Recuperar DNA de restos humanos antigos nem sempre é uma tarefa simples. Em muitos casos, os materiais mais valiosos para análise, como dentes e partes específicas do crânio, precisam ser preservados por razões arqueológicas e culturais. Agora, uma descoberta surpreendente revelou que um dos aliados mais improváveis da ciência pode estar escondido nos cabelos de múmias antigas: os piolhos.
Pesquisadores encontraram uma maneira inovadora de acessar informações genéticas de indivíduos que viveram há mais de dois mil anos utilizando a substância adesiva produzida por lêndeas. O método abriu novas possibilidades para estudar populações antigas sem causar danos significativos aos restos humanos.
Como os piolhos ajudaram a preservar o DNA humano?
Há cerca de 2.000 anos, a infestação por piolhos era extremamente comum entre as populações humanas. Esses parasitas depositavam seus ovos nos fios de cabelo utilizando uma cola natural extremamente resistente ao tempo.
O que os cientistas descobriram é que essa substância adesiva aprisionava pequenas células da pele do hospedeiro. Protegidas pela cola das lêndeas, essas células permaneceram preservadas durante séculos, mantendo fragmentos valiosos de DNA humano.
Mesmo após milhares de anos, a estrutura adesiva continuou intacta nos cabelos de múmias encontradas na Cordilheira dos Andes, permitindo a extração de material genético de excelente qualidade.

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Onde as múmias foram encontradas?
As amostras analisadas pertencem a múmias descobertas na província de San Juan, na região andina da Argentina. A datação por radiocarbono indicou que os indivíduos viveram entre aproximadamente 1.300 e 2.300 anos atrás.
Os pesquisadores coletaram fios de cabelo contendo lêndeas preservadas e compararam os resultados obtidos com amostras de DNA extraídas de dentes, ossos e vestígios deixados pelos próprios piolhos.
Os resultados surpreenderam a equipe científica, demonstrando que a cola das lêndeas preservava quantidades significativas de material genético humano.
Por que a descoberta é considerada tão importante?
O estudo mostrou que a quantidade de DNA humano recuperada a partir da cola produzida pelos piolhos é semelhante à obtida em dentes antigos e, em alguns casos, superior à encontrada em determinados ossos utilizados tradicionalmente em pesquisas arqueológicas.
Isso representa uma alternativa menos invasiva para estudos genéticos em restos humanos antigos, especialmente em situações onde a integridade dos esqueletos deve ser preservada.
Entre as principais vantagens do método estão:
- Preservação dos restos arqueológicos sem necessidade de destruição de ossos ou dentes.
- Alta concentração de DNA humano recuperável.
- Possibilidade de estudar indivíduos muito antigos.
- Acesso a informações sobre parentesco, origem e saúde das populações.
O que os cientistas conseguiram descobrir através dos piolhos?
Utilizando o DNA recuperado das lêndeas, os pesquisadores conseguiram identificar o sexo de alguns dos indivíduos analisados. Além disso, encontraram evidências de um antigo vírus conhecido como poliomavírus de células de Merkel.
Esse vírus está associado a raros tipos de câncer de pele e havia sido identificado pela ciência moderna apenas em 2008. A descoberta em amostras tão antigas representa o registro mais antigo conhecido da presença desse agente biológico em seres humanos.
Os cientistas ainda investigam se o vírus estava presente no organismo das múmias ou se fazia parte do material biológico transportado pelos próprios piolhos.

O que essa pesquisa pode revelar no futuro?
A descoberta abre uma nova fronteira para a arqueogenética, área que combina arqueologia e genética para reconstruir a história das populações humanas. Além de identificar ancestrais, migrações e doenças antigas, o método poderá ser utilizado em diversas coleções arqueológicas espalhadas pelo mundo.
Graças a um parasita frequentemente associado apenas a incômodos e problemas de higiene, os pesquisadores encontraram uma forma inovadora de acessar informações preciosas sobre pessoas que viveram há milhares de anos. As pequenas lêndeas preservadas nos cabelos das múmias tornaram-se verdadeiras cápsulas do tempo capazes de guardar fragmentos da história humana.






