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Início Ciência

Os rios antigos escondidos sob quase 2 quilômetros de gelo na Antártida que revelam um continente muito diferente

Laila Por Laila
03 junho 2026 09:35
Em Ciência
Corte da Antártida revela vales de rios antigos sob gelo profundo

Corte da Antártida revela vales de rios antigos sob gelo profundo

Os rios escondidos sob a Antártida revelam que o continente congelado já teve uma paisagem muito menos imóvel. Sob quase 2 quilômetros de gelo, cientistas encontraram vales, planaltos e canais preservados de uma época anterior ao domínio das grandes calotas.

Por que rios antigos sob a Antártida chamam atenção?

Segundo o estudo publicado na Nature Communications, a paisagem identificada fica sob a Calota de Gelo da Antártida Oriental e foi moldada antes da glaciação dominar a região. Isso significa que o relevo guarda sinais de uma fase em que a água corria pela superfície.

O achado chama atenção porque essa paisagem não foi apagada pelo avanço do gelo. Em vez de ser destruída pela erosão glacial, ela permaneceu protegida por milhões de anos, como um registro enterrado de um continente que já teve dinâmica fluvial, vales abertos e superfícies expostas ao ar.

Paisagem fluvial antiga fica preservada como cápsula sob o gelo

Leia também: Cientistas descobrem grandes anomalias de gravidade nas profundezas da Antártida

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Onde os rios foram encontrados sob o gelo?

A área estudada fica nas bacias Aurora-Schmidt, no interior da Antártida Oriental. O conjunto está a menos de 350 quilômetros da borda da calota e próximo aos glaciares Denman e Totten, regiões observadas de perto por causa da estabilidade do gelo.

Os dados do relevo ajudam a mostrar a escala da descoberta:

  • Três blocos de planalto aparecem separados por vales profundos.
  • A paisagem tem cerca de 300 quilômetros de largura, dimensão comparável à do País de Gales.
  • O relevo está coberto por aproximadamente 2 quilômetros de gelo.
  • A formação pode ter começado entre 34 milhões e 60 milhões de anos atrás.
Mapa sem texto mostra planaltos e vales soterrados na Antártida Oriental

Como cientistas enxergaram rios sob quase 2 quilômetros de gelo?

Os pesquisadores não precisaram remover a calota para identificar o relevo. O artigo disponível no PubMed Central descreve o uso de radar e observação remota para reconstruir a forma do terreno escondido sob o gelo.

Essas tecnologias detectam variações sutis na superfície congelada e nas respostas do radar. De acordo com a Scientific American, a combinação entre satélites e radar de penetração foi essencial para revelar uma paisagem invisível a olho nu e inacessível por exploração comum.

Radar atravessa o gelo e revela vales enterrados na Antártida

Por que essa paisagem ficou preservada por milhões de anos?

A preservação indica que o gelo acima da região não atuou como uma lixa constante sobre o terreno. Em áreas dominadas por gelo de base quente, o movimento glacial costuma raspar, desgastar e remodelar o substrato, apagando formas antigas.

No caso das bacias Aurora-Schmidt, o gelo frio e mais estável teria funcionado como cobertura protetora. Antes da glaciação, a Antártida ainda carregava marcas da separação do supercontinente Gondwana e tinha condições climáticas capazes de sustentar drenagens superficiais.

Como rios soterrados podem influenciar glaciares rumo ao oceano?

Segundo o British Antarctic Survey, o relevo antigo ajuda a entender como a base da calota controla o movimento do gelo. Mesmo enterrados, planaltos e vales podem interferir na velocidade e na direção dos glaciares.

Essa relação entre terreno antigo, gelo e oceano aparece em pontos importantes para os modelos climáticos:

  • Superfícies planas podem reduzir o fluxo de gelo em algumas áreas.
  • Vales enterrados ajudam a orientar o deslocamento glacial.
  • Glaciares mais lentos podem mudar projeções sobre o nível do mar.
  • Modelos climáticos ganham precisão quando incluem o relevo real sob a calota.

O que ainda falta descobrir sobre a Antártida?

Conforme a Sci.News, confirmar a idade exata dessa paisagem ainda depende de novas etapas. Uma perfuração de quase 1,9 quilômetro poderia alcançar sedimentos no substrato e indicar quando o relevo ficou preservado sob o gelo.

O desafio é enorme, mas o valor científico também. Entender esses rios antigos ajuda a reconstruir o passado da Antártida e a prever como a calota pode reagir em um futuro de aquecimento, quando a relação entre gelo, relevo e mar se torna cada vez mais decisiva.

Tags: AntártidaCiênciaoceanos

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