O achado recente em York, no norte da Inglaterra, trouxe nova atenção ao uso da púrpura tíria no mundo romano, um corante de luxo ligado ao poder político e às elites, identificado em vestes que envolviam dois bebês enterrados há cerca de 1.700 anos, o que levanta questões sobre riqueza, crenças e a forma como a morte infantil era tratada na Britânia romana.
O que era a púrpura tíria no mundo romano?
A chamada púrpura tíria era obtida a partir de caracóis marinhos, especialmente moluscos do gênero Murex, como o Murex brandaris e espécies relacionadas. Para produzir uma pequena quantidade de corante, era preciso recolher e esmagar milhares desses animais, em um processo demorado, tecnicamente complexo e de alto custo.
Esse processo minucioso e o contexto fascinante por trás da exclusividade dessa cor são explicados em detalhes pelo criador @AgoraCeSabe. No vídeo abaixo, ele mostra como a púrpura tíria se tornou o símbolo máximo da realeza e o porquê de seu valor ter superado o do próprio ouro ao longo da história:
Como a púrpura tíria era produzida e por que era tão cara?
Quimicamente, a púrpura tíria é um corante natural de base orgânica cujo principal componente é o 6,6′ dibromoíndigo. Essa substância é secretada por moluscos marinhos da família Muricidae, como o Murex brandaris, o Hexaplex trunculus e o Stramonita haemastoma, extraída da glândula hipobranquial desses animais.
A produção exigia conhecimento técnico e grande quantidade de matéria prima, além de oficinas especializadas localizadas principalmente em áreas mediterrâneas. Esse conjunto de fatores explicava o custo muito elevado do corante e limitava seu uso a um grupo social bem definido, tornando a cor um verdadeiro código de status no mundo romano.
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Por que a púrpura tíria foi encontrada em sepulturas de bebês em York?
Os dois bebês de York estavam em caixões distintos, um de pedra e outro de chumbo, ambos cobertos com gesso líquido que, ao endurecer, preservou impressões de tecidos e do próprio corpo. O uso de púrpura tíria nesses enterros indica que as famílias tinham acesso a redes de comércio de longo alcance, capazes de trazer para a Britânia bens de luxo produzidos no Mediterrâneo.
Arqueólogos apontam algumas interpretações possíveis para essa escolha funerária, ligadas ao significado simbólico da cor e ao desejo de marcar visualmente a importância da criança. Entre as principais hipóteses levantadas pelos pesquisadores estão:
- Indicação de alto status social e econômico da família;
- Desejo de marcar a importância simbólica da criança dentro do grupo doméstico;
- Busca por associar o falecido a elementos de honra, proteção ou distinção após a morte;
- Imitação de costumes de outras partes do império, reforçando vínculos culturais com Roma.

O que essa descoberta revela sobre a morte infantil na Britânia romana?
Estudos da Universidade de York indicam que a mortalidade infantil era elevada no período romano, tanto na Europa continental quanto em províncias distantes como a Britânia. Em alguns momentos, leis e normas sociais desencorajavam o luto público pelas crianças mais novas, o que levou historiadores a pensar que a morte infantil seria pouco marcada ou registrada.
Os enterros de York com tecido tingido com púrpura tíria ajudam a revisar essa ideia, pois mostram investimento em materiais caros e rituais cuidadosos. Esse cuidado aparece em elementos como a escolha de caixões de pedra ou chumbo e a aplicação de gesso para moldar o corpo, além da presença de tecidos finos e cores de prestígio associados a áreas de enterramento de status elevado.
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Como os pesquisadores identificaram esse pigmento nas sepulturas?
O reconhecimento da púrpura tíria em York dependeu da combinação de arqueologia, química e história têxtil. A partir de pequenas amostras retiradas das camadas de gesso, laboratórios especializados utilizaram técnicas como cromatografia e espectrometria para identificar moléculas características do corante, invisíveis a olho nu devido à degradação do pigmento.
O projeto de pesquisa sobre enterros com gesso na região de York busca mapear o uso de tecidos de luxo, entender como produtos exóticos circulavam pela Britânia romana e investigar diferenças entre funerais de adultos e crianças. Os resultados mostram que a presença de tecido tingido com púrpura tíria não era um fenômeno isolado e que a análise de materiais microscópicos amplia o entendimento sobre práticas cotidianas, circulação de bens de prestígio e formas de lidar com a morte em sociedades antigas.








