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Início Ciência

Graças aos piolhos, pesquisadores conseguiram recuperar o DNA de múmias milenares nos Andes

Roberta Patriota Por Roberta Patriota
10 junho 2026 20:15
Em Ciência
Graças aos piolhos, pesquisadores conseguiram recuperar o DNA de múmias milenares nos Andes

Substância adesiva de lêndeas preserva DNA humano em fios de múmias antigas.

Recuperar DNA de restos humanos antigos nem sempre é uma tarefa simples. Em muitos casos, os materiais mais valiosos para análise, como dentes e partes específicas do crânio, precisam ser preservados por razões arqueológicas e culturais. Agora, uma descoberta surpreendente revelou que um dos aliados mais improváveis da ciência pode estar escondido nos cabelos de múmias antigas: os piolhos.

Pesquisadores encontraram uma maneira inovadora de acessar informações genéticas de indivíduos que viveram há mais de dois mil anos utilizando a substância adesiva produzida por lêndeas. O método abriu novas possibilidades para estudar populações antigas sem causar danos significativos aos restos humanos.

Como os piolhos ajudaram a preservar o DNA humano?

Há cerca de 2.000 anos, a infestação por piolhos era extremamente comum entre as populações humanas. Esses parasitas depositavam seus ovos nos fios de cabelo utilizando uma cola natural extremamente resistente ao tempo.

O que os cientistas descobriram é que essa substância adesiva aprisionava pequenas células da pele do hospedeiro. Protegidas pela cola das lêndeas, essas células permaneceram preservadas durante séculos, mantendo fragmentos valiosos de DNA humano.

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Mesmo após milhares de anos, a estrutura adesiva continuou intacta nos cabelos de múmias encontradas na Cordilheira dos Andes, permitindo a extração de material genético de excelente qualidade.

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Onde as múmias foram encontradas?

As amostras analisadas pertencem a múmias descobertas na província de San Juan, na região andina da Argentina. A datação por radiocarbono indicou que os indivíduos viveram entre aproximadamente 1.300 e 2.300 anos atrás.

Os pesquisadores coletaram fios de cabelo contendo lêndeas preservadas e compararam os resultados obtidos com amostras de DNA extraídas de dentes, ossos e vestígios deixados pelos próprios piolhos.

Os resultados surpreenderam a equipe científica, demonstrando que a cola das lêndeas preservava quantidades significativas de material genético humano.

Por que a descoberta é considerada tão importante?

O estudo mostrou que a quantidade de DNA humano recuperada a partir da cola produzida pelos piolhos é semelhante à obtida em dentes antigos e, em alguns casos, superior à encontrada em determinados ossos utilizados tradicionalmente em pesquisas arqueológicas.

Isso representa uma alternativa menos invasiva para estudos genéticos em restos humanos antigos, especialmente em situações onde a integridade dos esqueletos deve ser preservada.

Entre as principais vantagens do método estão:

  • Preservação dos restos arqueológicos sem necessidade de destruição de ossos ou dentes.
  • Alta concentração de DNA humano recuperável.
  • Possibilidade de estudar indivíduos muito antigos.
  • Acesso a informações sobre parentesco, origem e saúde das populações.

O que os cientistas conseguiram descobrir através dos piolhos?

Utilizando o DNA recuperado das lêndeas, os pesquisadores conseguiram identificar o sexo de alguns dos indivíduos analisados. Além disso, encontraram evidências de um antigo vírus conhecido como poliomavírus de células de Merkel.

Esse vírus está associado a raros tipos de câncer de pele e havia sido identificado pela ciência moderna apenas em 2008. A descoberta em amostras tão antigas representa o registro mais antigo conhecido da presença desse agente biológico em seres humanos.

Os cientistas ainda investigam se o vírus estava presente no organismo das múmias ou se fazia parte do material biológico transportado pelos próprios piolhos.

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O que essa pesquisa pode revelar no futuro?

A descoberta abre uma nova fronteira para a arqueogenética, área que combina arqueologia e genética para reconstruir a história das populações humanas. Além de identificar ancestrais, migrações e doenças antigas, o método poderá ser utilizado em diversas coleções arqueológicas espalhadas pelo mundo.

Graças a um parasita frequentemente associado apenas a incômodos e problemas de higiene, os pesquisadores encontraram uma forma inovadora de acessar informações preciosas sobre pessoas que viveram há milhares de anos. As pequenas lêndeas preservadas nos cabelos das múmias tornaram-se verdadeiras cápsulas do tempo capazes de guardar fragmentos da história humana.

Tags: arqueogenéticaDNA de múmiaspesquisa arqueológicapiolhos

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