Cidade de interior que enriquece com grãos costuma parar por aí, exportando a safra e o próprio talento. Rio Verde, no sudoeste de Goiás, fez o contrário: transformou soja e milho em carne, biocombustível e pizza congelada, chegou a R$ 22,3 bilhões de PIB e virou a segunda maior economia do estado, atrás apenas de Goiânia.
Como Rio Verde se tornou a segunda maior economia de Goiás?
Agregando valor ao que planta, em vez de só embarcar a produção. O município fechou 2023 com PIB de R$ 22,3 bilhões, ultrapassando Aparecida de Goiânia, com R$ 20,8 bilhões, e Anápolis, que caiu da segunda para a quarta posição com R$ 20,4 bilhões, conforme os dados do levantamento do PIB dos Municípios divulgado pelo IBGE. É o triplo da riqueza que a região gerava dez anos antes.
O salto não é acidente de um ano bom de safra. Como explicou o superintendente do Instituto Mauro Borges (IMB), Sávio Oliveira, ao Tribuna do Planalto, a cidade passou anos como quarta ou quinta economia estadual, subiu para segunda em 2022 e se manteve em 2023, num desempenho que ele classifica como nada trivial. O ranking mudou porque alguns municípios cresceram mais rápido, não porque os outros encolheram.

O que a cidade faz com a soja e o milho que produz?
Ela os transforma antes de vender. Rio Verde é o principal exportador de Goiás em valores, primeiro lugar em valor adicionado na agropecuária e maior produtor de grãos do estado, segundo a Prefeitura de Rio Verde. O parque industrial reúne BRF, Comigo, Cargill, Klabin, Louis Dreyfus, Mosaic e Crown Embalagens, entre outras.
Os números da agroindústria dizem mais que o PIB. A unidade da BRF na cidade, das marcas Sadia e Perdigão, é a maior da companhia, com 8 mil funcionários, e produz 14 mil pizzas por dia, conforme relatou o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Sustentável, Denimarcio Borges de Oliveira, ao AgFeed. Segundo ele, Rio Verde seria o único município do país com quatro esmagadoras de soja ativas, e a chegada da usina de etanol de milho da Inpasa, prevista para 2027, deve puxar um novo salto.
A logística fecha a conta. A cidade sedia a Plataforma Logística Multimodal, o maior complexo da Ferrovia Norte-Sul, com terminal de grãos inaugurado em julho de 2021, e é a única do interior goiano com voo comercial regular diário.
Onde a qualidade de vida aparece nos indicadores?
Na educação, com folga. Em 2025, 97,02% das crianças rio-verdenses estavam alfabetizadas na idade certa, contra 86,1% em 2023 e 89,88% em 2024, conforme apurou o Jornal O Hoje. A meta nacional é alfabetizar 80% das crianças até os 8 anos, mas só em 2030.
O reconhecimento veio de fora. A cidade recebeu o Selo Ouro Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação (MEC) com pontuação máxima de 100 pontos nos critérios avaliativos, segundo a Prefeitura de Rio Verde, que também registra a 2ª posição do país no IDEB dos anos iniciais entre cidades com mais de 100 mil habitantes. Na gestão municipal, Rio Verde ficou em primeiro lugar na sua região no Índice pelo Futuro das Cidades (IFC) de 2025, levantamento do IEL Goiás que avalia os 246 municípios goianos em sete eixos.
Quanto custa morar na cidade mais rica do interior do Centro-Oeste?
Caro, e esse é o outro lado da conta. A prosperidade puxou uma migração que pressiona o mercado imobiliário: segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica com base em dados do IBGE, citado pelo portal Cidades e Condomínios, Rio Verde deve ganhar cerca de 25 mil novos moradores e mais de 16 mil novos domicílios até 2031.
A oferta corre atrás. O presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Rio Verde (Ademi-RV), Fausto Capparelli, aponta que a migração de trabalhadores qualificados e investidores eleva a demanda e a valorização, conforme reportagem publicada pela Ademi-GO, que relata casos de aluguéis próximos ao dobro dos praticados em Goiânia. A zona sul, no entorno do Parque Espelho D’Água, virou o principal eixo de expansão.
Do lado público, a cidade foi a primeira de Goiás contemplada na 2ª etapa do programa habitacional FAR, do Minha Casa Minha Vida, conforme a Secretaria Municipal de Habitação e Regularização Fundiária, e recebeu edital do programa Pra Ter Onde Morar, da Agência Goiana de Habitação (Agehab), com casas doadas a famílias de até um salário mínimo. Crescer rápido cobra o preço de ter que construir na mesma velocidade.
Quem quer conhecer melhor Rio Verde, vai curtir este vídeo do canal Desbravadores do Destino, que percorre uma das cidades que mais crescem no interior de Goiás:
Quem sustenta essa economia no dia a dia?
Gente que trabalha fora da lavoura, ao contrário do que o rótulo de cidade do agro sugere. Pelos dados da RAIS de 2023 reunidos pela Prefeitura, 42,1% dos empregados formais estão em serviços, 20,8% na indústria, 20,3% no comércio e apenas 11,9% na agropecuária.
A formação acompanha. A cidade concentra unidades do sistema S, tem a Universidade de Rio Verde (UniRV), o primeiro polo EMBRAPII habilitado em Goiás e uma Lei Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação desde 2019. É a maior cidade e polo da região Sudoeste, com influência sobre 31 municípios e cerca de 1 milhão de habitantes na área de abrangência.
Uma cidade que aprendeu a ficar com o que produz
O agronegócio brasileiro tem muitos gigantes de produção e poucos de industrialização. Rio Verde entendeu que a diferença entre exportar grão e exportar pizza congelada é o que separa uma economia próspera de uma economia dependente, e construiu escola, universidade e ferrovia em cima dessa aposta.
O desafio agora é outro: garantir que quem trabalha nas 8 mil vagas da agroindústria consiga pagar o aluguel da cidade que ajudou a enriquecer. Rio Verde já provou que sabe crescer, e o próximo teste é provar que sabe distribuir.









