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Início Ciência

Uma perfuração recorde na Antártida trouxe à superfície 228 metros de lama e confirmou que ali já não havia gelo, mas sim vida

Gessika Cristiny Santos de Oliveira Por Gessika Cristiny Santos de Oliveira
03 abril 2026 22:05
Em Ciência
Uma perfuração recorde na Antártida trouxe à superfície 228 metros de lama e confirmou que ali já não havia gelo, mas sim vida

Perfuração na Antártida Ocidental revela sensibilidade do gelo ao aquecimento global histórico

O derretimento da camada de gelo da Antártida Ocidental tem sido monitorado de perto por pesquisadores de todo o mundo. A região é considerada uma das mais sensíveis do planeta às mudanças de temperatura, e pequenas variações climáticas podem provocar grandes transformações nas geleiras. Nesse contexto, um novo estudo baseado na perfuração profunda do subsolo trouxe informações detalhadas sobre o passado dessa área e ajudou a entender melhor como o gelo reage ao aquecimento global, algo essencial para prever impactos futuros nos oceanos e nas áreas costeiras.

Por que a camada de gelo da Antártida Ocidental preocupa tanto?

O trabalho foi conduzido por um consórcio internacional ligado ao programa SWAIS2C, dedicado a analisar a sensibilidade da Antártida Ocidental ao aumento de 2 °C na temperatura média do planeta. A equipe perfurou centenas de metros de gelo e rocha para recuperar sedimentos antigos preservados ao longo de milhões de anos, que funcionam como um arquivo natural do clima.

Esses registros revelam períodos em que o gelo recuou e o mar avançou sobre a região hoje coberta por uma vasta camada gelada. Ao entender como o sistema respondeu a aquecimentos anteriores, os cientistas conseguem avaliar melhor o risco atual de perda acelerada de gelo e a possível elevação do nível do mar nas próximas décadas.

Uma perfuração recorde na Antártida trouxe à superfície 228 metros de lama e confirmou que ali já não havia gelo, mas sim vida
O programa SWAIS2C analisa a sensibilidade da Antártida ao aquecimento global. Crédito: Ana Tovey / SWAIS2C

Como a camada de gelo da Antártida Ocidental pode elevar o nível do mar?

A camada de gelo da Antártida Ocidental é frequentemente citada em estudos sobre elevação do nível dos oceanos. Estimativas atuais indicam que, se todo esse manto de gelo derretesse, o nível do mar poderia subir entre 3 e 5 metros ao longo de séculos, ameaçando cidades costeiras, portos e zonas agrícolas em vários continentes.

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Pesquisadores destacam que o risco não está apenas na quantidade de água armazenada, mas também na forma como a camada está apoiada. Para entender melhor esse perigo, alguns pontos se destacam nos estudos recentes sobre a região.

  • Grande parte da base repousa abaixo do nível do mar, facilitando a entrada de água oceânica mais quente sob o gelo.
  • Esse processo provoca derretimento basal, que desestabiliza plataformas de gelo e acelera o fluxo em direção ao oceano.
  • O fenômeno conhecido como instabilidade da calota de gelo marinha pode levar a um recuo cada vez mais rápido das geleiras.

O que o novo núcleo de sedimentos revela sobre o passado da Antártida Ocidental?

O núcleo de sedimentos extraído sob o gelo da Antártida Ocidental trouxe indícios de que, em períodos mais quentes do passado geológico, a região já esteve livre de gelo e coberta por um mar raso. Nas amostras foram identificados restos de organismos marinhos que dependem de luz solar, sinal de que, em determinados momentos, não havia uma camada espessa de gelo bloqueando a superfície.

Ao comparar essas evidências com registros de CO₂ e temperatura de outras partes do planeta, cientistas estimam quais níveis de aquecimento estiveram associados à retração do gelo no passado. Assim, o núcleo sedimentar funciona como uma referência natural para testar modelos climáticos que projetam a evolução futura das geleiras antárticas e ajudam a calibrar cenários usados pelo IPCC.

Leia também: Foram descobertos novos satélites que orbitam timidamente Júpiter e Saturno

Como é feita a perfuração sob mais de 500 metros de gelo na Antártida Ocidental?

A coleta desse núcleo exigiu uma operação logística complexa em uma área remota da Antártida Ocidental, distante centenas de quilômetros da estação de pesquisa mais próxima. A equipe montou uma torre de perfuração móvel sobre o gelo e utilizou água aquecida para abrir um poço de mais de 500 metros até alcançar o fundo da camada gelada, permitindo então recuperar os sedimentos do antigo leito marinho.

Essa complexa engenharia, que envolve o transporte de toneladas de equipamentos para o isolamento absoluto da Antártida, é detalhada no vídeo do @IFLScience. Nas imagens, é possível acompanhar como a equipe monta a torre de perfuração e gerencia a operação para alcançar o leito marinho sob centenas de metros de gelo.

Como esses estudos sobre a Antártida Ocidental ajudam no planejamento futuro?

Os resultados obtidos com o estudo da camada de gelo da Antártida Ocidental oferecem subsídios para que governos, cidades e setores econômicos planejem melhor a adaptação ao aumento do nível do mar. Ao combinar informações históricas dos sedimentos com medições atuais e simulações, torna se possível estimar faixas mais realistas de elevação para as próximas décadas e séculos.

Esse conhecimento apoia decisões sobre obras de proteção costeira, zoneamento urbano e investimentos em infraestrutura crítica. Além disso, reforça a importância de monitorar continuamente a região antártica com novas campanhas de perfuração, observações por satélite e redes de instrumentos, garantindo informações atualizadas para avaliar riscos e definir estratégias de longo prazo diante das mudanças climáticas em andamento.

Tags: AntártidaCiênciaNatureza

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