A primeira vítima das tiranias, pelo que comprova a experiência dos últimos 2 mil anos, costuma ser a verdade — se bem que tantas misérias costumam chegar juntas, nesses casos, que fica difícil cravar as top 10. O efeito mais visível é a pane geral nos circuitos cerebrais onde se produz o pensamento racional. O debate político cessa de emitir sinais de vida inteligente.
É precisamente o que está acontecendo neste momento de escuridão que cerca o mais vicioso conflito jamais surgido nas relações do Brasil com a maior potência econômica, militar e política do mundo. Os Estados Unidos, dentro das suas leis, aplicaram punições ao Brasil pelo que estimam ser o comportamento delinquente do governo e do ministro Alexandre de Moraes. A reação oficial brasileira é um hino contra a razão.
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Em nenhum aspecto do contencioso o Brasil de Brasília e o seu sistema de propaganda estão construindo uma calamidade tão reles quanto no pacto anormal que têm com o ministro Moraes. O governo brasileiro decidiu que Moraes, cujas decisões e conduta são o verdadeiro motivo pelo qual os americanos adotaram as sanções, está acima das obrigações humanas, como os arcanjos e os profetas. O Brasil é o ministro. O ministro é o Brasil.
Alexandre de Moraes é intocável
Não chega a ser uma ideia; é apenas uma proposição estúpida. Por conta dela, todo cidadão brasileiro está no dever cívico, quase legal, de apoiar o ministro nas suas desventuras com a lei americana — e nas decisões em que viola a lei brasileira. Não importa o que tenha feito na sua função. Ou você fica do lado dele, e do que ele faz — ou então é linchado como traidor da pátria, sabotador do Brasil e inimigo da soberania nacional. É dessa descompensação que sai a última causa da esquerda nacional, como o “Sem Anistia” e outros naufrágios: “Mexeu com o Xandão, mexeu com os brasileiros”.
Com os “brasileiros”? Que brasileiros, cara pálida? Mexeu nada. Só mexeu com o próprio Moraes. Os crimes de que é acusado pelo governo americano — e que o jogam na escória mundial dos torturadores, assassinos em massa, genocidas, terroristas, criminosos de guerra etc. etc. — não têm absolutamente nada a ver com os “brasileiros”. Têm a ver apenas com Moraes e com os seus cúmplices. Não são problema seu. São problema deles.
Não foi você, nem Donald Trump, que abriu ilegalmente um inquérito policial que já dura seis anos, serve de caixa de ferramentas para todo tipo de repressão e torna ilegal tudo o que deriva dele — como os processos do golpe. Não foram os “brasileiros” que condenaram a 17 anos de prisão a moça do batom. Não fomos nós que levamos à morte o “Clezão”. Por que temos de pagar pelo que ele fez?
(J. R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 2 de agosto de 2025)
Legando de altivez, contundência e clareza daquilo que no campo do momento vivido pelo brasileiro, o grande e saudoso jornalista nos deixa como o retrato escrito do Brasil atual.
Extraordinária a lucidez, a compreensão, os caminhos para seguirmos para nossa libertação! Muito obrigado Sr. Guzzo por todos os textos seus que já li na vida!
Texto muito bom
JR Guzzo faz muita falta.
Alexandre, o pária do mundo, um serzinho deus do nada, jogado às traças como um lazarento comum….Que o inferno lhe seja leve!
Vá em paz, Guzzo! Jesus na Sua Misericórdia há de enchê-lo de paz e luz!
Perda irreparável de um imprescindível: principalmente, em tempos de guerra. Que DEUS conforte os familiares e amigos.
Fará muita – MUITA – falta.
Muita! Ainda nos deixou artigos prontos!
Obrigada Mestre Guzzo!
Irretocável. O Morais merece o que está acontecendo a ele, na verdade, ainda é pouco. Um elemento como esse só pode existir por todo o tempo em um país de covardes. Será que o Brasil se tornou um país assim?
Meu caro, eu, é Moraes; não “Morais”. Independente disso, de moral ou morais, não tem nada.
Que falta fará J R Guzzo.
O dia de hoje ele viu lá de cima.
Guzzo descanse em paz. Continuarenmos a luta por você.