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Início Animais de Estimação

O maior herbívoro nativo da América do Sul retorna ao Chaco após 110 anos em um traslado recorde mundial

Laila Por Laila
31 março 2026 07:55
Em Animais de Estimação
O guanaco, o maior herbívoro nativo do continente, completou uma jornada de 3.200 km por terra para reencontrar um ecossistema que não o via há mais de um século

O guanaco, o maior herbívoro nativo do continente, completou uma jornada de 3.200 km por terra para reencontrar um ecossistema que não o via há mais de um século

Se você acompanha notícias de meio ambiente, já deve ter se deparado com histórias de animais extintos que voltam a habitar territórios perdidos. Mas o que aconteceu no norte da Argentina em dezembro de 2025 vai além do comum: o guanaco, o maior herbívoro nativo do continente, completou uma jornada de 3.200 km por terra para reencontrar um ecossistema que não o via há mais de um século.

Por que o guanaco é considerado o maior herbívoro nativo da América do Sul?

O guanaco (Lama guanicoe) é um mamífero da família dos camelídeos e ocupa o topo da lista dos herbívoros selvagens nativos do continente em porte e peso. Adultos chegam a 120 kg e quase 1,2 metro de altura no dorso, o que os torna animais de impacto visual e ecológico considerável em qualquer bioma que habitem.

No Chaco Seco, esse herbívoro desempenhava um papel insubstituível: controlava a vegetação rasteira, reduzia o acúmulo de biomassa que alimenta incêndios e sustentava as cadeias alimentares que dependem de um grande pastador para funcionar. Sem ele, o equilíbrio da floresta foi sendo comprometido ao longo de mais de 110 anos.

O guanaco (Lama guanicoe) é o maior herbívoro nativo da América do Sul e desempenha papel fundamental na dinâmica do Chaco Seco: controla a vegetação, sustenta as cadeias tróficas em apoio à jaguatirica como predador de topo e favorece a biodiversidade local

Leia também: Epicteto, filósofo grego, disse: “Primeiro diga a si mesmo quem você quer ser; depois, faça o que precisa ser feito”

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O que causou a extinção regional do guanaco no Chaco argentino?

A pressão de caça predatória e a expansão agropecuária ao longo do século XIX foram os principais fatores que eliminaram o guanaco do Chaco. A espécie não foi extinta globalmente, mas desapareceu completamente dessa região, deixando um vazio ecológico que nenhuma outra espécie nativa conseguiu preencher por completo.

O impacto dessa ausência vai além da fauna. Sem um herbívoro de grande porte controlando a vegetação, a floresta acumulou biomassa em excesso, aumentando o risco de incêndios intensos. A jaguatirica, predador de topo do bioma, também perdeu uma de suas presas históricas, o que afetou toda a dinâmica de predação local.

Como foi a operação de reintrodução do herbívoro no Parque Nacional El Impenetrable?

A operação foi conduzida pela Fundação Rewilding Argentina em parceria com a Administração de Parques Nacionais (APN) e as províncias do Chaco e de Santa Cruz. Os cinco animais selecionados vieram do Parque Patagônia, onde passaram por avaliações populacionais, sanitárias e genéticas antes de serem considerados aptos para a reintrodução.

A técnica de captura utilizou quatro motos em formação de “V”, guiando os animais em direção a um funil e, depois, à manga do trailer. Todo o processo respeitou os grupos familiares e priorizou o bem-estar animal. Segundo a Fundação Rewilding Argentina, esta é apenas a primeira de múltiplas liberações planejadas para reconstituir uma população saudável no parque.

Os critérios seguidos na seleção dos animais incluíram:

  • Avaliação genética para garantir diversidade na nova população
  • Exames sanitários completos antes do embarque
  • Respeito aos grupos familiares durante a captura e o transporte
  • Uso de trailer especial projetado para reduzir o estresse ao longo da jornada
  • Instalação de currais de pré-soltura no El Impenetrable para adaptação gradual
O traslado terrestre de 3.200 km de Santa Cruz ao Chaco é o mais longo já realizado no mundo com fins de conservação utilizando essa espécie

Por que o traslado de 3.200 km foi um recorde mundial de conservação?

Segundo o governo argentino, o traslado terrestre de 3.200 km de Santa Cruz ao Chaco é o mais longo já realizado no mundo com fins de conservação para essa espécie. Para torná-lo viável, foram desenvolvidas técnicas específicas de captura e um trailer adaptado para minimizar o estresse dos animais ao longo dos dias de viagem.

A distância percorrida equivale, em escala, a atravessar toda a extensão vertical do Brasil. O fato de os animais terem chegado saudáveis e sido soltos diretamente na floresta do El Impenetrable é considerado uma vitória técnica e logística pelos responsáveis pelo projeto.

O perfil do Instagram da Rewilding Argentina, com mais de 272 mil seguidores, documentou cada etapa da técnica de arreamento em detalhes:

Ver essa foto no Instagram

Um post compartilhado por Fundación Rewilding Argentina (@rewilding_argentina)

A lontra gigante também voltou à Argentina no mesmo período

O retorno do guanaco não foi o único marco de conservação recente no país. Em julho de 2025, quatro lontras gigantes (Pteronura brasiliensis) foram liberadas no Gran Parque Iberá, em Corrientes, após mais de 40 anos de extinção local. O programa contou com a participação do Projeto Ariranhas do Brasil e da Associação Europeia de Zoológicos e Aquários (EAZA).

Um dos animais liberados, chamado Nima, nasceu no Zoológico de Madri e chegou à Argentina em janeiro de 2023. Os dois projetos juntos revelam um padrão consistente: a Argentina está se consolidando como referência global em rewilding de grande escala.

El Impenetrable se posiciona como um dos maiores projetos de restauração do continente

O Parque Nacional El Impenetrable já abriga programas de recuperação da tartaruga yabotí e da jaguatirica. Com o retorno do herbívoro mais emblemático do continente, o parque fecha elos da cadeia alimentar que estavam rompidos há mais de um século e consolida sua posição entre os projetos de restauração mais ambiciosos da América do Sul.

Além do impacto ecológico, o retorno dessas espécies impulsiona o turismo de natureza na região, gerando novas oportunidades econômicas para as comunidades locais. A natureza, quando recebe a chance de se reorganizar, tende a responder com uma velocidade que ainda surpreende os próprios cientistas.

Tags: Biologiaconservação animalvida animal

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