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Início Animais de Estimação

Pinguins viraram tema de prêmio científico ao mostrar que até o cocô pode obedecer às leis da física

Laila Por Laila
06 maio 2026 17:15
Em Animais de Estimação
Pinguim dispara guano longe do ninho limpo no gelo da Antártida

Pinguim dispara guano longe do ninho limpo no gelo da Antártida

Pode parecer apenas uma curiosidade engraçada, mas o cocô dos pinguins virou assunto sério na ciência. O jato que essas aves lançam para longe do ninho ajuda a proteger ovos e filhotes, rendeu o Prêmio Ig Nobel e ainda aparece em estudos sobre o clima da Antártida.

Por que os pinguins disparam o cocô para longe do ninho?

Durante o período de incubação, os pinguins ficam imóveis sobre os ovos por semanas. Levantar não é opção: a temperatura extrema da Antártida e a presença de predadores tornam qualquer descuido fatal para o ovo. Para não contaminar o espaço onde o filhote vai nascer, a natureza equipou essas aves com uma musculatura retal capaz de expelir os excrementos com força e direção.

O jato voa para longe do corpo como um projétil, mantendo o ninho completamente limpo. Não é acidente: é uma adaptação evolutiva diretamente ligada à saúde do filhote.

  • Os ovos levam de cinco a seis semanas para eclodir e não podem ficar desprotegidos
  • Os pais se revezam na incubação; quando um sai para comer, o outro assume o posto
  • Ao precisar defecar durante o turno, o pinguim dispara o jato para fora do ninho
  • O comportamento reduz o risco de infecções e parasitas no ambiente do filhote
Pinguim protege ovo em ninho limpo com guano afastado na neve

Leia também: A 4.000 metros de profundidade no Pacífico, pesquisadores acharam 24 animais que a ciência nunca tinha visto

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Qual foi o estudo que mediu a pressão retal dos pinguins?

Em 2003, os biólogos Victor Benno Meyer-Rochow e Jozsef Gal publicaram um artigo dedicado inteiramente a calcular a força com que essas aves defecam. Usando fotografias e as propriedades físicas do guano (a mistura de fezes e urina das aves), eles estimaram que a pressão retal pode chegar a cerca de 50 kPa, mais de o triplo da pressão arterial humana.

O artigo, publicado na revista Polar Biology, era tecnicamente rigoroso, mas o tema inusitado rendeu aos autores o Prêmio Ig Nobel de Física de 2005, concedido todo ano para pesquisas que “primeiro fazem rir, depois fazem refletir”.

Como os pesquisadores calcularam a trajetória do cocô dos pinguins?

Em 2020, dois pesquisadores japoneses foram além e calcularam a trajetória exata do guano no ar, aplicando as mesmas equações que descrevem o voo de uma bola. O estudo concluiu que um pinguim consegue disparar o cocô a até 1,34 metro de distância, considerando o ângulo e a força de expulsão.

O objetivo prático era ajudar tratadores de zoológicos e aquários a calcular o espaço de segurança necessário durante o trabalho diário com as aves, evitando contato involuntário com o guano.

O guano pode ser visto do espaço?

O guano tem coloração avermelhada por causa do krill, pequeno crustáceo que forma a base da dieta dessas aves. Esse tom contrasta com o gelo branco da Antártida de forma tão intensa que as manchas são visíveis em imagens de satélite.

Pesquisadores usam essas marcas para localizar colônias e monitorar variações populacionais causadas pelo aquecimento global. Em 2018, o método levou à descoberta de uma colônia desconhecida nas Ilhas Danger, na Antártida, com cerca de 1,5 milhão de pinguins-de-Adélia.

  • Imagens de satélite captam manchas avermelhadas no gelo causadas pelo acúmulo de guano
  • O método permite monitorar colônias em áreas remotas sem expedições físicas de campo
  • A coloração vem do krill ingerido, que tinge os excrementos de vermelho-alaranjado
Mapa mostra guano de pinguins nas Ilhas Danger visto por satélite

O cocô influencia o clima da Antártida?

Um estudo publicado no ano passado na revista Communications Earth and Environment, do grupo Nature, mostrou que o guano libera amônia no ar. Esse gás se combina com compostos emitidos pelo fitoplâncton e contribui para a formação de nuvens sobre o continente. Essas nuvens refletem a luz solar e ajudam a manter a temperatura da Antártida mais baixa.

O que começa como um instinto de higiene termina influenciando as nuvens acima de um continente inteiro. O caso dos pinguins lembra que as perguntas mais estranhas da ciência costumam levar às respostas mais reveladoras.

Tags: BiologiaNaturezavida animal

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