À primeira vista, uma libélula parece apenas um inseto ágil de olhos enormes. Mas dentro desses olhos, pesquisadores encontraram uma proteína ligada à percepção do vermelho profundo, revelando um mecanismo visual que se aproxima de uma solução também usada por mamíferos, incluindo os humanos.
A proteína que coloca a libélula no mesmo nível visual dos humanos
A visão colorida depende de proteínas especializadas que captam a luz no olho. Nos mamíferos, a capacidade de enxergar o vermelho existe porque uma parte muito específica dessas proteínas tem uma configuração particular, como uma peça de encaixe no lugar certo.
O estudo publicado no periódico Cellular and Molecular Life Sciences identificou que a proteína responsável pela visão vermelha da libélula tem exatamente essa mesma configuração. Com ela, o inseto consegue enxergar comprimentos de onda ao redor de 720 nanômetros, o equivalente ao vermelho mais profundo que existe, além do que a maioria dos insetos consegue perceber.

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O que a libélula enxerga que outros insetos não conseguem?
A equipe foi além da análise da proteína e testou uma hipótese prática: medindo a luz refletida pela superfície do corpo das libélulas, os pesquisadores encontraram diferenças nítidas entre machos e fêmeas nas faixas vermelha e quase infravermelha do espectro, algo invisível para a maioria dos insetos.
Segundo o comunicado oficial da Universidade Metropolitana de Osaka, o pesquisador Ryu Sato afirmou que o resultado foi inesperado e sugere que o mesmo processo evolutivo ocorreu de forma independente em grupos muito distantes. Essa capacidade visual serve para ao menos três funções:
- Distinguir machos de fêmeas em frações de segundo durante o voo a alta velocidade
- Detectar presas e rivais em ambientes com pouca luz ou vegetação densa
- Perceber diferenças na superfície do corpo de outros animais que a visão humana não capta
Olhos que cobrem quase 360 graus e nunca perdem uma presa
Os olhos das libélulas ocupam a maior parte da cabeça e proporcionam um campo de visão de quase 360 graus. Esse sistema já era reconhecido como um dos mais eficientes do reino animal, capaz de detectar e interceptar presas em movimento a partir de múltiplos ângulos ao mesmo tempo.
O canal TV Câmara Caraguatatuba, com mais de 7 mil inscritos, dedicou um episódio inteiro ao sistema visual desses insetos. No vídeo a seguir, as curiosidades sobre os olhos da libélula ganham uma dimensão visual difícil de ignorar:
Uma única mudança molecular que resintoniza toda a visão do inseto
Os pesquisadores usaram uma técnica de laboratório que altera pontos específicos de uma proteína para confirmar qual parte dela define o alcance da visão. O resultado foi direto: uma ou duas trocas mínimas na estrutura da proteína são suficientes para mudar completamente a faixa de cores que o animal consegue enxergar.
Em outra família de libélulas, uma variação diferente na mesma proteína empurra a visão ainda mais além do vermelho, entrando na faixa da luz infravermelha, aquela que os humanos não conseguem ver de forma alguma. As implicações para a ciência evolutiva são significativas:
- A evolução pode repetir as mesmas soluções moleculares quando dois grupos enfrentam os mesmos desafios
- Proteínas com essa flexibilidade têm alto potencial de uso em biotecnologia
- O padrão ajuda a prever como a visão colorida pode evoluir em outros animais
Por que dois animais tão diferentes chegaram à mesma solução visual?
O que torna este caso notável não é apenas a função que convergiu, mas o mecanismo exato: a mesma posição, na mesma família de proteínas, em dois grupos de animais sem nenhum parentesco próximo.
Segundo a cobertura do Phys.org, isso indica que essa solução é tão eficiente que a evolução a “descobriu” mais de uma vez, de forma completamente independente, ao longo de milhões de anos.
A descoberta abre caminho para uma nova geração de ferramentas médicas
Uma área da medicina chamada optogenética usa proteínas sensíveis à luz para ativar ou monitorar células específicas no corpo. O problema é que a luz comum não penetra fundo nos tecidos, limitando muito esse tipo de tratamento.
A proteína da libélula, justamente por reagir a comprimentos de onda mais profundos, consegue ser ativada por luz que atravessa camadas de tecido onde a luz convencional não chega. O professor Mitsumasa Koyanagi afirmou que a proteína é “uma ferramenta promissora, capaz de detectar luz mesmo nas profundezas de organismos vivos”. As aplicações ainda estão em fase de testes e não constituem nenhuma terapia aprovada.









