Em meio aos bosques temperados do sul do Chile, um fungo de grande porte e forte presença cultural passou a ocupar lugar central nos debates sobre preservação ambiental: o loyo, conhecido cientificamente como Butyriboletus loyo. Essa espécie, que pode atingir vários quilos de peso, é tradicionalmente apreciada na culinária local e integra práticas de coleta transmitidas entre gerações, especialmente em comunidades mapuche. A criação de um plano específico para sua proteção marca um momento inédito na conservação de fungos no país e ajuda a aproximar ciência, conservação e saberes tradicionais.
Por que o plano de conservação tornou o Butyriboletus loyo uma espécie prioritária?
A palavra “loyo” aparece com frequência em relatórios de conservação porque o Butyriboletus loyo passou a ser classificado em estado de perigo de extinção. Estudos recentes indicam que a combinação de perda de habitat, manejo inadequado e mudanças no uso do solo reduziu consideravelmente sua presença em áreas onde antes era comum.
Diante desse cenário, foi estruturado um plano de conservação voltado exclusivamente a esse fungo, reunindo cientistas, organizações da sociedade civil, coletoras tradicionais e instituições internacionais de apoio técnico e financeiro. O objetivo central é definir diretrizes para o manejo sustentável do loyo, mantendo a coleta sem comprometer a regeneração natural da espécie.
O que o torna diferente de outros cogumelos comestíveis?
Uma das principais características do Butyriboletus loyo é sua condição de fungo micorrízico, que estabelece associação estreita com as raízes de árvores nativas. O fungo auxilia na absorção de nutrientes do solo e, em troca, recebe compostos produzidos pela fotossíntese das plantas, tornando-se altamente dependente da integridade do ecossistema em que vive.
Por causa dessa simbiose obrigatória, o loyo não pode ser produzido de forma convencional em estufas ou fazendas de cultivo de cogumelos, ao contrário de espécies como champignon ou shiitake. Sua existência está intimamente ligada ao bosque nativo e às condições climáticas específicas das florestas temperadas, atuando como um indicador sensível de perda de árvores nativas e compactação do solo.
Confira as informações do canal “Nossa Ecologia” no YouTube, explicando como identificar cogumelos comestíveis:
Quais são as principais ameaças ao loyo no sul do Chile?
As ameaças ao loyo têm ligação direta com atividades humanas, sobretudo a substituição de bosques nativos por plantações exóticas e o desmatamento para outros usos do solo. A degradação e a compactação do solo, associadas a manejo inadequado, pastoreio intenso ou obras de infraestrutura, afetam diretamente o micélio e a capacidade do fungo de frutificar.
Entre os fatores considerados mais críticos estão a coleta de exemplares imaturos e os incêndios florestais, muitos ligados a descuido ou ações intencionais. Em regiões com repetição de queimadas, a destruição da cobertura vegetal, do micélio subterrâneo e da rede de raízes torna a recuperação do fungo especialmente lenta e incerta.
Como funciona na prática o manejo sustentável do loyo?
O plano de conservação do Butyriboletus loyo incorpora orientações de manejo responsável, buscando conciliar a continuidade da coleta com a preservação da espécie. A participação de comunidades locais, que acumulam décadas de experiência com a coleta do loyo, é peça-chave para adaptar as regras às realidades de cada território.
Para traduzir esses princípios em ações cotidianas de campo, o plano reúne recomendações simples, mas eficazes, que guiam tanto coletoras experientes quanto iniciantes. Essas práticas ajudam a proteger o micélio, reduzir impactos sobre o solo e garantir a dispersão de esporas para as próximas gerações.
- Respeitar a maturidade do cogumelo antes da coleta, evitando exemplares muito jovens.
- Evitar o uso de ferramentas que revolvam excessivamente o solo ao redor do ponto de frutificação.
- Deixar parte dos exemplares no local para garantir a liberação de esporas.
- Proteger áreas com alta ocorrência de loyo contra queimadas e desmatamento.
- Registrar locais de abundância para fins de monitoramento científico e comunitário.
Por que preservá-lo também significa preservar a cultura local?
A conservação do loyo não se limita à proteção de um único fungo, pois o Butyriboletus loyo está ligado a práticas alimentares, rituais e formas de ocupação do território. Em feiras, cozinhas domésticas e encontros comunitários, o cogumelo aparece em preparos tradicionais, associado a memórias familiares e a histórias de coleta em grupo durante a temporada de frutificação.
Ao fortalecer a proteção do loyo e de seu habitat, o plano de conservação contribui para manter vivo um conjunto de saberes e práticas associados à floresta nativa e ao modo de vida mapuche. Dessa forma, preservar o Butyriboletus loyo é preservar patrimônio biológico e cultural, sustentando políticas de longo prazo que integrem ciência, gestão territorial e conhecimentos ancestrais.









