Mundial, aos 6 anos, foi preso pela polícia francesa a serviço da Gestapo em uma operação em Bordeaux. Conseguiu escapar, assumiu uma identidade falsa e passou a se chamar Jean Laborde, vivendo como um menino camponês até o fim da guerra. Seus pais foram presos e assassinados em Auschwitz.

Sua trajetória intelectual começa onde começa toda a teoria da resiliência: na experiência pessoal do trauma

Leia também: Quem cresceu nos anos 80 foi treinado para esconder as emoções, e a ciência mostra as marcas que isso deixou

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Como Boris Cyrulnik transformou o trauma pessoal em teoria científica?

Durante décadas, Cyrulnik guardou silêncio sobre o que vivera. Foi apenas quando seu nome apareceu nos processos do julgamento de Maurice Papon, o prefeito de polícia responsável pela deportação dos judeus de Bordeaux, que ele começou a falar publicamente. Em entrevista à revista CuerpoMente, declarou: “Com seis anos e meio, fui preso pela polícia francesa. Consegui fugir. Apenas 40 anos depois, quando meu nome apareceu no processo de Papon, comecei a falar sobre isso.”

Esse percurso pessoal alimentou décadas de pesquisa sobre como crianças e adultos se reconstroem após experiências extremas. Seus estudos com crianças traumatizadas demonstraram, por meio de imagens de ressonância magnética, que o cérebro é maleável: uma criança que sofreu trauma e apresenta alterações cerebrais pode, se receber amor e cuidado, recuperar a estrutura cerebral em cerca de um ano.

O que Boris Cyrulnik diz sobre corpo, memória e emoções depois dos 60 anos?

Na entrevista à CuerpoMente que originou a frase do título, Cyrulnik afirma que, a partir dos 60 anos, o corpo, a memória e as emoções “passam a falar juntos, sem hesitação”. Deixam de ser compartimentos separados e tornam-se uma narrativa integrada da experiência de vida. É o momento em que as pessoas param de se iludir sobre quem são, sobre o que viveram e sobre o que ainda desejam.

Esse processo de integração é, segundo ele, ao mesmo tempo um ganho e uma exigência. Quem chega aos 60 com traumas não elaborados se depara com eles de forma mais direta e inevitável. Mas quem cultivou vínculos saudáveis e construiu narrativas de sentido sobre suas dores encontra nessa fase uma espécie de clareza serena, não ausência de sofrimento, mas uma relação diferente com ele.

A TV Senado, com mais de 1,84 milhão de inscritos, registrou uma palestra de Cyrulnik no Senado Federal brasileiro em que ele detalha a importância do ambiente afetivo no desenvolvimento neurológico da criança e o papel dos vínculos na construção da resiliência:

O que é resiliência segundo Boris Cyrulnik?

A palavra “resiliência” vem da física e descreve a capacidade de um material de retornar à sua forma original após uma deformação. Cyrulnik a transpôs para o campo humano: resiliência é a capacidade de se reconstruir após um trauma, não apagando a dor, mas transformando-a. Para ele, “resiliência não é resistência automática. É reconstrução consciente. É a coragem cotidiana de seguir vivendo sem negar o que foi vivido.”

Um ponto central de sua teoria é que a resiliência nunca é individual. O que permite a reconstrução é sempre a qualidade dos vínculos afetivos: com pessoas, com grupos, com narrativas que dão sentido à experiência dolorosa. Seus estudos apontam os seguintes fatores como essenciais para o processo resiliente:

  • Vínculos afetivos seguros: a presença de ao menos uma pessoa de referência que ofereça acolhimento real.
  • Narrativa de sentido: a capacidade de transformar a experiência dolorosa em uma história que possa ser contada e elaborada.
  • Pertencimento a um grupo: comunidade, cultura e convivência como fatores protetores contra o isolamento.
  • Plasticidade cerebral: o cérebro, especialmente na infância, responde ao cuidado e pode reorganizar estruturas afetadas pelo trauma.

Qual é a obra e o legado de Boris no mundo?

Cyrulnik é professor emérito e decano da Universidade de Toulon, onde dirige a Clínica do Apego. É também presidente do Observatório Internacional da Resiliência e assessor do presidente francês Emmanuel Macron em políticas de educação na primeira infância, especialmente na implantação da escolarização obrigatória a partir dos 3 anos de idade na França.

Sua obra mais conhecida no Brasil é Os Patinhos Feios, um estudo sobre crianças que, apesar de infâncias extremamente adversas, conseguiram construir vidas plenas. O título é uma homenagem ao conto de Andersen: como o patinho que não sabia ser cisne, muitas crianças traumatizadas carregam um potencial que só se desenvolve quando o ambiente ao redor para de tratá-las como defeituosas.

Cyrulnik prova com a própria vida que a reconstrução é possível

Aos 88 anos, Boris Cyrulnik continua publicando, pesquisando e dando conferências ao redor do mundo. Sua trajetória pessoal e científica é, em si mesma, a demonstração mais eloquente do que sua teoria defende: que o ser humano tem uma capacidade extraordinária de se reconstruir quando encontra, ao redor, as condições afetivas e sociais necessárias.

O menino que sobreviveu à Gestapo escondendo-se em banheiros tornou-se o cientista que mostrou ao mundo que trauma não é destino. E que a resiliência, como ele mesmo diz, nunca é uma conquista solitária.

Tags: comportamentoinfânciapsicologia

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