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Início Comportamento

Você pratica boomerasking sem perceber? A psicologia de Harvard explica por que esse hábito afasta as pessoas

Laila Por Laila
18 abril 2026 08:45
Em Comportamento
Você já fez uma pergunta a alguém e, segundos depois, percebeu estar só esperando a vez de falar de si mesmo?

Você já fez uma pergunta a alguém e, segundos depois, percebeu estar só esperando a vez de falar de si mesmo?

Você já fez uma pergunta a alguém e, segundos depois, percebeu estar só esperando a vez de falar de si mesmo? Esse hábito tem nome: boomerasking. Uma pesquisa da Harvard Business School descobriu que mais de 90% das pessoas já praticaram esse comportamento, e ele faz você parecer menos sincero do que se simplesmente tivesse falado de si desde o início.

O que é boomerasking e como a pesquisadora de Harvard criou o conceito?

O termo foi criado por Alison Wood Brooks, professora de psicologia da Harvard Business School, como contração das palavras boomerang e asking (perguntar, em inglês). O conceito descreve um padrão conversacional específico: fazer uma pergunta ao interlocutor, deixá-lo responder brevemente e redirecionar a conversa para si mesmo, como um bumerangue que sempre volta ao ponto de partida.

Conforme o estudo publicado no Journal of Experimental Psychology, liderado por Brooks e pelo pesquisador Michael Yeomans, a pesquisa envolveu mais de 1.500 participantes e mapeou a frequência, os tipos e as consequências sociais do comportamento. Os resultados foram expressivos: mais de 90% dos participantes admitiram já ter praticado o boomerasking e uma proporção semelhante disse já ter sido alvo dele.

O conceito descreve um padrão conversacional específico: fazer uma pergunta ao interlocutor, deixá-lo responder brevemente e redirecionar a conversa para si mesmo, como um bumerangue que sempre volta ao ponto de partida

Leia também: A psicologia revela que o hábito de falar sozinho melhora o foco, a memória e a capacidade de resolver problemas

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Os três tipos de boomerasking identificados no estudo

Os pesquisadores identificaram três subtipos com base no tom da autorrevelação que se segue à pergunta. Cada um revela o mesmo padrão subjacente: a pergunta não é feita por interesse genuíno no outro, mas como trampolim para falar de si mesmo.

A tabela abaixo organiza os três tipos de boomerasking com exemplos concretos de como cada um aparece nas conversas do dia a dia:

TipoComo funcionaExemplo
Pergunta-alarde (ask-bragging)A pergunta serve de pretexto para revelar algo positivo sobre si mesmo“Você viajou nas férias?” → “Eu fui a Paris!”
Pergunta-queixa (ask-complaining)A pergunta abre espaço para uma reclamação pessoal“Como foi sua reunião?” → “A minha foi um desastre total, como sempre”
Pergunta-compartilhar (ask-sharing)A pergunta introduz uma revelação neutra ou cotidiana“Você tem irmãos?” → “Eu tenho duas irmãs”

Por que fazer a pergunta antes é pior do que falar de si mesmo direto?

Esse é o dado mais contraintuitivo do estudo: pessoas que praticam boomerasking foram avaliadas como menos sinceras e menos simpáticas do que aquelas que simplesmente falaram de si mesmas desde o início, sem o disfarce da pergunta. A lógica é reveladora: iniciar com uma pergunta parece uma concessão educada ao interlocutor, mas quando a intenção real é outra, o efeito se inverte.

Conforme análise publicada pela Psychology Today, perguntas específicas e fechadas, como “O que você achou do novo gerente?”, são percebidas como mais insinceras do que perguntas abertas, como “Como está o trabalho?”. Quanto mais direcionada a pergunta, mais clara fica a intenção de usá-la como gancho para a própria resposta.

Quanto mais direcionada a pergunta, mais clara fica a intenção de usá-la como gancho para a própria resposta

Como o boomerasking corrói os relacionamentos silenciosamente

O padrão repetido raramente gera confronto direto, mas deixa marcas. O interlocutor registra internamente a sensação de ocupar um papel secundário na conversa, como se existisse apenas para servir de plateia. Com o tempo, essa percepção reduz a vontade de compartilhar algo genuíno, gera desconfiança sobre a sinceridade das perguntas futuras e afasta emocionalmente as pessoas, mesmo que as interações continuem acontecendo.

Para quem pratica o boomerasking, o efeito colateral é igualmente prejudicial: o hábito reforça, inconscientemente, a crença de que as próprias experiências são mais relevantes do que as dos outros. Nas redes sociais, o padrão aparece de forma ainda mais explícita, em comentários que respondem superficialmente ao post alheio e rapidamente derivam para uma longa autorrevelação.

Como identificar se você pratica esse hábito nas conversas

A própria pesquisadora Brooks oferece uma solução prática: faça perguntas que você não consiga responder sobre si mesmo. Perguntas sobre experiências únicas do outro, como “Como foi a sua primeira semana morando fora?”, naturalmente não abrem espaço para um bumerangue de volta ao próprio interlocutor.

Outros sinais para autoavaliação:

  • Ao fazer uma pergunta, você já está pensando na sua própria resposta antes de ouvir a do outro?
  • Você espera apenas o tempo mínimo de cortesia antes de começar a falar de você mesmo?
  • Você faz perguntas mais fechadas quando quer um gancho rápido para a sua própria história?
  • Ao final de uma conversa, você sabe mais sobre si mesmo do que sobre a outra pessoa?
Ao final de uma conversa, você sabe mais sobre si mesmo do que sobre a outra pessoa?

A escuta genuína como antídoto para o boomerasking

O boomerasking surge da tensão entre dois impulsos humanos simultâneos: o desejo de ser atencioso com o interlocutor e o desejo de compartilhar as próprias experiências. O problema não é querer falar de si mesmo. O problema é usar uma pergunta como disfarce para fazer isso, porque as pessoas detectam a falta de atenção genuína de forma quase instintiva.

A escuta ativa sem agenda continua sendo o recurso mais eficaz para conversas que constroem vínculos reais. Não se trata de silenciar a própria experiência, mas de oferecer à pergunta o que ela promete: interesse genuíno em ouvir a resposta antes de qualquer outra coisa.

Tags: comportamentopsicologiarelacionamentos

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