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Início Ciência

O vulcão submerso no Pacífico canadense que usa calor geotérmico para proteger milhões de ovos de raias

Laila Por Laila
03 junho 2026 06:55
Em Ciência
Vulcão submarino ativo no Pacífico canadense aquece o fundo do mar

Vulcão submarino ativo no Pacífico canadense aquece o fundo do mar

No fundo do mar, um vulcão aparentemente inativo pode funcionar como abrigo para a vida. No Pacífico canadense, perto da Ilha de Vancouver, pesquisadores encontraram um berçário natural com cerca de 2,6 milhões de ovos de raias.

Por que o vulcão submerso surpreendeu os pesquisadores?

O monte submarino fica em uma área profunda da costa oeste do Canadá e se eleva cerca de 1,1 quilômetro acima do fundo marinho. Por muito tempo, a estrutura foi tratada como antiga, fria e sem atividade geotérmica relevante.

Essa leitura mudou em 2019, quando uma equipe ligada ao Fisheries and Oceans Canada, liderada pela bióloga marinha Cherisse Du Preez, investigou o local com robôs subaquáticos. No topo, apareceram fontes termais ativas, calor e uma concentração incomum de ovos gigantes.

Mapa batimétrico mostra monte vulcânico profundo perto de Vancouver

Leia também: Vulcão remoto desperta após 700 mil anos de silêncio adormecido

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Como o calor geotérmico protege ovos de raias?

Nas águas frias dessa profundidade, o desenvolvimento da raia-branca-do-Pacífico é extremamente lento. Os embriões podem levar até 10 anos para completar a formação, um tempo longo demais em um ambiente de baixa temperatura, alta pressão e pouca energia disponível.

O calor das fontes termais muda essa condição. Ao aquecer o cume, o vulcão cria uma espécie de incubadora natural, reduzindo parte da dificuldade imposta pelo frio e oferecendo às raias uma vantagem rara para reproduzir no fundo do mar.

Corte do vulcão mostra calor subindo por fraturas no basalto

Por que o berçário no vulcão foge da escala conhecida?

Cada ovo mede aproximadamente 50 centímetros e tem formato alongado, conhecido na tradição marinheira como bolsa de sereia. O que torna o achado excepcional não é apenas o tamanho dos ovos, mas a quantidade concentrada em um único ponto.

Segundo o Earth.com, o local reúne cerca de 2,6 milhões de ovos. Antes disso, um berçário conhecido no Oceano Pacífico, perto das Ilhas Galápagos, tinha entre 12 e 20 ovos, uma diferença que mostra a escala incomum da descoberta.

Além das raias, o cume aquecido revelou um ecossistema mais diverso do que se esperava:

  • Corais de águas profundas e esponjas presos às rochas do cume.
  • Camarões e polvos em densidades incomuns para aquela profundidade.
  • Peixes usando as condições geotérmicas como parte do habitat.
  • Estruturas vulcânicas servindo de base para organismos fixados no fundo.
Cume vulcânico com basalto, fontes termais e vida fixada nas rochas

O que a raia-branca-do-Pacífico revela sobre reprodução lenta?

A raia-branca-do-Pacífico depende de áreas seguras para postura porque seu ciclo reprodutivo é lento. Quando milhões de ovos aparecem em um ponto específico, o local deixa de ser apenas uma formação geológica curiosa e passa a ter peso direto na sobrevivência da espécie.

Os pesquisadores também registraram pela primeira vez uma raia-branca-do-Pacífico colocando ovos no ambiente natural. Esse comportamento reforça a hipótese de que o calor geotérmico não é detalhe secundário, mas parte do motivo pelo qual as fêmeas escolhem esse ponto profundo do oceano.

Por que o vulcão ainda preocupa cientistas?

Apesar da importância ecológica, o monte submarino ainda não tem proteção legal específica. Isso preocupa porque a pesca comercial de profundidade, especialmente por arrasto, poderia danificar o cume, remover organismos fixos e destruir ovos em grande escala.

A preocupação da equipe de Cherisse Du Preez se concentra em três pontos:

  • Ciclo reprodutivo lento: a espécie depende de áreas estáveis para completar o desenvolvimento dos embriões.
  • Concentração excepcional: milhões de ovos estão reunidos em um espaço limitado.
  • Dano difícil de reverter: a destruição do cume poderia causar perda relevante em escala humana de tempo.

O que esse vulcão muda na leitura do fundo do mar?

A descoberta mostra que estruturas vistas como antigas ou inativas ainda podem sustentar processos vitais nas profundezas. No Pacífico canadense, o calor que sobe pelas rochas transforma um ambiente frio em refúgio reprodutivo para uma espécie de crescimento lento.

O caso também aproxima geologia e biologia de forma clara. Um vulcão que parecia apenas uma forma rochosa no fundo do oceano revelou milhões de sinais de continuidade da vida, protegidos em cápsulas silenciosas onde quase ninguém esperava encontrar um berçário.

Tags: Ciênciageologiavulcões

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