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Início Ciência

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista descobriram o efeito da borra de café no Aedes aegypti

Jeferson Henrique Por Jeferson Henrique
11 abril 2026 15:00
Em Ciência
Ilustração demonstrando o uso de borra de café para o controle de larvas em recipientes.

Ilustração demonstrando o uso de borra de café para o controle de larvas em recipientes.

A borra de café, descartada todos os dias em milhões de lares brasileiros, pode ser mais útil do que parece. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista investigaram o efeito desse resíduo sobre larvas do Aedes aegypti, o mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, e os resultados abriram caminho para uma discussão séria sobre controle vetorial com materiais acessíveis e de baixo custo.

O que os pesquisadores da Unesp encontraram nos experimentos?

Os estudos conduzidos pela Universidade Estadual Paulista avaliaram a exposição de larvas do Aedes aegypti a suspensões com borra de café em diferentes concentrações. Os resultados mostraram que a concentração de 300 mg/ml produziu mortalidade larval de 100% em até nove dias após o preparo da solução. O efeito foi observado tanto em experimentos nos quais as larvas tinham contato direto com o depósito de borra no fundo dos recipientes quanto naqueles em que o contato se dava apenas com a parte líquida da suspensão.

Esse dado é relevante porque sugere que a ação larvicida não depende exclusivamente do contato físico com as partículas sólidas. Os compostos bioativos presentes na borra, em especial a cafeína e os diterpenos como cafestol e kahweol, se dissolvem parcialmente na água e mantêm atividade mesmo sem contato direto com o resíduo sólido.

Por que a cafeína afeta o desenvolvimento do mosquito?

A cafeína é um alcaloide que as plantas do gênero Coffea produzem naturalmente como mecanismo de defesa contra insetos herbívoros. No sistema nervoso dos insetos, ela age de forma diferente do que age em mamíferos: em vez de estimular, pode paralisar ou matar dependendo da dose e da espécie exposta. No caso do Aedes aegypti, estudos publicados no periódico Environmental Pollution mostraram que concentrações subletais de borra de café já são suficientes para reduzir a atividade locomotora das larvas, atrasar o desenvolvimento e encurtar a vida adulta dos mosquitos que conseguem emergir.

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Uso da borra de café para evitar larvas de mosquito em recipientes
Uso da borra de café para evitar larvas de mosquito em recipientes

A borra queimada tem algum efeito sobre mosquitos adultos?

Esse ponto exige precisão. A evidência científica sobre a borra queimada como repelente de mosquitos adultos é muito mais limitada do que a evidência sobre seu efeito larvicida. O que existe é um mecanismo plausível: a fumaça produzida pela queima mascara os sinais olfativos que o Aedes aegypti usa para localizar hospedeiros, principalmente o dióxido de carbono e os compostos orgânicos voláteis emitidos pela pele humana. É o mesmo princípio que faz a vela de citronela funcionar como repelente de ambiente.

  • Efeito larvicida: respaldado por estudos laboratoriais publicados em periódicos científicos, com resultados consistentes em diferentes concentrações
  • Efeito repelente sobre adultos por contato ou odor: suportado por estudos do NCBI que mostram que fêmeas do Aedes albopictus evitam desovar em água com borra de café
  • Efeito repelente por fumaça: mecanismo plausível, mas sem estudos controlados que isolem o efeito da borra queimada de outros fatores como o calor e a fumaça em si
  • Eliminação de colônias adultas: sem respaldo científico, independentemente do método de aplicação

Como usar a borra de café no controle do Aedes aegypti em casa?

A aplicação mais fundamentada cientificamente é o uso da borra em recipientes que poderiam acumular água e servir como criadouros. Adicionar borra de café usada à água parada em pratos de vasos, calhas e outros pontos de acúmulo cria um ambiente hostil para a postura e o desenvolvimento larval. A concentração necessária para efeito real é alta, o que limita o uso a pontos específicos, não ao jardim inteiro.

  • Pratos de vasos: adicionar uma colher de sopa de borra seca à água que se acumula abaixo dos vasos reduz a atratividade do local para a postura
  • Recipientes decorativos com água: a borra altera a aparência e o pH da água, tornando o ambiente menos favorável ao desenvolvimento larval
  • Bordas de canteiros: a borra seca espalhada ao redor de plantas pode dificultar o acesso de insetos rasteiros, embora esse efeito seja secundário no contexto do Aedes
  • Queima em ambientes externos: pode contribuir para reduzir a presença de mosquitos adultos em áreas abertas, pelo efeito da fumaça, mas não substitui repelentes registrados para uso pessoal

Quais outros estudos investigaram a borra de café contra o Aedes aegypti?

Além da Universidade Estadual Paulista, pesquisadores de outras instituições reforçaram o interesse científico no tema. A Universidade de Otago, na Nova Zelândia, testou a toxicidade da borra de café contra mosquitos de criadouros em recipientes. A Mahidol University, na Tailândia, publicou em 2023 resultados sobre a combinação de borra molhada com o inseticida novaluron, mostrando efeito sinérgico na mortalidade larval do Aedes aegypti. Um estudo publicado no periódico Environmental Pollution por pesquisadores brasileiros demonstrou ainda que tanto a borra comum quanto a descafeinada afetam a sobrevivência e a morfologia do intestino médio das larvas, com mecanismos distintos dependendo da presença de cafeína.

Qual é o limite real dessa abordagem no combate à dengue?

A borra de café não é inseticida registrado, não elimina colônias estabelecidas e não substitui as medidas convencionais de controle vetorial. O que a pesquisa mostra é um potencial larvicida real em condições laboratoriais, com resultados que justificam mais estudos em campo. Para o uso doméstico, ela funciona melhor como complemento a práticas já consolidadas: eliminar água parada, tampar caixas d’água, descartar pneus e outros recipientes que acumulam água. A contribuição da borra de café está em transformar um resíduo inevitável do café do dia a dia em mais uma barreira no ciclo de desenvolvimento do Aedes aegypti, especialmente nos criadouros menores e mais difíceis de eliminar completamente.

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