Existe uma cidade em Minas Gerais onde uma montanha inteira desapareceu. Em Itabira, no coração do Quadrilátero Ferrífero, o antigo Pico do Cauê deu lugar a uma cratera, devorado por décadas de mineração. No lugar da serra restaram os versos de Carlos Drummond de Andrade, o poeta que nasceu ali e nunca esqueceu a paisagem perdida.
A montanha que virou cratera e símbolo da cidade
O Pico do Cauê erguia-se a 1.385 metros de altitude e tinha um brilho azulado que guiava viajantes desde o período colonial. Não por acaso, o nome Itabira vem do tupi e significa “pedra que brilha”. Décadas de extração de minério de ferro transformaram a montanha numa enorme cratera, hoje estampada na própria bandeira do município, conforme registra a biblioteca do IBGE.
Foi dessa terra que nasceu uma gigante. Em 1942, durante a Segunda Guerra, o presidente Getúlio Vargas nacionalizou as jazidas e criou a Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, uma das maiores mineradoras do mundo. A relação da cidade com a atividade é marcada por contradição: as minas a céu aberto cercam a área urbana e suas cicatrizes são visíveis de quase qualquer mirante.

A terra de Drummond e seus museus
Itabira é a cidade natal de Carlos Drummond de Andrade, nascido em 1902, que viveu ali até os treze anos e transformou a infância na cidade em matéria-prima de boa parte de sua obra. Foi ele quem registrou o fim da montanha no poema “A Montanha Pulverizada”, de 1973. A cidade retribui o legado com uma rede de espaços culturais geridos pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), criada em 1985.
O principal é o Memorial Carlos Drummond de Andrade, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1998, na encosta do Pico do Amor, com primeiras edições e correspondências do poeta. Vale conhecer também a Casa de Drummond, sobrado onde ele cresceu, hoje museu, e o Museu de Território Caminhos Drummondianos, um percurso a céu aberto com dezenas de placas-poema espalhadas pela cidade.
Quem busca se conectar com a história e a cultura mineira, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, onde é mostrada a importância e a beleza da Fazenda do Pontal, um marco histórico ligado ao poeta Carlos Drummond de Andrade em Itabira:
Como é morar em Itabira?
Morar em Itabira é viver numa cidade de porte médio que combina economia forte com ritmo de interior. Com 113.343 habitantes no Censo 2022 e IDHM de 0,756, classificado como alto, o município tem a renda impulsionada pela mineração, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A estrutura urbana inclui um campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), faculdades privadas e uma rede de saúde que atende toda a região do Médio Piracicaba. Quem se muda para a cidade encontra um cotidiano tranquilo entre casarões históricos e serras, com a vida cultural girando em torno do legado de Drummond. É um equilíbrio raro entre o peso da indústria e a calma das cidades pequenas mineiras.

Onde fica Itabira?
Itabira fica na região central de Minas Gerais, dentro do Quadrilátero Ferrífero, a maior área de extração de minério de ferro do país. A cidade está a pouco mais de 100 km de Belo Horizonte, cerca de duas horas de carro da capital mineira.
O município faz parte do Circuito do Ouro e guarda distritos de interesse turístico, como Ipoema, por onde passa a Estrada Real e que dá acesso a cachoeiras e à Serra do Espinhaço. Essa posição, perto da capital mas cercada de montanhas, ajuda a explicar por que a cidade atrai tanto visitantes quanto novos moradores em busca de sossego.
Vale conhecer a terra do poeta
Itabira carrega um legado duplo que poucas cidades no mundo podem ostentar: a força do ferro que ajudou a construir o Brasil e a delicadeza dos versos mais famosos da literatura nacional. Poucos lugares contam uma história tão intensa sobre o que se ganha e o que se perde com o progresso.
Você precisa caminhar pelos Caminhos Drummondianos de Itabira e entender por que uma montanha que desapareceu virou poesia eterna.









