Mais de 70 navios antigos foram localizados sob as águas do Mediterrâneo, na cidade submersa de Thonis-Heracleion. As embarcações, algumas ainda ancoradas com estacas originais, estão mudando o que se sabia sobre rituais, comércio e arquitetura portuária do Egito antigo.
O que é Thonis-Heracleion e por que ela afundou?
Thonis-Heracleion foi uma das maiores cidades portuárias do Egito antigo, localizada na foz do Rio Nilo, no Mar Mediterrâneo. Por séculos, foi o principal ponto de entrada comercial para mercadores gregos e fenícios que chegavam ao país.
A cidade submergiu por volta do século VIII d.C., provavelmente por combinação de terremotos, liquefação do solo e elevação do nível do mar. Ela permaneceu esquecida por mais de mil anos até ser redescoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio e sua equipe.

Quem está liderando as escavações e como elas funcionam?
O Instituto Europeu de Arqueologia Submarina (IEASM), fundado por Franck Goddio, coordena as pesquisas desde o início. A metodologia combina sonar de varredura lateral, mapeamento 3D do fundo do mar e mergulhadores especializados em arqueologia subaquática.
As escavações acontecem em parceria com o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito. Cada temporada de campo dura semanas e produz registros detalhados de cada objeto antes de qualquer remoção, preservando o contexto arqueológico das descobertas.
O que torna essa frota de navios tão importante para a arqueologia?
A quantidade impressiona, mas não é só isso. As embarcações foram encontradas ainda ancoradas com estacas enormes de madeira cravadas no leito marinho, o que indica que não naufragaram durante uma tempestade. Elas foram afundadas intencionalmente ou ficaram onde estavam quando a cidade submergiu.
Alguns navios apresentam marcas de fogo controlado e estão próximos a estruturas que os arqueólogos identificam como santuários. Isso levantou a hipótese de que parte da frota pode ter sido usada em rituais de oferenda ao deus Amon, cujo templo principal ficava no centro da cidade.
Quais outros achados acompanharam os navios nas escavações recentes?
A frota não estava sozinha no fundo do mar. As campanhas mais recentes do IEASM também recuperaram objetos que ampliam o entendimento sobre a vida religiosa e comercial de Thonis-Heracleion. Os principais achados incluem:
- Estatuetas em bronze de Osíris e outros deuses egípcios, ainda com traços de pigmentação original
- Cestos de vime com sementes preservadas, possivelmente oferendas rituais depositadas há mais de 2.500 anos
- Joias de ouro e amuletos encontrados próximos às estruturas dos navios afundados intencionalmente
- Fragmentos de cerâmica grega e fenícia que confirmam o papel central da cidade no comércio mediterrâneo
- Uma barca cerimonial de madeira de 25 metros, intacta, usada provavelmente em procissões religiosas fluviais

Os navios confirmam a teoria dos sacrifícios rituais ou existe outra explicação?
A hipótese ritual é a mais discutida, mas os arqueólogos trabalham com mais de uma interpretação. Uma corrente defende que as embarcações maiores funcionavam como barreiras portuárias afundadas propositalmente para proteger o acesso ao porto contra correntes e invasores.
As duas hipóteses não se excluem. Franck Goddio e sua equipe indicam que Thonis-Heracleion provavelmente usou diferentes tipos de embarcações para diferentes finalidades, e que o afundamento intencional pode ter servido tanto a propósitos práticos quanto religiosos ao longo dos séculos.
Quem ama mistérios arqueológicos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Franck Goddio, que conta com mais de 29 mil visualizações, onde pesquisadores mostram novas descobertas na cidade submersa de Thonis-Heracleion, no Egito:
O que ainda resta descobrir em Thonis-Heracleion?
Segundo o IEASM, apenas uma fração da área total da cidade foi escavada até agora. O sítio arqueológico se estende por quilômetros quadrados sob o mar e ainda guarda estruturas arquitetônicas, canais, templos e provavelmente mais embarcações não catalogadas.
O que já foi encontrado em Thonis-Heracleion é suficiente para reescrever capítulos inteiros sobre o Egito do período tardio e suas relações com o mundo mediterrâneo. Cada temporada de mergulho acrescenta peças a um quebra-cabeça que, depois de mais de dois milênios submerso, está apenas começando a tomar forma.









