Pesquisas recentes em arqueologia têm revelado novos detalhes sobre a relação das sociedades pré-históricas com bebidas fermentadas, mostrando que a cultura do vaso campaniforme já produzia e consumia álcool de forma organizada, possivelmente em contextos rituais e sociais bastante estruturados, o que ajuda a entender práticas de alimentação, simbolismo e redes de troca na Europa antiga.
O que é a cultura do vaso campaniforme?
No centro dessa discussão está a cultura do vaso campaniforme, identificada principalmente por suas cerâmicas em formato de sino invertido. Esse fenômeno arqueológico espalhou-se por amplas áreas do continente europeu entre 2900 e 1800 a.C., registrando sua presença em contextos funerários, habitacionais e rituais.
A cerâmica campaniforme é caracterizada por decoração incisa e geométrica, na qual a linha horizontal estrutura o design e organiza os motivos ao redor do corpo do vaso. Seus vasos apresentam decoração cuidadosa e variações regionais, o que sugere identidades locais dentro de um fenômeno mais amplo e conectado a mudanças sociais importantes na Pré História europeia.

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Onde surgiu a cultura do vaso campaniforme?
Estudos recentes, publicadas pela revista Archeometry, indicam que os exemplares mais antigos de vasos campaniformes conhecidos até o momento provêm da região do Baixo Tejo, em Portugal, com cronologias em torno de 2900 a 2500 a.C. Isso reforça a importância dessa área na gênese e difusão inicial do fenômeno campaniforme e nas rotas marítimas atlânticas.
Apesar disso, a origem da cultura do vaso campaniforme ainda é tema de intenso debate acadêmico. Alguns pesquisadores defendem um foco inicial na Península Ibérica, enquanto outros apontam centros na Europa Central, como o vale do Reno, a Boêmia e a bacia do Danúbio, sugerindo uma possível origem múltipla apoiada em redes de interação e mobilidade.
Como funcionavam as práticas sociais e rituais dessa cultura?
Os arqueólogos relacionam esse grupo a importantes transformações sociais, como novas práticas funerárias, uso de metais e intensificação de contatos entre diferentes regiões. A cerâmica campaniforme aparece associada a sepulturas individuais, acompanhando os mortos como parte do conjunto de bens depositados no túmulo, o que indica forte valor simbólico.
Além dos contextos funerários, esses recipientes também são encontrados em assentamentos, em áreas de preparo de alimentos e consumo cotidiano. Para entender melhor o papel social da bebida fermentada, pesquisadores destacam alguns usos prováveis que ajudam a explicar o prestígio desses vasos:
- Ritos funerários em cerimônias de despedida e memória dos mortos
- Encontros de liderança em que chefes reforçavam alianças e hierarquias
- Festas sazonais ligadas a ciclos agrícolas e mudanças de estação
- Práticas de hospitalidade na recepção de visitantes e parceiros de troca

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Que tipo de bebida fermentada era produzida e como ela é identificada?
A análise de resíduos preservados em cerâmicas associadas à cultura do vaso campaniforme revelou substâncias típicas de processos de fermentação, como certos ácidos orgânicos, vestígios de leveduras e componentes de grãos. Esses dados apontam para a preparação de uma bebida alcoólica rudimentar, comparável a uma espécie de cerveja primitiva, hidromel ou bebida mista à base de cereais e possivelmente frutas.
Em laboratórios especializados, os fragmentos são submetidos a técnicas como cromatografia e espectrometria de massa para identificar moléculas microscópicas impregnadas na parede interna dos vasos. Entre os principais passos do trabalho científico, alguns se destacam e ajudam a reconstituir o processo de produção e consumo dessas bebidas:
- Coleta controlada de fragmentos cerâmicos evitando contaminações modernas
- Limpeza externa preservando resíduos internos relevantes para a análise
- Extração de amostras microscópicas para estudo químico detalhado
- Comparação com bancos de dados de marcadores de fermentação e substâncias vegetais
Esse rigor técnico permite que fragmentos simples revelem segredos de civilizações passadas. Ao decifrar tais assinaturas químicas, a ciência reconstrói rituais e hábitos milenares, transformando vestígios microscópicos em capítulos essenciais da nossa história.









