O Sol desafia uma das regras mais intuitivas da natureza. Em teoria, quanto mais longe de uma fonte de calor, menor deveria ser a temperatura. No entanto, no caso da nossa estrela, acontece justamente o contrário. A superfície visível do Sol, chamada fotosfera, tem cerca de 5.500°C, enquanto sua atmosfera externa, conhecida como coroa solar, ultrapassa 1 milhão de graus. Essa diferença extrema intriga cientistas há décadas e continua sendo um dos maiores enigmas da astrofísica.
Agora, a missão indiana Aditya-L1 está ajudando a lançar nova luz sobre esse fenômeno. Com instrumentos capazes de observar diferentes camadas da atmosfera solar ao mesmo tempo, a sonda fornece dados valiosos sobre como a energia se desloca do interior do Sol até a coroa. Com isso, os pesquisadores se aproximam de uma resposta para uma pergunta central da física solar: por que a atmosfera do Sol é tão mais quente do que sua própria superfície?
Por que a coroa solar é mais quente do que a superfície do Sol?
À primeira vista, a estrutura térmica do Sol parece contraditória. A fotosfera, que é a camada que enxergamos da Terra, apresenta temperatura de aproximadamente 6 mil kelvin. Já a coroa, localizada acima dela, pode atingir mais de 1 milhão de kelvin. Isso significa que a atmosfera externa do Sol é centenas de vezes mais quente do que a região logo abaixo.
Esse comportamento é considerado anormal porque, em condições comuns, o calor tende a diminuir conforme se afasta de sua fonte. Por isso, entender o que aquece a coroa solar se tornou uma das missões mais importantes da astronomia moderna. A principal hipótese é que campos magnéticos extremamente intensos estejam transferindo e liberando energia nas camadas mais externas da estrela.

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Quais mecanismos podem explicar esse aquecimento extremo?
Os cientistas acreditam que o campo magnético solar desempenha papel decisivo nesse processo. O Sol é formado por plasma, um gás eletricamente carregado, atravessado por linhas de campo magnético que se torcem, se rompem e se reorganizam o tempo todo. Esse comportamento pode liberar grandes quantidades de energia e aquecer a atmosfera solar.
Atualmente, duas explicações concentram a maior parte das pesquisas sobre o aquecimento da coroa. Ambas tentam mostrar como a energia gerada nas camadas inferiores consegue chegar à atmosfera externa e elevar tanto a temperatura.
- Reconexão magnética: acontece quando linhas de campo magnético se rompem e se reconectam de forma explosiva, liberando energia em grande escala.
- Ondas de Alfvén: são vibrações magnéticas que se propagam pelo plasma solar e podem transportar energia da superfície até a coroa.
O grande desafio é descobrir qual desses mecanismos tem maior influência ou se ambos atuam em conjunto para produzir esse superaquecimento da atmosfera solar.

Como a missão Aditya-L1 está ajudando a resolver esse mistério?
Lançada pela Organização Indiana de Pesquisa Espacial, a Aditya-L1 foi projetada para estudar o Sol a partir do ponto L1, uma região localizada a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Desse local, a sonda consegue observar o Sol continuamente, sem interrupções causadas por eclipses ou bloqueios visuais.
Um dos instrumentos mais importantes da missão é o SUIT, telescópio que registra imagens ultravioletas da fotosfera e da cromosfera em vários comprimentos de onda. Essa tecnologia permite acompanhar o transporte de massa e energia entre diferentes camadas da atmosfera solar, algo essencial para investigar o aquecimento da coroa.
Os dados iniciais já registraram erupções solares, ejeções de plasma e outras atividades intensas na atmosfera do Sol. Essas observações ajudam os cientistas a mapear o caminho da energia magnética e entender de que forma ela alcança as regiões mais externas da estrela.

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O que essa descoberta pode mudar para a ciência e para a Terra?
Resolver o mistério do aquecimento coronal não é importante apenas para a astronomia teórica. Os mesmos processos magnéticos que aquecem a coroa solar também estão ligados a tempestades solares, ejeções de massa coronal e flares que podem afetar diretamente a vida na Terra. Esses eventos têm potencial para interferir em satélites, sistemas de navegação, redes de comunicação e até no fornecimento de energia elétrica.
Ao observar simultaneamente a fotosfera, a cromosfera e a coroa, a Aditya-L1 está construindo um retrato mais completo da dinâmica solar. Isso pode melhorar a previsão do clima espacial e aumentar a capacidade de proteger tecnologias essenciais do impacto de eventos solares extremos.







