No interior de Goiás, uma formação rochosa de 15 quilômetros de extensão desafia o olhar de qualquer visitante. Blocos de basalto negro dispostos em alinhamento regular, uma substância escura entre as juntas e décadas de teorias sobre civilizações perdidas: a Muralha de Ferro de Paraúna é um dos enigmas geológicos mais fascinantes do Cerrado brasileiro, e a explicação científica é tão impressionante quanto o mistério que a cercou por décadas.
O que é a Muralha de Ferro de Paraúna e onde ela fica no cerrado goiano?
Conhecida como Muralha de Ferro ou Muralha de Pedra, a formação está localizada no município de Paraúna, na região oeste de Goiás, dentro da Área de Proteção Ambiental da Serra das Galés e da Portaria (APA) e do Parque Estadual de Paraúna (PEPa).
A região apresenta altitudes entre 690 e 890 metros acima do nível do mar. O parque funciona diariamente das 7h às 17h, sem necessidade de guias, e a muralha é hoje o principal atrativo do local para o turismo científico e de natureza no interior goiano.

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Por que a muralha alimentou tantas teorias sobre a origem humana durante décadas?
O alinhamento notavelmente regular dos blocos de rocha estimulou interpretações que iam muito além da geologia. As teorias mais populares sobre a origem da estrutura incluíam:
- Divisória territorial indígena: parte dos pesquisadores acreditou que a estrutura foi construída por povos pré-colombianos como barreira entre territórios
- Fronteira entre incas e maias: hipótese amplamente difundida, mas geograficamente improvável, já que nenhuma dessas civilizações habitou o Cerrado goiano
- Óleo de baleia como cimento: a presença de uma substância escura e viscosa entre as juntas alimentou a teoria de que a muralha teria sido cimentada com gordura de cetáceo por mãos humanas

O que os geólogos descobriram sobre a verdadeira origem da muralha do cerrado?
Em março de 2026, o pesquisador e geólogo Silas Gonçalves apresentou a explicação científica mais fundamentada até hoje. Segundo ele, a muralha não foi construída por humanos: sua origem é inteiramente natural e remonta a entre 135 e 130 milhões de anos atrás, durante um dos maiores eventos vulcânicos continentais já registrados na história geológica do planeta.
Esse evento originou a Província Magmática Paraná, responsável pela emissão de grandes volumes de lava basáltica que recobriram extensas áreas do sul e centro do Brasil. A província se formou quando o supercontinente Gondwana se fragmentou e o Oceano Atlântico Sul começou a se abrir, no processo que separou a América do Sul da África.
Para mostrar como é a experiência de visitar a muralha na prática, o canal Vida de Mochila, com mais de 308 mil inscritos especializados em viagem e turismo de aventura, publicou um episódio completo em Paraúna, explorando a formação rochosa, as lendas locais e as outras atrações do parque:
Quais são os processos geológicos que explicam a formação da muralha?
O geólogo Silas Gonçalves identificou cinco processos combinados que, ao longo de dezenas de milhões de anos, resultaram na estrutura que vemos hoje:
- Derrames basálticos cretáceos: grandes volumes de lava recobriram a região durante o período Cretáceo, formando a base da muralha
- Fraturamento térmico do basalto: durante o resfriamento da lava, a rocha se contraiu e criou fraturas características chamadas de juntas de resfriamento
- Fraturas poliédricas: essas juntas dividiram o basalto em blocos de aspecto geométrico regular, que dão à muralha sua aparência de construção intencional
- Controle estrutural de lineamento geológico: falhas geológicas nas direções NE e NW orientaram o alinhamento linear da formação
- Erosão diferencial: as rochas sedimentares mais frágeis ao redor foram desgastadas pelo tempo, enquanto o basalto resistente permaneceu em destaque

O que é a substância escura entre as rochas, se não é óleo de baleia?
Danilo Lessa, coordenador da unidade de conservação do Parque Estadual de Paraúna, esclareceu que a afirmação sobre o óleo de baleia partiu de um livro antigo sobre o local, sem base científica. A substância escura entre as juntas é, na verdade, um dique de diabásio, rocha formada quando o magma preencheu as fissuras da muralha e se solidificou no interior das fendas.
O diabásio é uma rocha ígnea intrusiva de granulometria fina, muito semelhante ao basalto. O que parecia um cimento misterioso aplicado por mãos humanas é, na leitura científica, mais um registro do mesmo evento geológico que criou a formação inteira.
Uma estrutura de 130 milhões de anos que resiste ao tempo e às explicações fáceis
A Muralha de Ferro de Paraúna sobreviveu à fragmentação de um supercontinente, à abertura de um oceano e a décadas de teorias equivocadas sobre sua origem. Com 15 km de extensão e 130 milhões de anos de história, ela é a prova de que a natureza é capaz de criar estruturas que desafiam até o olhar mais treinado.
E mesmo com a ciência oferecendo respostas, a muralha continua sendo um espetáculo que impressiona quem a visita no cerrado goiano. Blocos de basalto negro alinhados por forças que agiram há milhões de anos têm um poder de fascínio que nenhuma explicação geológica consegue diminuir.







