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Início Curiosidades Históricas

A muralha de 15 km no cerrado que parece obra humana, mas tem 130 milhões de anos e origem vulcânica

Laila Por Laila
05 abril 2026 21:15
Em Curiosidades Históricas
No interior de Goiás, uma formação rochosa de 15 quilômetros de extensão desafia o olhar de qualquer visitante

No interior de Goiás, uma formação rochosa de 15 quilômetros de extensão desafia o olhar de qualquer visitante

No interior de Goiás, uma formação rochosa de 15 quilômetros de extensão desafia o olhar de qualquer visitante. Blocos de basalto negro dispostos em alinhamento regular, uma substância escura entre as juntas e décadas de teorias sobre civilizações perdidas: a Muralha de Ferro de Paraúna é um dos enigmas geológicos mais fascinantes do Cerrado brasileiro, e a explicação científica é tão impressionante quanto o mistério que a cercou por décadas.

O que é a Muralha de Ferro de Paraúna e onde ela fica no cerrado goiano?

Conhecida como Muralha de Ferro ou Muralha de Pedra, a formação está localizada no município de Paraúna, na região oeste de Goiás, dentro da Área de Proteção Ambiental da Serra das Galés e da Portaria (APA) e do Parque Estadual de Paraúna (PEPa).

A região apresenta altitudes entre 690 e 890 metros acima do nível do mar. O parque funciona diariamente das 7h às 17h, sem necessidade de guias, e a muralha é hoje o principal atrativo do local para o turismo científico e de natureza no interior goiano.

Conhecida como Muralha de Ferro ou simplesmente Muralha de Pedra, a formação está localizada no município de Paraúna, na região oeste de Goiás

Leia também: Arqueólogos descobrem muralha de 7.000 anos submersa no Atlântico

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Por que a muralha alimentou tantas teorias sobre a origem humana durante décadas?

O alinhamento notavelmente regular dos blocos de rocha estimulou interpretações que iam muito além da geologia. As teorias mais populares sobre a origem da estrutura incluíam:

  • Divisória territorial indígena: parte dos pesquisadores acreditou que a estrutura foi construída por povos pré-colombianos como barreira entre territórios
  • Fronteira entre incas e maias: hipótese amplamente difundida, mas geograficamente improvável, já que nenhuma dessas civilizações habitou o Cerrado goiano
  • Óleo de baleia como cimento: a presença de uma substância escura e viscosa entre as juntas alimentou a teoria de que a muralha teria sido cimentada com gordura de cetáceo por mãos humanas
“Óleo de baleia” como cimento: a presença de uma substância escura e viscosa entre as juntas das rochas alimentou a teoria de que a muralha teria sido cimentada com gordura de cetáceo por mãos humanas

O que os geólogos descobriram sobre a verdadeira origem da muralha do cerrado?

Em março de 2026, o pesquisador e geólogo Silas Gonçalves apresentou a explicação científica mais fundamentada até hoje. Segundo ele, a muralha não foi construída por humanos: sua origem é inteiramente natural e remonta a entre 135 e 130 milhões de anos atrás, durante um dos maiores eventos vulcânicos continentais já registrados na história geológica do planeta.

Esse evento originou a Província Magmática Paraná, responsável pela emissão de grandes volumes de lava basáltica que recobriram extensas áreas do sul e centro do Brasil. A província se formou quando o supercontinente Gondwana se fragmentou e o Oceano Atlântico Sul começou a se abrir, no processo que separou a América do Sul da África.

Para mostrar como é a experiência de visitar a muralha na prática, o canal Vida de Mochila, com mais de 308 mil inscritos especializados em viagem e turismo de aventura, publicou um episódio completo em Paraúna, explorando a formação rochosa, as lendas locais e as outras atrações do parque:

Quais são os processos geológicos que explicam a formação da muralha?

O geólogo Silas Gonçalves identificou cinco processos combinados que, ao longo de dezenas de milhões de anos, resultaram na estrutura que vemos hoje:

  • Derrames basálticos cretáceos: grandes volumes de lava recobriram a região durante o período Cretáceo, formando a base da muralha
  • Fraturamento térmico do basalto: durante o resfriamento da lava, a rocha se contraiu e criou fraturas características chamadas de juntas de resfriamento
  • Fraturas poliédricas: essas juntas dividiram o basalto em blocos de aspecto geométrico regular, que dão à muralha sua aparência de construção intencional
  • Controle estrutural de lineamento geológico: falhas geológicas nas direções NE e NW orientaram o alinhamento linear da formação
  • Erosão diferencial: as rochas sedimentares mais frágeis ao redor foram desgastadas pelo tempo, enquanto o basalto resistente permaneceu em destaque
Derrames basálticos cretáceos: grandes volumes de lava recobriram a região durante o período Cretáceo, formando a base da muralha

O que é a substância escura entre as rochas, se não é óleo de baleia?

Danilo Lessa, coordenador da unidade de conservação do Parque Estadual de Paraúna, esclareceu que a afirmação sobre o óleo de baleia partiu de um livro antigo sobre o local, sem base científica. A substância escura entre as juntas é, na verdade, um dique de diabásio, rocha formada quando o magma preencheu as fissuras da muralha e se solidificou no interior das fendas.

O diabásio é uma rocha ígnea intrusiva de granulometria fina, muito semelhante ao basalto. O que parecia um cimento misterioso aplicado por mãos humanas é, na leitura científica, mais um registro do mesmo evento geológico que criou a formação inteira.

Uma estrutura de 130 milhões de anos que resiste ao tempo e às explicações fáceis

A Muralha de Ferro de Paraúna sobreviveu à fragmentação de um supercontinente, à abertura de um oceano e a décadas de teorias equivocadas sobre sua origem. Com 15 km de extensão e 130 milhões de anos de história, ela é a prova de que a natureza é capaz de criar estruturas que desafiam até o olhar mais treinado.

E mesmo com a ciência oferecendo respostas, a muralha continua sendo um espetáculo que impressiona quem a visita no cerrado goiano. Blocos de basalto negro alinhados por forças que agiram há milhões de anos têm um poder de fascínio que nenhuma explicação geológica consegue diminuir.

Tags: arqueologiaCuriosidadeshistória

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