Quem vê a Antártida hoje encontra gelo, vento e silêncio, mas o relevo escondido conta outra história. Sob quase 2 quilômetros de gelo, uma paisagem de rios antigos preserva marcas de um continente mais exposto e ajuda a entender como os glaciares avançam rumo ao oceano.
Por que rios antigos ficaram escondidos sob a Antártida?
Segundo o estudo publicado na Nature Communications, a paisagem identificada fica sob a Calota de Gelo da Antártida Oriental e foi moldada antes que a glaciação dominasse a região. O relevo guarda sinais de uma fase em que a água corria pela superfície.
O achado chama atenção porque essas formas não foram apagadas pelo avanço do gelo. Em vez de serem destruídas pela erosão glacial, elas permaneceram protegidas por milhões de anos, como um registro enterrado de vales, superfícies expostas e drenagens antigas.

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Onde essa paisagem de rios foi encontrada?
A área estudada fica nas bacias Aurora-Schmidt, no interior da Antártida Oriental. O conjunto está a menos de 350 quilômetros da borda da calota e próximo aos glaciares Denman e Totten, regiões acompanhadas pela importância na estabilidade do gelo.
A escala da descoberta ajuda a entender por que esse relevo soterrado interessa tanto à ciência polar:
- Três blocos de planalto aparecem separados por vales profundos.
- A paisagem tem cerca de 300 quilômetros de largura, dimensão comparável à do País de Gales.
- O relevo está coberto por aproximadamente 2 quilômetros de gelo.
- A formação pode ter começado entre 34 milhões e 60 milhões de anos atrás.

Como cientistas enxergaram o relevo sob 2 quilômetros de gelo?
Os pesquisadores não removeram a calota para identificar o terreno. O artigo disponível no PubMed Central descreve o uso de radar e observação remota para reconstruir a forma do substrato escondido.
Essas tecnologias detectam variações sutis na superfície congelada e nas respostas do radar. De acordo com a Scientific American, a combinação entre satélites e radar de penetração foi essencial para revelar uma paisagem invisível a olho nu.

Por que a paisagem sobreviveu por milhões de anos?
A preservação indica que o gelo acima da região não funcionou como uma lixa constante sobre o terreno. Em áreas dominadas por gelo de base quente, o movimento glacial costuma raspar, desgastar e remodelar o substrato, apagando formas antigas.
No caso das bacias Aurora-Schmidt, o gelo frio e mais estável teria funcionado como cobertura protetora. Antes da glaciação, a Antártida ainda carregava marcas da separação do supercontinente Gondwana e tinha condições capazes de sustentar drenagens superficiais.
A diferença entre erosão e preservação aparece de forma mais clara quando os processos são comparados:
| Condição sob o gelo | Efeito no relevo |
|---|---|
| Gelo de base quente | Favorece desgaste, escavação e remodelagem do terreno |
| Gelo frio e estável | Ajuda a preservar superfícies antigas por longos períodos |
| Vales enterrados | Guardam pistas sobre drenagens anteriores à grande calota |
Como os rios antigos ajudam a entender glaciares?
Segundo o British Antarctic Survey, o relevo antigo ajuda a entender como a base da calota controla o movimento do gelo. Mesmo soterrados, planaltos e vales podem interferir na velocidade e na direção dos glaciares.
Essa ligação entre terreno, gelo e oceano é decisiva porque modelos climáticos dependem de uma base realista do que existe sob a calota:
- Superfícies planas podem reduzir o fluxo de gelo em algumas áreas.
- Vales enterrados ajudam a orientar o deslocamento glacial.
- Glaciares mais lentos podem alterar projeções sobre o nível do mar.
- Modelos climáticos ganham precisão quando incluem o relevo real sob a calota.
Conforme a Sci.News, confirmar a idade exata dessa paisagem ainda depende de novas etapas. Uma perfuração de quase 1,9 quilômetro poderia alcançar sedimentos no substrato e indicar quando o relevo ficou preservado sob o gelo.
Por que rios escondidos mudam a leitura da Antártida?
A paisagem soterrada mostra que a Antártida não pode ser lida apenas pela superfície branca de hoje. Sob o gelo, há marcas de um continente anterior às grandes calotas, com rios, vales e planaltos que continuam interferindo na dinâmica glacial.
O valor científico está justamente nessa ligação entre passado e futuro. Ao entender o relevo antigo, pesquisadores conseguem refinar a leitura sobre o comportamento dos glaciares e sobre a resposta da calota em um planeta mais quente.







