publicidade
Política

A tirania do delírio

A criminalização do real revela um novo tipo de autoritarismo: o que pune quem enxerga o óbvio

escala 6x1 erika hilton
Erika Hilton costuma processar quem é contra a militância transativista | Foto: Antonio Araújo/Câmara dos Deputados

“A sabedoria começa quando damos às coisas os nomes certos” (Confúcio)

“Ninguém está obrigado a participar da crise espiritual de uma sociedade; ao contrário, todos estão obrigados a evitar a loucura e viver sua vida em ordem” (Eric Voegelin)

Receba nossas atualizações

O Brasil conseguiu enfim realizar o velho sonho dos ideólogos de esquerda: criminalizar o real. O caso da ativista processada por afirmar a obviedade de que “mulheres trans não são mulheres” mostra até que ponto o delírio se institucionalizou. Já não se trata de uma disputa semântica, mas da tentativa de substituir o princípio de realidade pelo da fantasia compulsória. Todos estão obrigados a tomar parte na negação da realidade.

O episódio é exemplar dos tempos atuais, em que, por todo o globo, o vírus mental da filosofia “crítica” e dos movimentos políticos que surgiram dessa patologia da consciência penetrou no cérebro dos homens com poder. Aquilo que antes era apenas um disparate acadêmico — o “gênero” entendido como construção ilimitada — tornou-se critério jurídico e dogma de Estado. Hoje, já não basta que o sujeito declare sentir-se mulher. É preciso que todos, inclusive o Estado, passem a participar desse delírio de auto-interpretação (como diria o psiquiatra francês Paul Sérieux). Quem não o faz com a devida unção ideológica é declarado inimigo, réu, ou ambas as coisas.

+ Leia notícias de Política em Oeste

Como mostrei em textos anteriores (ver, por exemplo, este e este outro), o transativismo, longe de ser movimento emancipatório, converteu-se em uma forma particularmente agressiva de controle social. Sua lógica é a do totalitarismo cultural: impor, sob o pretexto de inclusão, a censura moral de uma minoria militante sobre o restante da sociedade. E, mais que apenas essa censura moral, o objetivo primeiro é — nas palavras de Susan Stryker, umas das principais ideólogas do transativismo — “subverter o paradigma espistemológico do Ocidente”, segundo o qual o ser e o parecer não são a mesma coisa.

Resta que a loucura, quando apoiada por decreto, deixa de ser um sintoma e vira um sistema. É exatamente o que hoje presenciamos: uma aliança entre burocracia, tribunais e polícia para sancionar o que se pode ou não dizer sobre a mais elementar das realidades — a diferença sexual. A velha distinção entre verdade e mentira foi substituída por outra, mais conveniente, entre discurso autorizado e discurso proibido. E aquilo que há alguns anos pareceria advir de ficções distópicas, hoje materializa-se com a polícia indo bater na porta de quem enuncie proposições subversivas tais como “a grama é verde”, “dois mais dois é igual a quatro” e “uma pessoa não muda de sexo (ou de espécie) apenas por um ato de vontade”.

Dizer que um homem não é uma mulher tornou-se ato de coragem cívica. A verdade, reduzida a crime, volta a ter a dignidade de um martírio. Vivemos o triunfo da inversão moral que Orwell previra: o Ministério da Verdade agora opera em nome da empatia, e o dever de mentir passou a ser sinal de virtude.

Entre a covardia dos que se calam e o risco dos que insistem em chamar as coisas pelos seus nomes, o futuro da liberdade talvez dependa apenas disso — da obstinação em permanecer são num mundo que decidiu institucionalizar a loucura.

Leia mais sobre:

4 comentários
  1. IVAN SEVERO DA SILVA
    IVAN SEVERO DA SILVA

    Não sou psicólogo, tampouco psiquiatra porém posso afirmar ,que é complicado você nascer homem e se olhar no espelho,e se achar mulher .
    Freud talvez possa explicar isso , e vendo certas atitudes “povo ” eu acho que um bom psiquiatra ajudaria e muito .🤪🥴🌈

  2. Julio José Pinto Eira Velha
    Julio José Pinto Eira Velha

    O cara pode sentir o que bem entender, mas nunca vi uma mulher que tem o pomo de Adão como Erika Hilton.

  3. Carlos Henrique Soares
    Carlos Henrique Soares

    Nisso que dá esquerdizar o país, só mi mi mi!!!!!

Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade