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Início Comportamento

Segundo a psicologia, pessoas que cresceram entre as décadas de 60 e 70 desenvolveram um tipo de resiliência que hoje passa despercebido

Laila Por Laila
06 maio 2026 19:15
Em Comportamento
Crianças brincam livremente na rua em cena de infância dos anos 70

Crianças brincam livremente na rua em cena de infância dos anos 70

Nas décadas de 60 e 70, a resiliência não era ensinada: era exigida pela vida cotidiana. Crianças voltavam para casa sozinhas, resolviam conflitos sem adultos por perto e aprendiam a conviver com o tédio. Esse contexto deixou marcas que a psicologia do desenvolvimento ainda investiga.

Que tipo de resiliência marcou quem cresceu nos anos 60 e 70?

A psicologia do desenvolvimento observa que as gerações criadas nas décadas de 60 e 70 desenvolveram um tipo específico de resiliência, construído não por uma educação planejada, mas por um contexto em que a autonomia era praticamente obrigatória. Era habitual que crianças passassem grande parte do dia sem supervisão adulta e assumissem responsabilidades desde cedo.

O que hoje poderia ser interpretado como negligência fazia parte, naquele momento, da normalidade do cotidiano familiar. A ausência de proteção constante criou, por necessidade, um perfil de adaptação que a ciência passou a documentar sistematicamente a partir dos anos 2000.

Adulto relembra infância dos anos 70 com foto e chave antiga

Leia também: Segundo a psicologia, a geração dos anos 60 e 70 desenvolveu uma resiliência emocional que as crianças de hoje raramente constroem

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Como a infância sem supervisão construiu essa resiliência?

Esse modelo de infância favoreceu o desenvolvimento de habilidades fundamentais para a vida adulta. As experiências mais comuns nessa geração incluíam:

  • Voltar para casa sozinho após a escola, sem adulto presente
  • Resolver conflitos com outras crianças sem intervenção de adultos
  • Lidar com o tédio sem dispositivos ou atividades programadas
  • Assumir tarefas domésticas e responsabilidades desde cedo

O psicólogo Peter Gray, do Boston College, documentou esse fenômeno em escala em artigo: o declínio do brincar livre e sem supervisão nos Estados Unidos coincidiu com o aumento dos índices de ansiedade, depressão e dependência externa entre jovens.

O que é a inoculação ao estresse segundo Donald Meichenbaum?

O conceito que melhor explica essa resiliência é o de inoculação ao estresse, desenvolvido pelo psicólogo Donald Meichenbaum e publicado em 1988 no The Counseling Psychologist. Segundo essa teoria, enfrentar dificuldades moderadas e repetidas fortalece a adaptação emocional a longo prazo, de forma análoga à inoculação biológica, que expõe o organismo ao agente para criar imunidade.

Na prática, crianças que aprendiam a tolerar a frustração sem intervenção imediata de adultos desenvolviam maior capacidade de autorregulação emocional. Não por virtude ou disciplina consciente, mas pela repetição de situações que exigiam resposta própria.

Objetos de infância mostram autonomia e resiliência nos anos 70

A geração atual está comprometendo a capacidade de resistência dos jovens?

O modelo contemporâneo opera em direção oposta. Hoje, as crianças crescem em ambientes mais controlados, nos quais adultos intervêm rapidamente para evitar qualquer desconforto. Um estudo publicado no Journal of Psychological Research and Family Counseling, com 423 participantes, identificou correlação negativa significativa entre superproteção parental e autonomia dos jovens adultos: quanto maior for a superproteção, menor a resiliência emocional independente.

Os efeitos documentados da superproteção excessiva incluem:

  • Baixa tolerância à frustração diante de contrariedades cotidianas
  • Dificuldades na autorregulação emocional sem suporte externo
  • Maior dependência de validação e intervenção de terceiros
  • Aumento dos índices de ansiedade e impotência aprendida

Essa resiliência teve um custo emocional real?

A psicologia contemporânea revisita com olhar crítico a ideia de que as gerações dos anos 60 e 70 foram simplesmente “mais fortes”. A ausência de cuidado emocional na infância está ligada a efeitos duradouros na saúde mental, incluindo dificuldades na regulação emocional, tendência a reprimir sentimentos e obstáculos na construção de vínculos afetivos consistentes. A resiliência se desenvolveu, mas muitas vezes às custas do bem-estar emocional.

O verdadeiro desafio, para qualquer geração, segue o mesmo: crescer com autonomia suficiente para aprender e com afeto suficiente para se sentir seguro. Nem a dureza dos anos 70 nem a superproteção atual resolvem essa equação, o que explica por que o equilíbrio entre limite e cuidado continua no centro da psicologia do desenvolvimento.

Tags: comportamentoinfânciapsicologia

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