Artigo: ‘Ninguém escreve ao coronel’

Este conteúdo é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência
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Dois dias depois de descobrir que não tinha metade mais um indivíduo do eleitorado para chamar de seu, o coronel teve uma crise
Dois dias depois de descobrir que não tinha metade mais um indivíduo do eleitorado para chamar de seu, o coronel teve uma crise | Foto: Roberto Casimiro/FotoArena/Estadão Conteúdo

(O título, em tradução livre, é inspirado na obra El Coronel no Tiene Quien Le Escriba, de Gabriel García Márquez, dos anos 1960. A leitura do original vale a pena)

Dois dias depois de descobrir que não tinha metade mais um indivíduo do eleitorado para chamar de seu, o coronel teve uma crise. Imediatamente, correu para o WhatsApp em busca de aliados. Um subordinado que nunca se recuperou do estresse pós-traumático de 2016, quando foi derrotado no primeiro turno pela primeira vez na História em São Paulo, e dobrou a crise em 2018, alertou:

— Vamos perder na maior ilha do território. Os inimigos já eram maioria e agora têm o apoio do antigo governo. Minas, Rio de Janeiro e o Paraná estão com eles.

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O coronel irritou-se:

— Chame a força dissidente!

Minutos depois chega a mensagem.

— Coronel, conseguimos o Alexandre Frota! Ele teve 24 mil votos!

Outro auxiliar grita ao fundo:
— O José Serra, José Aníbal, Fernando Henrique, Aloysio Nunes Ferreira, todo aquele pessoal do nosso teatro das tesouras! O Tasso Jereissati, lá de cima, até prometeu enviar algum reforço do Ceará, mas a equipe inteira está sem combustível.

Furioso, o coronel pergunta sobre as tropas de Simone Estepe, Strebe, enfim… “A que teve 5% dos votos no país inteiro.” O assessor responde:

— Ela vai sair na foto, sim. Mas tem o peso do agronegócio em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Goiás e Distrito Federal. O pessoal do trator não apoia a gente não, porque o senhor chamou eles de fascistas. Mas se bem que a Simone sempre pode dizer que foi “agredida” na campanha pelo ‘bolsonarismo’ misógino, o macho opressor.

— Qual é o partido dela mesmo? Chama o Romero Jucá para uma reunião de líderes do MDB, diz o coronel.

— O Jucá não entrou de novo…

— Calma! Ainda temos as nossas bases, os sindicatos. Chame o Paulinho da Força!

— Coronel, ele também não foi eleito.

Impassível, o coronel lembra do Psol, do Alckmin e da Marina Silva.

— Ora! Mas nós reunimos todos eles numa frente democrática!

O auxiliar, envergonhado, reage:

— Coronel, o Boulos está dando trabalho… Foi ao Roda Viva nesta semana e “cagou” tudo. Disse que a esquerda vai dar um cavalo de pau na economia e que o Alckmin é um fantoche. O mercado financeiro não gostou. Para piorar, a Marina Silva teve uma votação três vezes menor do que a do Ricardo Salles.

O coronel resolve perguntar sobre os jovens. Chame aquela menina-prodígio Tabata Amaral e todos os jovens de esquerda nas redes sociais. Vamos reagir. Mas o auxiliar parece desanimado.

— Coronel, a Tabata Amaral teve um quinto da votação daquele moleque mineiro, o Nikolas Ferreira. E o pessoal de esquerda não consegue o mesmo engajamento porque é favor do aborto e da língua do “todes”. Veja que absurdo! Parece que o eleitorado brasileiro não quer aprovar o aborto livre, como na Argentina, ou com seis meses de gestação, como a Colômbia! O Brasil insiste em não assumir que somos “brasileires”!

Eis que um auxiliar pede licença e entra na sala.

— Ufa! Coronel, enfim temos um apoio formal. O PDT aderiu.

O chefe reage animado:

— Desde que Dilma nomeou o Lupi ministro, ele nunca me decepciona! Deus abençoe o Brizola! Fizeram quantos deputados nos Estados?

— 17, responde o auxiliar.

O coronel sorri:

— Deve ser o mesmo número do partido do genocida.

(Silêncio na sala)

— Não. Eles fizeram 100. A base parlamentar já tem mais de 250 nomes na largada, é a maior base conservadora da história do Congresso Nacional.

O coronel coça a cabeça e lembra do debate na TV.

— O Ciro mandou alguma mensagem?

O assessor responde:

— Mandou. Mas ninguém entendeu nada.

O coronel se lembra do Padre Kelmon e tem uma última ideia.

— Já sei! Vamos unir as forças na vizinhança, as veias abertas da América Latina! Ligue para o Daniel Ortega, da Nicarágua.

(Em 1957, Gabriel García Márquez escreveu:

— Si el gallo gana… Pero si perde, no te ha ocurrido que el gallo pueda perder?

— Se o galo ganha, ok. Mas e se ele perder? Já pensou que o galo pode perder?

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